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Correio Braziliense

Angola: democracia em construção

Com a economia crescendo em ritmo alucinante, depois de três décadas de conflito, país vai às urnas pela primeira vez em 16 anos. Obras de infra-estrutura e a bonança do petróleo são as cartas do governo


postado em 05/09/2008 07:51 / atualizado em 05/09/2008 07:56

“Não há quem queira mais a paz do que quem passou pela guerra”, afirmou ao Correio o angolano Bito Pacheco, funcionário do Ministério da Cultura, em Luanda. Nas ruas, nos bares e nos mercados de Angola, não se fala em outra coisa: todos querem saber como será a eleição de hoje. O país vai às urnas escolher um novo Parlamento, sob forte esquema de segurança e medidas antifraude, mas em clima de esperança. Angola foi um dos países que mais cresceram no mundo no ano passado, e os 17 milhões de habitantes começam a colher os frutos da economia aquecida e dos investimentos estrangeiros, principalmente da China e do Brasil. Enquanto uns estão otimistas, outros ainda temem que a disputa pelo poder reabra as cicatrizes de três décadas de guerra civil. Ana Cláudia Bacellar vive em Angola e conta como está a expectativa no país para eleições legislativas desta sexta-feira “É um exercício ainda inovador para nós. Trata-se da segunda vez que os angolanos votam, mas há um grande desejo cívico e político que tudo corra bem. Ninguém tem boas recordações das últimas eleições”, revelou o jovem escritor angolano Ondjaki, autor dos livros Os da minha rua e Bom dia camaradas. Para Bito, não há chance de o país voltar às armas: o montante de capital investido pelo governo na infra-estrutura é alto, assim como os investimentos estrangeiros diretos no país. Um conflito pode frear o acelerado desenvolvimento dos últimos anos. Mas, por medida de segurança, a maioria dos trabalhadores estrangeiros deixou a capital. A disputa pelas 220 cadeiras de deputados se concentra em dois dos 14 partidos registrados. O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), do presidente José Eduardo dos Santos, está no poder desde a independência de Portugal, em 1975. Terá pela frente um antigo adversário, os rebeldes da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita). Foram as duas facções que travaram uma guerra civil encerrada em 2002 (leia o Para Saber Mais). No interior, onde a população é mais pobre, as bandeiras do MPLA e da Unita permaneceram expostas lado a lado durante toda a campanha. Há algumas semanas, os dois grupos promoveram partidas de futebol em diversas cidades para promover a paz. Apesar da proibição de pesquisas eleitorais, para evitar conflitos, a expectativa predominante é de que o MPLA mantenha a maioria. Centenas de observadores da União Européia e da África Austral estão no país para fiscalizar a votação. A Comissão Nacional Eleitoral, responsável por todo o pleito e pela contagem dos votos, foi escolhida com o aval de todos os partidos políticos. Mãos à obra Nos últimos anos, o governo de José dos Santos virou o “governo da construção”. As receitas da extração de petróleo e diamante foram investidas em infra-estrutura. Em muitas regiões, não existe energia elétrica nem saneamento básico. “O desenvolvimento é visível e inegável. Falta ainda cumprir mais promessas na área do desenvolvimento social. Mas qualquer cidadão angolano pode dizer que o país está sendo reconstruído a um ritmo inacreditável. Sem dúvida, Angola representa um exemplo para outras nações africanas”, descreveu Ondjaki, que veio estudar no Rio de Janeiro há alguns meses. Na quarta-feira, último dia de campanha, o presidente defendeu seus candidatos diante de uma multidão, na periferia de Luanda. Todos os partidos investiram alto. O MPLA foi assessorado por um agência publicitária da Bahia e teve como lema central da campanha a criação de 1,3 milhão de empregos. A tecnologia também faz parte das eleições. Os angolanos ganharam um cartão eletrônico com sistema antifraude para usar no dia da votação, e receberam mensagens de texto que os encorajavam a comparecer. “O futuro de Angola vai depender muito da boa vontade e da inteligência dos nossos líderes, mas uma coisa é certa: estamos trilhando um novo caminho, com alguma maturidade política e com investimentos financeiros muito sérios”, afirmou Ondjaki. Para ele , e também para alguns especialistas, esse novo caminho será longo e cheio de obstáculos, como a má distribuição da riqueza. “O povo angolano merece esse melhoramento na sua vida.”

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