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Correio Braziliense

Artigo: O futuro da reabilitação neurológica

 


postado em 16/10/2008 07:40 / atualizado em 16/10/2008 07:45

Carlos Gropen Jr. Lesões no sistema nervoso central -- como medula espinhal e cérebro -- são um grande desafio para a ciência desde tempos remotos. A utilização de técnicas de ressonância funcional, por meio da qual se pode ver quais áreas são "ativadas", abriu uma avenida de possibilidades de conhecimento e criou a chance de quantificação mais precisa dos resultados das técnicas aplicadas em cada tipo específico de lesão. Isso começou a modificar algumas de nossas mais antigas concepções e poderá revolucionar o tratamento no futuro. No que tange às células-tronco, ainda não existe um tratamento eficaz e seguro. Em direção a aplicações práticas no mundo real, é necessário "limpar a área lesada", que funciona como uma cicatriz entre as duas porções que teoricamente necessitariam de reconexão. Até mesmo os tratamentos com células-tronco não contemplam isso e constituem uma barreira real a ser transposta. A pergunta seria: "Mesmo que as células-tronco se transformem em neurônios, como transpor a barreira quase 'plástica' entre milhões de microfios e seus respectivos pares dentro de seus invólucros naturais em grupos, subgrupos, subsubgrupos?" Sem contar com os interneurônios que funcionam como conexões em paralelo, parte dos quais com neurotransmissores e mecanismos de atuação parcialmente desconhecidos. Em direção a um universo vislumbrado por Isaac Asimov ou Arthur Clarke, poderíamos imaginar a evolução da nanotecnologia com micromotores que "limpariam" a área lesada -- um tecido formado pelo organismo -- e restabeleceriam estas conexões. Numa perspectiva mais realista, mesclando todas as facetas do problema e a assimetria temporal das descobertas científicas -- como poderia ser elaborado na linha lógica de Philip Dick --, poderíamos imaginar o futuro do tratamento como uma junção de técnicas de indução de neuroplasticidade com a utilização de técnicas de estimulação distal e técnicas de treinamento intensivas. Isso já tem sido feito no mundo com ótimos resultados, nas áreas de células-tronco, nanotecnologia, atividades de realidade virtual com monitorização a distância através de dispositivos de interface e utilização de internet -- conhecido como "Java Therapy" -- e medicações indutoras de diferenciação de células comuns em neurônios. Campos magnéticos específicos induzem a atividade cerebral descendente, numa perspectiva de tentar estimular o crescimento da única porção do neurônio capaz de aumentar de tamanho, a chamada árvore dendrítica. Essas projeções das células nervosas são capazes de crescer e encontrar a árvore da outra célula neural, formando novas conexões e possibilitando a recuperação de parte dos movimentos. Possivelmente, pela maior complexidade relativa do cérebro em relação à medula espinhal, os tratamentos futuros poderão ter resultados práticos na nossa central elétrica medular e posteriormente na central de processamento cerebral. Voltando à terra, alguns tratamentos modernos de reabilitação com treinamento intensivo constituem a melhor forma de tratamento, com resultados significativos e reais. Ainda mais importante que todos os tratamentos dispostos acima é o controle dos fatores de risco para evitar novas lesões. Carlos Gropen Jr. é consultor de saúde do Correio Braziliense e professor da Faculdade de Medicina da UnB

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