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Correio Braziliense

Medicina personalizada revoluciona tratamento

 


postado em 30/11/2008 09:40 / atualizado em 30/11/2008 09:55

Uma mulher vai ao médico e ele a aconselha a fazer uma análise de DNA. Com base nos resultados, detecta uma variante genética comum em casos de câncer de mama — o que indica que ela tem suscetibilidade à doença. A descoberta permite um acompanhamento mais freqüente e medidas de prevenção eficientes. Na Espanha, a colombiana Claudia Castillo recebe um transplante de traquéia revestida com suas próprias células-tronco. Cientistas norte-americanos de Memphis (Tennessee) encontram mudanças genéticas peculiares em células acometidas pela leucemia linfoblástica aguda (ALL), o tipo mais comum de câncer infantil. Esses são apenas alguns exemplos de uma revolução em marcha na área da saúde.

Segundo especialistas consultados pelo Correio, a medicina personalizada vai mudar para sempre o modo de ver o paciente. A decodificação do genoma humano, em 2003, ampliou o leque de possibilidades em laboratórios e hospitais. “A compreensão sobre a nossa composição genética, de que modo isso influencia na nossa propensão a enfermidades, como afeta o grau de progressão da doença e de que maneira responderemos ou não a drogas específicas são informações agora traduzidas aos cuidados médicos”, afirma o indiano Raju Kucherlapati, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard.

De acordo com ele, o avanço ocorre em boa hora: os custos da saúde sobem, os medicamentos funcionam apenas para entre 50% e 60% dos pacientes e os efeitos colaterais são um problema. “Com a medicina personalizada, é possível identificar os pacientes que responderão à droga sem ter reações adversas, a qualidade da saúde aumentará e as despesas serão reduzidas”, prevê Kucherlapati. Isso porque custa menos prevenir doenças crônicas do que tratá-las. “Trata-se de obter a droga certa ou o tratamento para o paciente certo a um custo correto.”

O desenvolvimento do setor já impacta o preço do seqüenciamento do DNA. Quando foi completado pela primeira vez, há cinco anos, custou US$ 2 bilhões. Hoje, o método pode ser aplicado a US$ 100 mil e a perspectiva é de que em 2010 estará disponível a US$ 10 mil. “Agora conhecemos os fatores genéticos importantes para a saúde”, diz o indiano.

Realidade
Geoffrey Ginsburg, diretor do Centro para Medicina Genômica da Universidade de Duke (Carolina do Norte), concorda que a medicina personalizada já é uma realidade. “Nós lidamos com modos mais eficientes de cuidar dos pacientes e prevenir doenças.”

Ele cita como exemplo os testes em amostras de tumor pulmonar para decidir sobre a melhor associação de medicamentos — Herceptinan com Her2 ou cetuximan com Kras — quimioterápicos. “Pela primeira vez, os pacientes podem ser tratados com drogas baseadas na aparência molecular dos tumores.” Na área de diagnósticos, mutações genéticas ajudam as pessoas a compreender o risco de terem uma doença. “Talvez o mais dramático exemplo seja os testes de suscetibilidade BRCA1 e BRAC2 para se antecipar ao câncer de mama. Eles transformaram a vida das mulheres e reduziram o risco cirúrgico”, diz Ginsburg.

Um recente avanço ocorreu no estudo do autismo. Dan Arking, da Universidade Johns Hopkins (Baltimore, Estados Unidos), isolou genes que influenciam na suscetibilidade à desordem. Para isso, monitorou o genoma de 900 famílias com ao menos duas crianças autistas. “Localizamos duas regiões aptas a raras mutações e uma variante comum, que parece exercer efeito protetor contra o autismo.” Em relação ao transplante de traquéia, Kucherlapati crê que o uso de células-tronco é um importante exemplo de medicina personalizada e pede uma infra-estrutura capaz de apoiar mudanças de paradigma na saúde.

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