Mundo

Entrevista: diretora do Unifem vê avanços, mas cobra ações

;

postado em 31/03/2009 08:00
A espanhola Inés Alberdi trabalha há mais de 25 anos em temas sobre política de gêneros. Professora de sociologia da Universidade de Madri, assumiu o cargo de diretora executiva do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) em 4 de junho de 2008. Em entrevista por telefone, do Rio de Janeiro ; onde lançou ontem o relatório Progresso das Mulheres do Mundo 2008/2009 ;, ela falou ao Correio sobre os avanços e desafios da sociedade chegar à igualdade entre homens e mulheres. Quais as principais conclusões do relatório sobre o progresso das mulheres no mundo? O relatório veio nos dizer que é preciso tomar medidas para acrescentar o que chamaríamos a remissão de contas às mulheres. É preciso que os direitos adquiridos pelas mulheres passem de declarações a mudanças reais na vida das mulheres. Nos últimos anos, e de uma maneira muito especial em 1995 ; com a Cúpula de Pequim ;, a comunidade internacional e todos os governos se comprometeram a apoiar a igualdade entre os homens e as mulheres e a avalizar uma série de medidas políticas para tornar essa igualdade uma realidade. Então, nesse relatório fizemos várias análises para saber até que ponto passamos dos propósitos a uma realidade. Nós avaliamos o acesso das mulheres aos serviços de saúde, educação, justiça. Também analisamos questões como a participação política das mulheres ; esse é um aspecto importantíssimo da remissão de contas. Nesse aspecto, as mulheres podem tomar decisões e defender determinadas políticas. Em geral, a situação da mulher melhorou ou piorou? Por que? Em termos gerais, a situação tem melhorado. Os indicadores de educação, de atenção à saúde, de participação política. Em geral, houve um avanço. O problema é que o avanço não se mostra significativo em alguns setores. Em relação à participação política das mulheres, não só é importante que aumente o número das mulheres na política, mas também que se chegue a um número considerado equilibrado ou equânime. A nível internacional, se utiliza bastante como indicador disso a presença de mulheres nos parlamentos nacionais ; 18,4% dos parlamentos no mundo estão ocupados por mulheres. Esta é uma cifra da qual reflete que a cada cinco postos parlamentares, apenas um está ocupado por mulheres. Trata-se de um índice muito baixo de presença política, ainda que seja muito mais alto que o que havia no final da década de 1990. O Unifem crê que falta tomar medidas de positivas de apoio à presença das mulheres na política. Apenas 10 países se aproximam da zona de paridade ; quando 40% a 60% do Parlamento são formados por mulheres. Entre eles, estão Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca, Espanha, Argentina, Costa Rica, Ruanda e Tanzânia. Ao analisar os setores nos quais não houve avanço significativo, quais os principais desafios para se obter uma maior igualdade de gêneros? Nós acreditamos que há quatro temas claros. O primeiro deles é a segurança econômica. É preciso acabar com a excessiva presença das mulheres nos setores da pobreza. Esse é um tema-chave para melhorar a posição das mulheres. O segundo é a participação política das mulheres, tanto em momentos de paz como em momentos de conflito. As mulheres precisam estar nas mesas de negociação onde há conflitos, quando ocorrem os acordos de paz. Normalmente não se leva em conta as necessidades da população feminina. O terceiro tema é a violência. Combater a violência contra as mulheres é um problema para todos os países e um dos mais graves problemas internacionais da atualidade. Em quarto lugar, está a necessidade de se freiar a expansão da Aids entre meninas e mulheres. Pensava-se que a Aids fosse uma doença que afetava mais aos homens e, sobretudo, aqueles de orientação homossexual. Vimos um aumento impressionante do número de mulheres afetadas pela Aids, o que é um problema muito grande. Como a senhora vê a situação da mulher na América do Sul e no Brasil? Eu creio que depende dos setores e dos países. Em termos gerais, há dados muito positivos. A participação das mulheres na comunidade civil foi muito mais alta em alguns países da América Latina. O nível de participação das docentes em pesquisas também é importante. No entanto, há temas muito preocupantes, como os bolsões de pobreza em países prósperos da América Latina. Nesses bolsões, há uma maior participação de mulheres, de mulheres de cor e de mulheres indígenas. O tema da violência também é presente na região. No Brasil, a seriedade e compromisso tomados por parte do governo Lula para reduzir a violência precisam ser copiados por todos os países. Falta muito para a mulher "atender" às Metas de Desenvolvimento do Milênio? As metas básicas de desenvolvimento precisam ser alcançadas. Em relação às mulheres, é importante dizer que todos objetivos estão relacionados com a meta número 3, de igualdade entre homens e mulheres. Os temas da pobreza, da educação, da redução da mortalidade infantil, da luta contra as mudanças climáticas. Todos são assuntos em que é preciso envolver a mulher para serem alcançados. A situação das mulheres no mercado de trabalho melhorou? O relatório revela que, em nível mundial, há um consenso geral de que as mulheres ganham um salário mais baixo que os homens por um trabalho de igual valor. Isso se deve pela discriminação, pela desconfiança dos empresários em relação ao rendimento das mulheres no trabalho. Mas isso não se mostra uma realidade objetiva. As mulheres desenvolvem enorme força de trabalho, nos setores rural, agrícola e industrial. Esse é um tema que reflete uma responsabilidade clara das mulheres. A ONU, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e boa parte dos sindicatos do mundo tentam igualizar a oportunidade de salário para homens e mulheres. De todos os quesitos analisados pelo documento, qual o que mais lhe preocupa? Creio que o tema da violência em relação à distância entre os casos de violência e o conhecimento desses casos. A enorme quantidade de mulheres que são vítimas de violência e não possuem recursos para denunciar o agressor. Uma pequena parte desses casos chega aos tribunais. As mulheres não têm capacidade de acesso aos serviços básicos da sociedade, como a Justiça. Além da participação da mulher na política, também é importante o envolvimento da mulher na responsabilidade econômica. A Lei Maria da Penha pode ser considerada um modelo internacional? A Lei Maria da Penha é uma das mais desenvolvidas do mundo. Ela tem um caráter geral, ao enfrentar o tema da violência. Também leva em conta medidas de ação para ajuda às mulheres vítimas de violência. Uma parte importante da lei é que se aportam recursos econômicos para colocá-la em vigor. O tema da violência jamais será resolvido a curto prazo. As leis ajudam a mudar a mentalidade.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação