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Correio Braziliense

Relatório da ONU aponta discrepâncias entre gêneros

 


postado em 31/03/2009 08:01 / atualizado em 30/03/2009 23:40

Kabore Falone, de 29 anos, é uma mulher de sorte. Ela mora em Uagadugu, capital de Burkina Faso — no centro-oeste da África, o país é apontado pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) como um dos piores para a educação feminina. Apenas 40% das burquinenses têm acesso à escola. No relatório Progresso das mulheres do mundo 2008/2009, lançado ontem pelo Unifem, somente Djibuti e Níger ficam atrás. Professora de inglês, Kabore contou ao Correio, pela internet, que a situação das mulheres é “muito ruim”. “Nos vilarejos, os pais se recusam a enviar as filhas à escola por crerem que a menina precisa casar e cuidar da família.” Em âmbito global, 57% das crianças fora da escola são meninas. O documento mostra que as brasileiras estão quase tolhidas das instâncias decisórias: apesar de 9% dos assentos do Congresso e de 11,4% dos ministérios serem ocupados por mulheres, os números estão abaixo da média mundial. Com o tema “Quem responde às mulheres — Gênero e responsabilidade”, o relatório do Unifem revela que nos próximos 36 anos elas não atingirão o “limite da paridade” no campo da representação política. Até 2045, as mulheres não ocuparão entre 40% e 60% nos parlamentos nacionais. A mortalidade materna sofreu redução entre 1990 e 2005. A África Subsaariana ainda enterra mais mães, com 920 mortes por 100 mil nascimentos. A violência contra a mulher também é uma tônica do documento, que cobra a atualização das legislações específicas e elogia a Lei Maria da Penha, adotada pelo Brasil em 2006. O texto alerta para a possibilidade de descumprimento das Metas do Milênio na perspectiva da igualdade de gênero até 2015, prazo em que todos os objetivos devem ser cumpridos. No âmbito profissional, os homens levam vantagem. A média mundial de disparidade de remuneração entre os gêneros chega a 17%. A força de trabalho feminina é empregada mais no setor agrícola e nas atividades de exportação. A discriminação fica evidente no gerenciamento das empresas: para cada nove homens em cargos de chefia, há uma mulher. A situação se mostra quase “ideal” no Panamá — a diferença salarial média é de 4%. Nidia Mong de Mela, de 40 anos, trabalha em um centro de distribuição na capital, Cidade do Panamá, onde vende livros. “Ainda que estejamos preparadas, os homens sempre ganham mais”, criticou. “A discrepância não é grande porque soubemos defender nossas posições.” No Brasil, a diferença salarial entre os sexos é semelhante nos setores público e privado (média de 15%). No campo da saúde, o Unifem denuncia o aumento estável do número de mulheres e homens convivendo com o HIV, vírus causador da Aids. A proporção de soropositivas subiu de 45% em 1990 para 50%. Consistência Em entrevista ao Correio, Ana Falú, diretora regional do Unifem para o Brasil e o Cone Sul, afirma que o país melhorou “de modo muito consistente” na questão da violência contra a mulher. O relatório classifica a Lei Maria da Penha como uma das três melhores legislações do mundo. “A Lei Maria da Penha é completa, complexa e foi elaborada com o envolvimento do Parlamento, do Executivo e da sociedade civil”, destacou Falú. “O Brasil conseguiu reduzir a diferença entre ricos e pobres, o que nenhuma outra nação da América do Sul fez”, afirmou. » Áudio: ouça podcast com Ana Falú, diretora regional do Unifem para o Brasil e o Cone Sul

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