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Correio Braziliense

Tensão na Ásia: à sombra das armas

Coreia do Norte promete “golpear de modo inclemente” alvos japoneses, caso Tóquio tente interceptar o lançamento de seu suposto satélite. Brasileiros em Seul falam ao Correio


postado em 03/04/2009 08:00 / atualizado em 03/04/2009 18:21

Os tambores que ecoam na Península Coreana são um chamamento à guerra. “Se o Japão interceptar imprudentemente nosso satélite pacífico, nosso Exército Popular vai impor, de modo inclemente, golpes letais não só contra os meios de interceptação já mobilizados, mas contra alvos importantes”, alertou ontem o comando militar de Pyongyang, citado pela Agência Central de Notícias Coreana, órgão oficial de imprensa da Coreia do Norte. Desta vez, a retórica belicosa passou para a ação: às vésperas de lançar um suposto satélite de comunicações, o regime comunista deslocou caças MiG-23 para a região da plataforma de lançamento Musudan-ri, no litoral norte-coreano. O primeiro-ministro japonês, Taro Aso, declarou que o foguete “inimigo” sobrevoará o Japão amanhã. Em Washington, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Robert Wood, afirmou que seu país “não quer ver esse lançamento ocorrer”. Apesar de não indicar uma posição favorável à interceptação do projétil, o Pentágono determinou o deslocamento de destróieres para a região. Sob a alegação de que o lançamento constitui uma violação da resolução 1.718 do Conselho de Segurança, os Estados Unidos admitem retaliar com um pedido na ONU por rígidas sanções contra Pyongyang. No entanto, existe um consenso na comunidade internacional de que China e Rússia — parceiras econômicas da Coreia do Norte — usarão seu poder de veto para impedir a punição. Yukio Takasu, embaixador do Japão no organismo, revelou que convocará uma reunião de emergência do Conselho para discutir uma resposta ao regime de Kim Jong-il. O medo é de que as armas se antecipem à diplomacia. “Uma guerra seria devastadora. Dezenas de milhares de coreanos morreriam em curto espaço de tempo”, disse ao Correio John Feffer, co-diretor do Instituto para Estudos Políticos (em Washington) e autor de O futuro das relações entre EUA e coreanos. “Ao menos 20 milhões de pessoas vivem na área de Seul e estão ao alcance da artilharia norte-coreana.” Longe de casa O mineiro Jair Lage de Siqueira Neto, de 27 anos, se encaixa nesse perfil. Morando há um ano e meio na capital sul-coreana, ele contou, por telefone, que não existe alarde entre a população. “Não sabemos se a imprensa é que não divulga a verdade, a fim de evitar desespero”, comentou. “Para dizer a verdade, mesmo que ocorra algo, a Coreia do Norte seria liquidada. Kim Jong-il daria um tiro no pé”, disse o biólogo, que viveu por 18 anos em Goiânia. Desde dezembro de 2007, o paraense Alberto Mello, de 25 anos, trabalha como cozinheiro no restaurante Copacabana, em Seul. Nos últimos dias, amigos brasileiros o demoveram da ideia de voltar para Belém. “As pessoas estão supertranquilas por aqui. A Coreia do Norte sempre aproveita a época do treinamento militar conjunto entre Coreia do Sul e EUA para fazer o povo daqui ficar com medo”, explicou. Coisa que ele mesmo sentiu duas semanas atrás. “A cidade parou. Os semáforos foram desligados, os metrôs e ônibus deixaram de funcionar. A polícia simulava uma guerra.” P.J. Crowley, analista do Centro para o Progresso Americano, duvida que a retórica resvale para as vias de fato. “Kim Jong-il é irresponsável, mas não suicida”, admitiu. O historiador chinês Yong Chen, da Universidade da Califórnia — Irvine, concorda e afirma que o ditador norte-coreano está isolado. “Mas eu não gosto da análise psicológica de Kim Jong-il que prevalece na mídia ocidental, mostrando-o como um psicopata insano e imprevisível. Muito do que ele quer é irritar o Ocidente para obter vantagens”, aposta.

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