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Ameaça nuclear: Coreia do Sul eleva alerta militar

Ministério da Defesa intensifica ;operações de reconhecimento; sobre a Coreia do Norte e mobiliza os serviços de inteligência. Diplomatas buscam consenso para punir o regime de Pyongyang com sanções

;Watchcon II começou a fazer efeito às 7h15 (de ontem). Ativos adicionais de inteligência serão mobilizados, enquanto operações de reconhecimento sobre a Coreia do Norte se intensificarão.; A senha do aumento de alerta militar da fase 3 para a 2 ; o segundo nível mais alto na escala que vai de 5 a 1 ; foi dada por Won Tae-jae, porta-voz do Ministério da Defesa sul-coreano, e também vale para as forças norte-americanas estacionadas na Península Coreana. Won não forneceu detalhes sobre o real significado dessa medida, tomada depois que o regime comunista de Pyongyang decidiu abandonar o armistício assinado com a Coreia do Sul em 1953, que suspendeu a Guerra da Coreia. O ditador Kim Jong-il também havia alertado, na quarta-feira, que não poderia garantir a segurança de barcos norte-americanos e sul-coreanos ao longo da fronteira marítima. O Comando das Nações Unidas na Coreia do Sul, liderado pelos EUA, rejeitou a declaração de Pyongyang de não comprometimento com o cessar-fogo na região. ;O armistício permanece em vigor e está amarrado a todos os signatários, incluindo a Coreia do Norte;, informou nota emitida pelo organismo, de acordo com a agência de notícias sul-coreana Yonhap. No plano diplomático, fontes ligadas ao Conselho de Segurança da ONU admitiram à agência de notícias espanhola EFE que Estados Unidos, Rússia, França, China e Reino Unido ; os cinco membros permanentes com poder de veto ; aceitariam punir o regime de Kim. A própria Casa Branca considerou ;muito úteis; os esforços empregados por Pequim em suas críticas à Coreia do Norte. ;As posições chinesas foram extremamente úteis nas conversações;, afirmou o porta-voz Robert Gibbs. ;É importante que a Coreia do Sul e os EUA não façam nada no campo militar que possa ser mal-interpretado pela Coreia do Norte ou usado como pretexto para um ataque;, afirmou ao Correio o dinamarquês Hans Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação dos Cientistas dos Estados Unidos, com sede em Washington. Ele considera ser impossível prever as intenções de Kim. ;Não acho que a Coreia do Norte atacará, pois haveria um banho de sangue. A proximidade de centenas de milhares de soldados com artilharia e mísseis em ambos os lados da fronteira criaria terríveis perdas civis;, opinou. ;Um ataque militar seria o fim da Coreia do Norte.; Para o historiador chinês Yong Chen, da Universidade da Califórnia-Irvine, o regime norte-coreano vai sucumbir em um futuro próximo. ;Os fundamentos políticos e ideológicos estão falindo, e o governo dirige uma economia incapaz de alimentar a população. Nesse sentido, o teste nuclear se transforma na criação de uma ilusão psicológica de grandeza;, admitiu. Chen acha pouco provável que Pyongyang inicie uma guerra. ;A China e a Rússia se opõem a qualquer agressão. Sem o apoio de Pequim, Pyongyang não poderia sustentar qualquer atividade militar por mais que poucos dias;, concluiu. ALTA TENSÃO Como a crise nuclear norte-coreana ganhou contornos preocupantes 5 de abril A Coreia do Norte ameaça lançar um controverso foguete, que seria um míssil de longo alcance 14 de abril Pyongyang encerra as negociações e reativa o reator nuclear 29 de abril O regime norte-coreano ameaça realizar um teste nuclear caso a ONU não se desculpe por criticar o lançamento do míssil 25 de maio A Coreia do Norte realiza o segundo teste nuclear 26 de maio O presidente dos EUA, Barack Obama, promete apoio militar aos aliados asiáticos 27 de maio Pyongyang abandona a trégua que pôs fim à Guerra da Coreia Fonte: Balanço Militar do Instituto Internacional de Estudos
Ditadura ;feudal; Viviane Vaz O presidente do Comitê para Democratização da Coreia do Norte, Hwang Jang-yop, foi professor universitário de Kim Jong-il e hoje é o maior crítico do regime do ditador. Exilado na Coreia do Sul desde 1997, Hwang acusa Jong-il de ;construir o feudalismo, em vez do socialismo;, uma vez que todas as manobras do ditador servem para manter a própria família no poder. ;Sanções não servem para nada. Nós devemos deixá-los para lá e ignorá-los mesmo que conduzam 10 testes;, avaliou ontem em um seminário político realizado na capital sul-coreana, Seul. ;Kim Jong-il sabe muito bem que usar armas nucleares seria sua perdição, então ele nunca o fará;, diz. Para Hwang, o segundo teste realizado tinha como objetivo ameaçar os Estados Unidos para obrigá-los a negociar diretamente com a Coreia do Norte e assim aumentar o prestígio de Kim Jong-il. Um analista sul-coreano consultado pelo Correio concorda que os últimos atos do ditador servem sobretudo para o público interno que externo. ;Kim fracassou no âmbito socioeconômico, resta-lhe agora só o poder militar como demonstração de força.; No último relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU, o jurista Vitit Muntarbhorn definiu a situação na Coreia do Norte como ;terrível e desesperadora;, um cenário de fome, tortura e espionagem generalizada, além de mensagens doutrinárias por alto-falantes e nas escolas. Negociação Isolado na região, Kim Jong-il gostaria de ver os 28.500 soldados americanos fora da Coreia do Sul e insiste em uma negociação a duas partes, só com os EUA. A diplomacia sul-coreana, por sua vez, apoia a negociação em seis partes, com a participação dos vizinhos diretos ; Rússia e China ; e os mais distantes, Japão e EUA. O governo de Seul considera que os testes nucleares do vizinho do norte constituem uma ;provocação; e podem levar a uma corrida armamentista. Apesar de descartarem que Kim aperte o botão nuclear, os sul-coreanos se preparam para uma escalada de conflitos no Mar Amarelo. ;A melhor e mais correta solução, apesar de ser difícil, seria concentrar-se na mudança de regime na Coreia do Norte;, conclui Hwang.