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Correio Braziliense

OEA com portas abertas para Cuba

Organização dos Estados Americanos revoga resolução patrocinada pelos EUA em 1962 e acaba com a exclusão do regime comunista. Reintegração depende de negociações e da vontade de Havana


postado em 04/06/2009 08:19 / atualizado em 04/06/2009 08:19

Depois de 47 anos excluída da Organização dos Estados Americanos (OEA), Cuba poderá retornar ao grupo em breve, se assim desejar. A decisão foi tomada pelos representantes dos 34 países membros na 39ª Assembleia Geral, encerrada ontem em Honduras. A resolução que põe fim à suspensão da ilha se apoia em dois pontos principais: a anulação da exclusão e a possível participação de Havana no organismo, condicionada ao desejo do governo de Raúl Castro e aos princípios da OEA. A notícia foi recebida com grande entusiasmo em todo o continente. O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, disse que a decisão “lava uma mancha” da OEA, acrescentando que isso “dificilmente teria sido alcançado na administração passada dos EUA”. O chanceler da Venezuela, Nicolás Maduro, afirmou que este dia marcará o início de “um novo tipo de relação entre as elites dos EUA e nossos povos”. O secretário de Estado adjunto dos EUA para a América Latina, Thomas Shannon, que representou Hillary Clinton no último dia da assembleia, disse que as ações de aproximação do governo de Obama representam “a maior mudança” da política de Washington em relação à ilha em quatro décadas. “Mas também se estabelece um processo para iniciar contatos com Cuba baseado nos princípios e práticas da OEA e no sistema interamericano”, ressaltou Shannon, que será o próximo embaixador americano em Brasília. Na Costa Rica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou a “vitória do povo latino-americano”. “Mais do que fortalecer a OEA, prevaleceu o bom senso, porque ninguém mais conseguia explicar, ninguém mais conseguia entender, fazer uma reunião dos países das Américas e Cuba não estar presente, como se fosse o patinho feio”, afirmou Lula, destacando que a ilha não está mais “marginalizada”. O Brasil teve papel central na decisão. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, vinha mantendo contatos com os EUA, Cuba e outras partes para buscar uma ponte entre “duas posições extremas”: a de Washington, que pretendia condicionar a reintegração a compromissos concretos de Havana com a democratização, e da Nicarágua, que propunha o reingresso automático. Veio de Amorim a proposta da criação de um grupo de trabalho, que se reuniu desde o início da tarde até a meia-noite da última terça-feira. “O problema maior não foi tanto a Venezuela, mas a Nicarágua e o Manuel Zelaya (presidente hondurenho)”, afirmou ao Correio uma fonte do Itamaraty. Na avaliação do Brasil, a resolução impediu que um processo de votação provocasse rachas na OEA. Brechas A fórmula de consenso, adotada na assembleia, está sendo chamada de “dois passos”, pois revoga a resolução de 1962, mas prevê a abertura de um diálogo sobre a reintegração, caso Cuba aceite. Para os EUA, isso é uma garantia para continuar pressionando por mudanças democráticas na ilha. Para outros países, como Nicarágua, Venezuela e Bolívia, o próximo passo deve ser a suspensão do embargo norte-americano à ilha. “Cuba não está pedindo para se incorporar à OEA, isso nem interessa a ela”, disse o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, durante a plenária. O governo de Havana afirmou reiteradas vezes que não pretende retornar ao grupo interamericano.

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