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Onda de protestos que convulsiona o Irã revela a força crescente das mulheres

postado em 26/06/2009 07:50

A bala que varou o coração de Neda Agha Soltan, 26 anos, no último sábado, também expôs uma ferida incrustada no seio da sociedade teocrática islâmica: a Revolução Iraniana de 1979 cerceou direitos básicos das mulheres e tolheu parte de sua liberdade. Se Neda apenas assistia a um dos protestos que têm sacudido Teerã nos últimos dias, outras iranianas tomaram as ruas da capital de 7,8 milhões de habitantes para soltar um grito sufocado há tempos na garganta. A estudante Ghazal (nome fictício), 19 anos, tem participado das manifestações acompanhada da mãe ou das irmãs. ;Todos sabem que o povo iraniano é como fogo sob cinzas. O grito da oposição se tornou um idioma em meu país;, afirmou Ghazal ao Correio, por meio de um software de videoconferência pela internet. Ela contou que, na manhã de ontem, a metrópole iraniana parecia ;profundamente adormecida;, mas os distúrbios começaram durante a noite.

[SAIBAMAIS]Ghazal sabe da incerteza em relação ao futuro do movimento contrário à reeleição do presidente Mahmud Ahmadinejad. ;É preciso manter uma pressão extrema. E em toda revolução há alguns prazos, as pessoas se cansam de protestar;, admitiu. O fato de alguns iranianos abandonarem as fileiras do ex-premiê Mir Hossein Moussavi aumenta a indefinição em torno do levante social. ;Muitos estão desistindo por temerem a segurança de suas famílias;, explicou Ghazal. Nem mesmo a milícia Basij e seus homens à paisana parecem intimidar as mulheres.

Professora da Escola de Estudos Internacionais Avançados Johns Hopkins, em Washington, a iraniana Sanam Vakil lembra que elas têm demonstrado ativismo político desde a revolução de 1979. ;Esse fenômeno vem aumentando, à medida que as mulheres se tornam mais educadas;, diz Sanam, que acaba de escrever um livro cujo título provisório é Agents of change: women;s activism in the Islamic Republic of Iran (Agentes de mudança: o ativismo das mulheres na República Islâmica do Irã).

Batalhas
Durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988), elas passavam boa parte do tempo nas frentes de batalha ou contribuindo com a força de trabalho. ;Agora, as mulheres já superam os homens na universidade e têm lutado para reverter as leis islâmicas que pesam sobre elas. As iranianas querem mais direitos e mesmo aquelas seculares tentam acabar com o governo;, admite Sanam. Mesmo a 12,8 mil km de casa, a iraniana Mana Gh (sobrenome fictício), neta da poetisa persa Simin Behbnahani, tenta lutar pela causa reformista. ;Eu me sinto triste pelo fato de terem se passado três décadas e, agora que chegou a hora de mudarmos as leis brutais contra as mulheres, eu não esteja em meu país;, disse.

De acordo com Mana, dois terços da população iraniana têm menos de 30 anos. Entre essa amostra, 60% dos estudantes são de mulheres. ;Em meu país, nós, mulheres, não temos liberdade e vivemos sob leis islâmicas de 1,4 mil anos. Se divorciarmos, não podemos criar nossos filhos. No geral, uma iraniana é contada como um ser humano pela metade;, desabafou. Ela conta que até mesmo as vítimas de estupro precisam de uma testemunha para fazerem valer sua voz perante as autoridades. Por isso, a ânsia por mudança. ;Protestar no Irã é contra a lei;, acrescentou.

Mana não vê comparações com a Revolução do Chador ; em 1936, o uso do xador (veste feminina que cobre todo o corpo, com exceção dos olhos) foi banido pelo xá Mohammad Reza Pahlevi, mas as mulheres mais tradicionais desafiaram a proibição. ;Todos estamos unidos contra o governo, religiosos e pró-chador, não religiosos e contrários ao chador. O governo e o sistema dos aiatolás estremeceu e perdeu crédito entre os próprios simpatizantes. A sociedade iraniana nunca mais será a mesma;, comemora Mana. O sacrifício de Neda Soltan teve grande parcela de contribuição nesse fenômeno. ;Neda representa a luta coletiva de toda a sociedade;, disse Sanam.

Herdeira do clã

Faezeh Rasfsanjani, filha do ex-presidente iraniano Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, exemplifica o papel que as mulheres estão desempenhando na rebelião contra o resultado oficial das eleições presidenciais do último dia 12. Quatro dias depois da votação, ela participou de uma marcha em Teerã (foto) e discursou para os manifestantes. Faezeh e um irmão foram detidos dias mais tarde, acusados de incitar à desobediência contra a liderança religiosa. A família Rafsanjani, das mais ricas e poderosas entre os novos ;clãs; surgidos no regime islâmico, teve papel destacado na campanha do candidato reformista Mir Hossein Moussavi. Hashemi Rafsanjani é desafeto público de Mahmud Ahmadinejad, que lhe impôs uma derrota humilhante no segundo turno das eleições de 2005. Na reta final da campanha deste ano, durante um debate que travou com Moussavi na TV, o atual mandatário questionou o rival sobre o apoio que teria recebido de ;políticos corruptos;, o que levou Rafsanjani a pedir (em vão) que o líder religioso censurasse Ahmadinejad.



Reformista desafia líder supremo

Da redação

O candidato da facção reformista do regime islâmico à Presidência do Irã, Mir Hossein Moussavi, que rejeita como fraudulenta a reeleição do presidente Mahmud Ahmadinejad, convocou seus partidários a continuarem os protestos que se repetem diariamente desde o último dia 12. Mais que isso, Moussavi desafiou abertamente o líder religioso supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que havia ordenado o fim das manifestações e exigido do candidato obediência. ;Não vou me furtar a defender os direitos do povo iraniano por interesses pessoais ou medo de ameaças;, afirmou o líder oposicionista em comunicado publicado em seu site na internet.

Moussavi, que foi primeiro-ministro entre 1981 e 1989, quando Khamenei era presidente, denunciou vigorosamente a censura que está sofrendo, incluindo a prisão de mais de 20 jornalistas do diário Kalameh Sabz. ;Meu acesso ao povo foi completamente restringido. Nossos dois sites de internet estão passando por vários problemas, o Kalameh Sabz foi fechado e o pessoal da equipe foi detido;, afirma o comunicado. ;Isso de maneira nenhuma contribui para melhorar a atmosfera (política) no país, apenas nos levará a mais violência.;

Embora as manifestações de rua tenham arrefecido, em boa parte pela repressão cerrada imposta pelas autoridades, Moussavi não foi o único a contestar o regime ontem. Quase dois terços dos integrantes do Majlis, o Parlamento iraniano, boicotaram uma festa pela reeleição de Ahmadinejad, para a qual os 290 deputados foram convidados. Entre os 180 que não compareceram, apenas cerca de 50 pretencem à facção reformista. A lista dos ausentes inclui o próprio presidente do Majlis, Ali Larijani, ele próprio um conservador e muito próximo ao líder religioso, mas também um crítico sistemático do presidente reeleito ; especialmente de sua política externa calcada no confronto com os Estados Unidos e o Ocidente, que segundo os adversários teria debilitado a posição internacional do país.

Ahmadinejad, de sua parte, manteve o tom desafiante e acusou o novo presidente dos EUA, Barack Obama, de repetir ;o erro; de seu antecessor imediato, George W. Bush, de ;intrometer-se; com assuntos domésticos do Irã. ;A questão é por que ele caiu nessa armadilha e repetiu as coisas que Bush costumava dizer;, disse o presidente reeleito iraniano.

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