Jornal Correio Braziliense

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Muro dividia uma Alemanha parada no tempo de outra moderna

Ainda nos dias que se seguiram à queda do Muro de Berlim, cruzar a fronteira entre as duas metades da cidade era como atravessar um túnel do tempo. Do lado ocidental, a metrópole feérica, moderna, febril em cada aspecto da vida social, como se todo dia devesse ser vivido com a máxima intensidade. Além do paredão de concreto, que em Berlim Ocidental era de acesso livre, coberto de grafites, o mundo parecia ser visto pela tela de um televisor preto e branco. Cinzento, parcamente iluminado, sombrio como a expressão no rosto dos cidadãos. A paisagem, uniforme como as roupas: vestidos de estampas padronizadas, velhas calças jeans, camisas de flanela e linho com a mesma e invariável estampa xadrez. Poucos, pouquíssimos carros, e apenas os antiquados Trabant, com o inconfundível toque-toque de seu motor acanhado e fumacento - nada do trânsito frenético dos BMWs, Porsches e Audis no enclave capitalista incrustado no "Estado socialista dos operários e camponeses alemães". [SAIBAMAIS]Berlim Oriental parecia uma cidade congelada nos anos 1950. E, nas áreas próximas à fronteira, era uma cidade-fantasma. Para além da zona de exclusão que mantinha possíveis fugitivos afastados do muro, sucediam-se prédios deteriorados, alguns em ruínas, ruas estreitas e despovoadas. Do Checkpoint Charlie, o posto de passagem celebrizado nas tramas de espionagem - as da ficção, mas também as reais -, até a Alexanderplatz, dominada pela imponente torre de rádio e TV, ela própria um monumento à autoimagem de máquina construída pelo regime comunista, a caminhada de cerca de meia hora funcionava como um intervalo de adaptação para os recém-chegados. Porque a travessia tinha também sua função ritual. Na chegada à fronteira do lado ocidental, por exemplo pela histórica Friedrichstrasse, o aviso com tons de Guerra Fria continuava (continua) à vista: em inglês e francês, placas advertiam: "Você está deixando o setor americano", como era chamada aquela região da cidade logo após a derrota de Hitler e a ocupação pelas potências vencedoras da 2ª Guerra. Os guardas americanos apenas examinavam o passaporte e o viajante se dirigia por alguns metros até um robusto Vopo, forma contraída de Volkspolizei ("polícia do povo"), para ser encaminhado ao posto de controle oriental. Então, sucediam-se grades, portas, corredores sem janelas. E as revistas, as perguntas, muitas perguntas, dependendo do humor do Vopo. Em um dia de má vontade, ele poderia simplesmente negar passagem. Não restava a quem recorrer. Em um fim de noite, talvez, o guarda de fronteira entediado, injuriado com o plantão, pudesse exercer outras modalidades de vingança. Bastava reter o viajante para consultas misteriosas e deliberadamente ameaçadoras por um telefone, onde poderia estar apenas simulando uma conversa, enquanto folheava o passaporte e supostamente consultava um superior sobre possíveis irregularidades. Depois de algum tempo, a passagem seria finalmente aberta, tarde demais para que se conseguisse transporte com metrô ou bonde. Restava caminhar pelas ruas tristes e semidesertas, respirar um ar com odor característico o suficiente para ficar na memória associado ao alívio de deixar para trás uma espécie de prisão. Sarcasmo dos ossis Naquele novembro de 20 anos atrás, a novidade era assistir ao passado e ao futuro cruzando o túnel em ambos os sentidos. Pela manhã, os ossis, como eram chamados os orientais, tomavam o rumo de Berlim Ocidental para receber a "mesada" (em parcela única) instituída pelo governo de Bonn para os que visitavam pela primeira vez. O nome oficial era Begrüssungsgeld - "dinheiro de cumprimento". Com ele, os primos pobres iam às compras no paraíso do consumo. Uma certa manhã, eles se aglomeravam em uma praça em torno de um vendedor que atirava bananas a quem erguia o braço segurando as notas do valioso marco ocidental. Graças à moeda forte, os ossis voltavam no início da tarde transfigurados: cobertos de jaquetas coloridas, sobraçando sacolas e pacotes, orgulhosos com seus eletrodomésticos. O Begrüssungsgeld abriu para os ossis as portas dos templos do consumo, como a monumental loja de departamentos KDW. Também antecipou o golpe de ocasião com o qual o chanceler ocidental, Helmut Kohl, praticamente comprou a reunificação alemã pela via mais rápida: a adesão dos cinco estados orientais à Constituição da República Federal da Alemanha, segundo uma cláusula prevista desde a divisão oficial do país, em 1949. Em março de 1990, na primeira e única eleição competitiva na Alemanha Oriental, Kohl apresentou a proposta de realizar a união monetária a uma taxa de câmbio irresistível para os orientais: um marco ocidental por dois orientais. Seu partido, a União Democrata Cristã, venceu e arrematou a dissolução do regime comunista. Para entender o que significava esse subsídio em massa, nada melhor que a anedota contada por um economista alemão-oriental, àquela altura debruçado sobre os planos de uma reforma econômica que a história atropelaria. Ele usava como parâmetro a tarifa do metrô em Berlim Oriental, da ordem de centavos de uma moeda que, no câmbio real, era trocada pelo marco ocidental à base de 10 por um. As moedas depositadas nas maquininhas, de onde se podia retirar o bilhete sem pagar, nada significavam para quem pagasse. Muito menos para a empresa operadora do sistema. "Era um teste de caráter", ironizava o economista. O sarcasmo tornou-se parte insubstituível das estratégias de sobrevivências dos ossis a um sistema construído sobre lemas fictícios e mentiras puras e simples. Em um estaleiro do bairro de Köpenick, o encarregado de uma seção mostrava o galpão semideserto, explicava que uns subordinados haviam faltado: tinham avisado que haveria no bairro uma oferta imperdível de algum alimento escasso. Os colegas conspiravam para encobrir a ausência, de olho no dia em que seria a própria vez de dar o cano para ficar na fila. Para os fins oficiais, os relatórios diriam que as metas estabelecidas nos planos econômicos estavam cumpridas. O troco dos ossis para esses pactos de cinismo aos quais um regime artificial os obrigava era mais cinismo por parte das divisões de propaganda. Uma das piadas zombava dos Kombinaten, complexos industriais que eram o orgulho do Estado, uma combinação de gigantismo e ineficiência. A piada anunciava que o Kombinat do setor eletroeletrônico acabava de produzir "o maior microchip do mundo".