São Paulo - Pelo menos 4 mil chilenos estão no Brasil tentando voltar para casa e não conseguem, devido à falta de voos para Santiago. A estimativa é da embaixada chilena no Brasil. A maioria deles está em São Paulo, em Santa Catarina e no Rio de Janeiro, onde houve protesto por causa da falta de voos e de informações. Eles usaram uma bandeira do país e cartazes para pedir ajuda à companhia aérea Lan Chile, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera. Em São Paulo, vários saguões do Aeroporto de Guarulhos estão lotados de chilenos. Dois voos programados para ontem foram cancelados em cima da hora e os chilenos que já haviam feito check-in fizeram um tumulto.
[SAIBAMAIS]Listas de espera em três companhias que operam para Santiago tinham, até as 18h, pelo menos 600 nomes. "O problema é que dependemos da liberação dos aeroportos. Não adianta colocar passageiros nos aviões", justificou a atendente Maakika Garritha Blanka, funcionária da Lan Chile. Nem sempre os passageiros entendem o argumento das companhias aéreas. A estudante Jocelyn Smith Cea, 24 anos, está no Brasil desde o carnaval. Ela conta que está desde domingo no Aeroporto de Guarulhos tentando voltar para Santiago. Sem dinheiro para pagar hotel e alimentação, passou a pedir dinheiro para passageiros nas filas das companhias aéreas que fazem voos para os Estados Unidos e a Europa. "Os brasileiros são mais sensíveis e colaboram com notas de R$ 10 e R$ 20. Os americanos dão moedas", reclama.
Sem validade
A veterinária Constanza Veliz, 33 anos, veio ao Brasil participar de uma reunião com um fornecedor de produtos químicos. Aproveitou para conhecer algumas cidades do interior de São Paulo. Ao tentar voltar para Santiago, na segunda-feira, descobriu que a sua passagem da TAM não estava mais valendo. "No balcão, informaram apenas que vão devolver o meu dinheiro para a conta do cartão e fizeram questão de frisar que não vão cobrar a taxa de embarque, que já estava paga. Achei um absurdo. Uma falta de respeito", disse, nervosa.
Até ontem à noite não havia previsão de quando os passageiros chilenos que acamparam em Guarulhos vão voltar para casa. Para hoje, estão programados dois voos, mas eles dependem de confirmação. Além de falta de dinheiro para alimentação e hospedagem, os turistas chilenos que estão presos no Brasil reclamam da falta de informações. A vendedora Sol Elizondo Rojas, 28 anos, não fala com os seus familiares desde sábado, dia em que a terra tremeu no Chile. "É desesperador saber que a sua família pode estar morta porque o telefone não dá sinal algum", ressaltou.
Ônibus
No Aeroporto Antônio Carlos Jobim, o Galeão, no Rio de Janeiro, cerca de 200 turistas chilenos esperam acampados para embarcar. Assim como em São Paulo, eles tentam embarcar pelo menos para Buenos Aires, na Argentina. De lá, eles pretendem chegar a Santiago e a outras cidades chilenas de ônibus. "O Consulado chileno não ajuda em nada. Por isso, peguei um ônibus no Rio e vim para São Paulo tentar embarcar. O meu problema nem é falta de dinheiro. Posso pagar uma passagem agora. Mas não tem voos", ressalta o biólogo Tomás de Poveda, 33 anos. Ele estava de férias em Angra dos Reis e perdeu contato com a mãe, que mora em Santiago.
Para alívio dos chilenos, o cônsul Horacio Del Valle teve ontem uma reunião com a Infraero e as empresas aéreas que operam para o Chile. Na saída, prometeu tomar providências para auxiliar os turistas chilenos que esperam voos no Rio e em São Paulo. O cônsul prometeu ainda manter um diplomata chileno nos dois aeroportos para prestar auxílio e fazer um cadastro de passageiros para que possam receber descontos negociados em hotéis, pensões e albergues ou se hospedar na casa de voluntários. "Nesse momento, podemos contar e muito com a solidariedade do brasileiro. Muitas pessoas nos telefonaram colocando suas casas à disposição e recebemos uma doação de R$ 6 mil, que deveremos usar para alimentação", ressaltou Del Valle.
Em Santa Catarina, onde cerca de 200 turistas chilenos estavam à espera de voos, pelo menos metade deles pegou ônibus e seguiu ontem para Buenos Aires. No entanto, cerca de 150 que estavam em municípios próximos chegaram a Florianópolis para tentar embarcar. Alguns seguiram de ônibus para São Paulo, onde há mais voos e lojas de empresas chilenas.