postado em 24/03/2010 07:00
Sem concorrentes, o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), o ex-chanceler chileno José Miguel Insulza, deve ser reeleito hoje para mais cinco anos no cargo, como resultado de um denominador comum mínimo estabelecido entre os 34 países-membros. Dois meses atrás, ele havia garantido o respaldo de Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai, Costa Rica, Guatemala, El Salvador e República Dominicana. Criticado por sua fraca atuação na solução da crise política em Honduras e por aparentar pulso frouxo com os regimes bolivarianos, Insulza só obteve ontem o aval dos Estados Unidos, anunciado pela secretária de Estado Hillary Clinton. Mas, ao contrário de cinco anos atrás, não recebeu endosso dos países da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), bloco encabeçado por Cuba e Venezuela.No início do mês, jornais caribenhos publicaram rumores de que alguns países da Alba ;Venezuela, Nicarágua, Equador e Bolívia; estariam buscando votos para apresentar a candidatura do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya. No entanto, o assessor Rasel Tomé afirmou que Zelaya ;não tem interesse; na OEA. ;Não se discutiu tal proposta no seio da Alba;, confirmou para o Correio, de Caracas, o secretário executivo do bloco, Amenothep Zambrano.
O jornal americano The Washington Post sugeriu, em editorial publicado em fevereiro, que os EUA apresentariam como candidato o presidente da Costa Rica, Óscar Arias, que atuou na mediação da crise de Honduras e encerrará neste ano seu mandato, mas o próprio Arias manifestou apoio a Insulza. Para o Post, Insulza fez pouco pela liberdade de expressão no continente. ;No caso dos países onde a democracia foi sistematicamente desmantelada por uma nova geração de líderes autoritários, incluindo Venezuela e Nicarágua, a OEA não atuou em absoluto;, acusa o texto. O jornal também reclamou do apoio do secretário-geral à decisão de revogar a suspensão imposta a Cuba há 47 anos.
Insulza defendeu-se alegando que não podia ;envolver-se em questões de ordem interna dos países-membros;. Acabou apontando uma articulação de ;setores políticos; americanos contra sua candidatura, ;os mesmos que estiveram por trás da campanha em favor do (presidente de fato) Roberto Micheletti, em Honduras;. O secretário-geral também entrou em atrito com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, no fim de fevereiro. O mandatário anunciou que seu país sairá da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH, órgão da OEA) depois que o organismo denunciou a intolerância política e as hostilidades contra a oposição. ;É uma nefasta Comissão de Direitos Humanos, é uma verdadeira máfia, e isso é parte da OEA. Por isso, um dia essa organização deve desaparecer;, disse Chávez.
Promessas
Se for confirmado para mais cinco anos, Insulza promete fazer reformas profundas na instituição e introduzir um ;multilateralismo moderno;, como na União Europeia (UE), oposto ao ;multilateralismo da Guerra Fria, caracterizado pela confrontação;, que ele considera ter sido cultivado na OEA. ;No multilateralismo moderno, não apenas comprometemos nossos países com padrões comuns em matéria de democracia, direitos humanos, segurança e desenvolvimento, mas também forjamos de comum acordo as redes e os mecanismos que apoiem ou coloquem em prática os compromissos assumidos;, disse.
Insulza também propõe modificar o principal acordo entre os membros da OEA para resolver futuras crises políticas. ;É necessário imaginar formas de aplicar a Carta Democrática Interamericana antes, e não depois que as crises se materializem;, disse o secretário-geral, lembrando que no caso de Honduras o mecanismo não foi acionado a tempo. Na quarta-feira, Insulza oficializou sua candidatura perante os 34 representantes do continente, mas para ser ratificado no cargo precisará de metade dos votos mais um ; sem contar com Honduras, que continua suspensa, nem com Cuba, que, embora readmitida, preferiu manter-se fora do bloco.