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Correio Braziliense

EUA é o principal alvo

Especialistas afirmam que os Estados Unidos continuam sendo o país mais ameaçado por grupos radicais islâmicos. Secretário da Justiça diz haver fortes evidências de que o Talibã paquistanês está por trás de ataque frustrado na Times Square


postado em 10/05/2010 07:46

Já se passaram 3.164 dias desde que as Torres Gêmeas ruíram e o Pentágono foi golpeado. As lembranças do pior atentado terrorista da história voltaram a infernizar os norte-americanos nos últimos dias, desde que o paquistanês naturalizado norte-americano Faisal Shahzad tentou explodir, no último dia 1º, um utilitário em plena Times Square, um dos locais mais visitados de Nova York. O anúncio, ontem, de que o governo dos Estados Unidos tem novas evidências de que os talibãs do Paquistão estão por trás do atentado frustrado, reforça a opinião de especialistas que apontam que o país ainda é o principal alvo dos terroristas islâmicos. “Sabemos que (os talibãs paquistaneses) facilitaram (o ataque). Sabemos que provavelmente colaboraram no financiamento, e que Shazad trabalhava sob sua direção”, afirmou o secretário da Justiça americano, Eric Holder, à rede de tevê ABC.

Desde o episódio, o medo passou a fazer parte da rotina da população dos EUA. Um ônibus abandonado levou ao fechamento da Ponte Robert F. Kennedy, em Manhattan. Não muito longe dali, também em Nova York, uma caixa térmica forçou autoridades a esvaziarem novamente parte da Times Square. No aeroporto de Seattle, uma maleta de onde saía fumaça provocou pânico.

Infelizmente, os especialistas dizem que o estado de alerta é necessário e que grupos como o Tehrik-i-Taliban Pakistani (TTP) a Al-Qaeda, responsável pela destruição das Torres Gêmeas, planejam atacar o país. “A Al-Qaeda e seus aliados jihadistas se mantêm determinados a atacar dentro dos EUA. Mas a cooperação sem precedentes entre os serviços de inteligência e as agências de segurança no mundo tornou mais hostil o ambiente operacional para novos atentados”, explica ao Correio Brian Michael Jenkins, 68 anos, autor de Nação inconquistável: conhecendo os nossos amigos e nos fortalecendo e analista da Rand Corporation, com especialização em terrorismo e segurança de transportes. Apesar de acreditar que o núcleo da Al-Qaeda se enfraqueceu, ele não prevê paz permanente. “Isso não significa que a organização de Osama bin Laden foi derrotada ou que alcançamos um ponto de virada”, alerta. “O conflito deve continuar por décadas.”

Segundo Jenkins, a atual campanha da Al-Qaeda centra-se mais em seus comandantes de campo no norte da África, na Península Arábica e no Iraque. “A rede vem pedindo que seus líderes regionais façam o que puderem e onde quer que estejam”, afirma, referindo-se ao impulsionamento da jihad (guerra santa). “Por isso, devemos nos antecipar a futuros complôs terroristas.” O especialista da Rand Corporation atribui a reivindicação de autoria do ataque à Times Square, por parte do TTP, a uma estratégia similar. “O TTP também está buscando anunciar suas ambições globais, mas não é uma facção sofisticada, sob o ponto de vista organizacional”, assegura. Ele aposta que Shahzad não recebeu treinamento avançado dos talibãs paquistaneses, por causa da natureza rudimentar da bomba — uma mistura de três recipientes com propano e dois com gasolina, fogos de artifício, dois relógios, cabos e outros materiais.

Nos últimos nove anos, as autoridades norte-americanas registraram 48 casos de radicalização e de recrutamento do extremismo jihadista no país. Pelo menos 130 pessoas foram indiciadas ou presas. A pressão exercida pela sociedade motivou o FBI (a Polícia Federal dos EUA) a revisar sua política antiterror. A ordem agora é intervir antes que o pior ocorra — no linguajar policial, “ficar na mão esquerda da explosão”.

Ameaça doméstica
Para Jenkins, essa tática tem surtido efeito. Ele lembra que os agentes federais e a polícia foram capazes de descobrir e impedir três tentativas de atentado. “É um sucesso de inteligência indiscutível”, comemora, antes de alertar para um novo tipo de terror: o doméstico. “As capacidades de inteligência interna precisam ser aprimoradas. Ao mesmo tempo, o policiamento da comunidade deve manter a confiança nas comunidades e nas diásporas”, defende.

É consenso entre os especialistas de que Nova York se mantém no topo da lista de alvos cobiçados pelos mujahedine (guerrilheiros islâmicos). No entanto, os complôs já frustrados pelas autoridades tinham objetivos espalhados pelos Estados Unidos: Washington D.C., Nova Jersey, Massachusetts, Arkansas, Ohio, Illinois, Flórida, Texas, Wyoming, Califórnia e até mesmo um gasoduto no Alasca.

De acordo com o cingalês Rohan Gunaratna — autor de Por dentro da Al-Qaeda: rede global de terror —, os Estados Unidos ainda são a nação mais cobiçada pela Al-Qaeda. “As autoridades norte-americanas conseguiram prevenir vários ataques”, reconhece. O progresso é visto com cautela. “Os terroristas estão muito interessados em usar armas químicas, nucleares, radioativas e biológicas”, adverte Gunaratna, que já entrevistou pessoalmente militantes da Al-Qaeda.


SUSTO NO AEROPORTO
Um engenheiro civil foi preso no maior aeroporto do Paquistão, em Karachi, na província de Sindhi, sul do Paquistão, ao tentar embarcar com sapatos “armados” com um circuito elétrico e baterias. O dispositivo carregado por Faiz Mohammad, 33 anos, foi descoberto quando o passageiro, que ia para a Mascate (capital de Omã), passou por um scanner. O porta-voz do aeroporto, Mohammad Munir, afirmou que o homem não carregava explosivos, mas que a engenhoca que levava nos sapatos era “preocupante”. “Descobrimos quatro baterias e um circuito elétrico, com um botão para desligar e ligar”, disse Munir.

Ponto a ponto - Anjem Choudary
“Cedo ou tarde, haverá um novo ataque”


Aos 43 anos, Anjem Choudary é considerado por muitos uma das vozes da rede terrorista Al-Qaeda na Europa. Ainda que não integre — oficialmente — a organização de Osama bin Laden, ele defende a ideologia do “xeque” com unhas e dentes e demonstra conhecimento em relação ao poderio dos extremistas. O fundador do grupo islâmico Islam4UK — uma dissidência das facções Al-Muhajiroun (Os Migrantes, em árabe) e Hizb u-Tahrir — chegou a ser perseguido no Reino Unido, depois que uma série de atentados sacudiu o sistema de transportes de Londres, matando 56 britânicos e ferindo mais de 700, em 2005. O xeque Omar Bakri Mohammad, guia espiritual de Choudary e líder do Al-Muhajiroun, viu-se obrigado a fugir para o Líbano. Em entrevista ao Correio, por telefone, Choudary advertiu que os Estados Unidos estão ainda mais vulneráveis a atentados, previu nova onda de ataques, garantiu que milhares de mujahedine (guerrilheiros islâmicos) aguardam o momento de operar em solo americano e alertou sobre o risco real de bombas sujas (dispositivos radiológicos, biológicos, químicos e nucleares). Para Choudary, bin Laden está bem de saúde e arquiteta os próximos passos da jihad (guerra santa).

Vulnerabilidade a atentados
“O povo e o governo norte-americano certamente estão mais vulneráveis a cada dia que ocupam o islã e a cada dia que mantêm suas tropas no Iraque e no Afeganistão, como avisaram os xeques Ayman Al-Zawahiri e Osama bin Laden. Já tivemos muitos, muitos complôs desde então, alguns deles bem-sucedidos. E isso é algo que precisamos levar em conta.”

Amadorismo na Times Square
“Eu não tenho o costume de seguir notícias de jornalistas. Eu não acompanho as notícias de senadores norte-americanos. Acho importante verificar as notícias dos mujahedine e de fontes independentes de informação. Os mujahedine reivindicaram esse atentado em Nova York, mas precisamos analisar isso com cautela. Não creio que esse ataque tenha motivação profissional. Não podemos culpar a Al-Qaeda, se compararmos com os atentados de 11 de setembro de 2001 (em Nova York) ou de 7 de julho de 2005 (em Londres). Depende da operação. Algumas delas não exigem um plano meticuloso.”

Em solo americano
“Eu acredito que uma grande parcela da população muçulmana simpatize com a Al-Qaeda. Os Estados Unidos também abrigam alguns milhões de muçulmanos. Muitos deles, se tiverem uma chance, se engajarão na jihad, para defender nossos irmãos e irmãs. Devemos levar muito a sério o chamado dos xeques bin Laden e Zawahiri ao ataque. Veremos algum tipo de operação em breve. Não tenho uma estimativa sobre o número de mujahedine nos EUA, mas o xeque Osama bin Laden e a Al-Qaeda são mais populares do que muitos líderes de países muçulmanos. Eu não estaria surpreso se víssemos milhares de pessoas que devotam a eles muito apoio.”

Ataques terroristas
“Definitivamente, creio que, cedo ou tarde, haverá um novo ataque. E eles se tornarão mais rotineiros. Isso é algo que definitivamente vai ocorrer. Há uma guerra em curso.”

Al-Qaeda mais frágil?
“Não, não acredito nisso. Os Estados Unidos não sabem quem é da Al-Qaeda. Eu desafio o governo dos Estados Unidos a apresentar cinco prisioneiros que sejam da Al-Qaeda. A Al-Qaeda tornou-se um termo designado para descrever pessoas que vão na contramão da política externa norte-americana, que acreditam na jihad como missão contra a ocupação das terras muçulmanas e na sharia (lei islâmica). Então, somos todas da Al-Qaeda, de alguma maneira.”

Bombas sujas
“Bombas são bombas e matam pessoas. Os norte-americanos usam armas nucleares, napalm, mísseis, bombas de fragmentação, fósforo branco. Os mujahedine usam explosivos e vão retaliar contra americanos e britânicos pelas atrocidades que estão cometendo nas terras muçulmanas. A Al-Qaeda já tem capacidade para lançar um ataque de grande envergadura. A Al-Qaeda não distingue entre civis e militares. As ameaças e os alertas devem ser levados a sério, pois trazem consequências gravíssimas.”

Paradeiro de bin Laden
“Os últimos vídeos liberados pelos mujahedine mostram que o xeque Osama bin Laden está vivo e bem. Está em um lugar de difícil localização, sem equipamentos eletrônicos, celulares ou internet. Ele vive como um beduíno. Provavelmente está no campo de batalha, organizando os próximos passos da jihad e recebendo muita proteção. Deve estar na fronteira entre Afeganistão e Paquistão.” (RC)

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