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Correio Braziliense

Pyongyang eleva o tom contra Seul

Embaixador do regime de Kim Jong-il adverte que uma guerra contra o país vizinho pode ser deflagrada a qualquer momento. Especialistas garantem que é blefe


postado em 04/06/2010 09:47

Um alto diplomata norte-coreano advertiu que a tensão entre seu país e a Coreia do Sul é tão alta que pode levar a uma guerra “a qualquer momento”. Em discurso na Conferência sobre Desarmamento da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, o embaixador-adjunto de Pyongyang para o órgão, Ri Jang Gon, ainda atribuiu a responsabilidade de um possível confronto com Seul e com “seu aliado Estados Unidos”. Ontem, o secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, anunciou que seu governo estuda realizar mais exercícios militares com a Coreia do Sul, diante do recrudescimento do discurso do país vizinho.

“A situação atual é tão grave na península coreana que uma guerra pode ocorrer a qualquer momento”, disse o representante norte-coreano. Segundo ele, as tropas de seu país estão “de prontidão para reagir imediatamente a qualquer retaliação”. O diplomata ainda criticou Seul e Washington por vincularem “sem motivo” seu governo ao naufrágio da corveta Cheonan, que afundou em março passado, deixando 46 mortos. “As autoridades sul-coreanas, com o pleno apoio dos Estados Unidos, anunciaram de forma arbitrária os resultados de uma investigação, assegurando que o navio de guerra tinha sido afundado por um torpedo lançado por um submarino norte-coreano”, afirmou. “Ao mesmo tempo, fazem manobras de forma estúpida para que sejam adotadas sanções adicionais contra a República Popular Democrática da Coreia.”

Em visita a Cingapura, Robert Gates reafirmou o apoio total de seu governo a Seul, como já havia prometido o presidente Barack Obama, no dia anterior. “É importante que estejamos ao lado dos sul-coreanos neste momento em que enfrentam essas provocações, que parecem agora mais imprevisíveis do que antes”, disse o secretário americano. Entre os exercícios militares que estão sendo estudados pelos governos dos EUA e da Coreia do Sul, alguns terão como foco o desempenho em confrontos submarinos. Ele, no entanto, descartou que um porta-aviões americano seja usado nos exercícios. Hoje, Gates vai se encontrar com o ministro de Defesa sul-coreano, Kim Tae-young, para discutir formas de “minimizar a ameaça” de Pyongyang.

Retórica
Especialistas no conflito entre as Coreias, contudo, são unânimes em considerar as ameaças de uma “guerra iminente” de Pyongyang mais um blefe do regime de Kim Jong-il. “Não acho que existe um risco de guerra. Com a ajuda da China, a Coreia do Norte vem chantageando por anos os EUA, o Japão e o Ocidente, por meio de ameaças como essa”, lembra o analista Michael Horowitz, do Instituto Hudson. O especialista da Fundação Heritage Bruce Klingner, por sua vez, afirma que quem acompanha o conflito na região “já está cansado” das frequentes ameaças da Coreia do Norte. “Esse é um dispositivo retórico do regime voltado tanto para a sua população como para o público externo. Pyongyang aumenta as tensões a fim de conseguir concessões”, avalia, destacando, contudo, que os dois lados podem, com isso, “errar a mão” na resposta.

Para Suzanne Scholte, presidente da Coalizão North Korea Freedom, essa é uma tentativa do líder Kim Jong-il de desviar a atenção das “condições miseráveis” da população. “Agora que os norte-coreanos são cada vez mais conscientes das condições de fora do país, devido ao fluxo crescente de informação, ele tem de encontrar uma maneira de manter a sua mão de ferro sobre o povo”, observa a especialista. “Este é o seu método para despertar a lealdade, fazendo com que a Coreia do Sul e os EUA pareçam os verdadeiros agressores.”

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