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Correio Braziliense ORIENTE MÉDIO

Às portas de Gaza

Cargueiro humanitário irlandês chegaria na manhã de hoje à costa palestina. Israel exige desvio para Ashdod e ameaça intervenção


postado em 05/06/2010 07:00

O massacre a bordo do navio Mavi Marmara parece não ter intimidado os ativistas, que prometiam novamente tentar furar o bloqueio à Faixa de Gaza na manhã de hoje (hora local). Às 16h de ontem, o cargueiro MV Rachel Corrie — homenagem à ativista norte-americana esmagada por um buldôzer de Israel — estava a apenas 80 milhas náuticas (cerca de 148km) da costa palestina. De bandeira irlandesa, o navio transporta 550t de cimento, 650t de material educativo e equipamentos médicos, além de brinquedos. Além da tripulação, leva 11 pacifistas, entre eles Miread Maguire, cofundadora da organização não governamental Peace People e Prêmio Nobel da Paz em 1976. Por meio de um comunicado à imprensa, o Ministério das Relações Exteriores de Israel propôs descarregar o conteúdo da carga humanitária, no porto de Ashdod. “Nós não desejamos nenhum confronto. Nós não queremos embarcar no navio. Se o navio decidir seguir para o porto de Ashdod, iremos garantir a chegada segura e não embarcaremos”, afirma o texto. “Depois de uma inspeção para garantir que nenhum armamento e material de guerra se encontram a bordo, estamos preparados para entregar todos os bens para Gaza.”

A diplomacia dos Estados Unidos trabalhava incessantemente ontem para evitar uma nova tragédia. O ataque israelense à flotilha humanitária, na última segunda-feira, deixou nove mortos, inclusive um norte-americano. “Todo o mundo quer evitar um novo confronto e a repetição dos acontecimentos trágicos de segunda-feira”, assegurou Philip Crowley, porta-voz do Departamento de Estado. “Trabalhamos com os israelenses, mas também com a Autoridade Palestina e com outros parceiros internacionais”, admitiu. Segundo ele, o objetivo da Casa Branca é conciliar a vontade de Israel de garantir sua própria segurança com a necessidade de melhor a ajuda aos habitantes de Gaza. O número 3 do Departamento de Estado, Jack Lew, conversou “longamente” anteontem sobre o assunto com o chanceler irlandês, Michael Martin.

A proposta feita pelo governo de Israel à tripulação do MV Rachel Corrie não comoveu Greta Berlin, cofundadora do movimento Free Gaza (Libertem Gaza), responsável pela flotilha Liberdade e pelo MV Rachel Corrie, que partiu de Malta. “Não vamos para Ashdod. Nunca iremos para Ashdod. Estamos rompendo o bloqueio draconiano de Israel em Gaza, ao não entregar suprimentos”, afirmou Greta ao Correio, por meio de um software de videoconferência. “Somos parte de uma iniciativa de cidadãos para suspender o bloqueio. Entregar nossos suprimentos em Ashdod é algo sem sentido”, acrescentou. Ela negou que a Marinha israelense tenha sabotado o navio irlandês.

Nervosos

Outra responsável pelo movimento, a irlandesa Niamh Moloughney, disse ter falado com a tripulação na tarde de ontem. “Eles estão extremamente calmos e extremamente esperançosos de que poderão chegar a Gaza, mas também nervosos”, admitiu, por telefone. Em determinado momento da entrevista, Niamh afirmou que teria de desligar porque “a situação era crítica”. Ela revelou ter recebido a confirmação de desaparecidos após o ataque israelense à flotilha, na segunda-feira.

Em Olympia, no Estado norte-americano de Washington, o casal Craig e Cindy Corrie acompanha com expectativa os desdobramentos envolvendo o navio. Pais de Rachel Corrie, eles temem um novo confronto com a Marinha israelense. “Escutamos relatos de algumas pessoas no barco que, se confrontados, se sentarão com os braços para cima”, contou Cindy ao Correio, por e-mail. “Israel não tem cumprido com suas obrigações sob a lei internacional, nem atendido às necessidades humanitárias básicas do povo palestinio, que vive sob ocupação militar e embargo”, acrescentou. Presidente da Fundação Rachel Corrie para a Paz e a Justiça, Cindy diz ter todas as razões para crer em uma abordagem israelense não-violenta.

O jornalista tcheco Zdenek Lokaj era passageiro do navio grego Stentoni, que acompanhava a flotilha, na segunda-feira passada. Por telefone, ele relatou que a tripulação foi levada pela Marinha israelense apenas com pequenos ferimentos. “Não estávamos muito longe do Mavi Marmara, mas o barulho do mar estava alto. Apenas vi os botes velozes e os helicópteros”, disse. “Considero essa ação ilegal e brutal contra a ajuda humanitária. Israel acha que pode fazer o que quiser e que jamais será punido. Estou com muito medo do destino do MV Rachel Corrie”, concluiu.

Para saber mais
Esmagada e morta


No último e-mail enviado ao pai, a norte-americana Rachel Corrie escreveu: “Eu não me sinto em risco aqui, pois Rafah parece mais calmo, talvez porque os militares estejam preocupados com incursões no norte — ainda há tiroteios e demolições de casas”. Poucos dias depois, em 16 de março de 2003, Rachel se pôs no caminho de um buldôzer israelense D9R. Tentava impedir que mais uma residência no campo de refugiados palestinos, na fronteira da Faixa de Gaza com o Egito, fosse derrubada pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). Terminou esmagada pelo veículo. Craig e Cindy Corrie, pais de Rachel, decidiram herdar a luta da filha e criaram a Fundação Rachel Corrie pela Paz e pela Justiça. Sua vida transformou-se no filme Meu nome é Rachel Corrie, que faz muito sucesso em Londres.

A morte de Rachel detonou uma crise diplomática entre Estados Unidos e Israel. O então premiê israelense, Ariel Sharon, prometeu ao presidente George W. Bush uma investigação “completa, crível e transparente”. Segundo a necropsia, Rachel sofreu “asfixia mecânica, com fraturas nas costelas, nas vértebras e nas escápulas, e ferimentos no pulmão direito, com hemorragia”. Um porta-voz das IDF assegurou que o militar não teria visto Rachel, ao manobrar o buldôzer. “Ela estava em pé, atrás dos escombros que obstruíram a visão do motorista”, disse o militar.

Craig e Cindy visitaram Israel e a Faixa de Gaza várias vezes, foram ao local em que a filha morreu e tiveram uma audiência com o então líder palestino, Yasser Arafat. Em 28 de março de 2008, ao participar de um protesto em Ramallah (Cisjordânia), Craig declarou: “Esse vilarejo (Rafah) tornou-se um símbolo da resistência não violenta”. (RC)


Soldados reagem a provocação

Às 13h de ontem (7h em Brasília), cerca de 200 manifestantes se reuniram no vilarejo de Bilin, a apenas 16km de Ramallah, capital da Cisjordânia. O protesto ocorreu diante da réplica de um barco com as bandeiras da Turquia e da Autoridade Palestina (AP). Iyad Burnat, chefe do Comitê Popular de Bilin contra o Muro da Cisjordânia, estava lá. Por telefone, ele contou ao Correio que a manifestação foi realizada diante da barreira erguida por Israel. “Os soldados chegaram e começaram a disparar gás lacrimogêneo e balas de borracha contra nosso pessoal. Cerca de oito manifestantes ficaram feridos. Um palestino de 28 anos e uma criança de 13 foram presos pelas tropas israelenses”, relatou.

De acordo com Iyad, as manifestações em Bilin ocorrem todas as sextas-feiras. “É um protesto que começou há cinco anos. Israel tem confiscado nossas terras e nós gritamos contra isso”, disse. “Hoje (ontem), reunimos 200 pessoas, entre palestinos e ativistas estrangeiros.” Iyad lembra que 1,5 milhão de pessoas vivem em Gaza. “Por isso, todos nós temos nos levantado contra o incidente envolvendo a flotilha. Não apenas nós, mas todas as pessoas no mundo”, afirmou. Pelo menos um jornalista estrangeiro que participava do ato de ontem foi fotografado lutando com um soldado.

Os protestos não se concentraram nos territórios palestinos. Na Jordânia, mulheres se concentraram diante da embaixada israelense, em Amã. Em Beirute, o xeque Sayyed Hassan Nasrallah — líder da milícia xiita Hezbollah — falou à multidão, que ostentava bandeiras da Turquia e da AP. (RC)

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