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Correio Braziliense

Madri recebe hoje 11 ex-prisioneiros cubanos

Regime cumpre acordo com a Igreja e anuncia mais três nomes de dissidentes libertados


postado em 13/07/2010 07:51 / atualizado em 13/07/2010 08:54

Irene Vieira, mulher do preso Julio Galvez, arruma as malas antes de viajar à Espanha:
Irene Vieira, mulher do preso Julio Galvez, arruma as malas antes de viajar à Espanha: "Continuaremos lutando" (foto: ADALBERTO ROQUE )
As autoridades cubanas não revelaram o horário exato do embarque de 11 presos políticos para Madri. Durante todo o dia de ontem, familiares mantinham-se de prontidão e eram obrigados a se submeter à falta de informação. Na cidade de Amancio Rodríguez, a 640km de Havana, a casa de Oleidys García — mulher do jornalista Pablo Pacheco — estava sob responsabilidade de uma amiga, chamada Maria. Por telefone, ela afirmou ao Correio que falou com Oleidys na manhã de ontem. “Oleidys me contou que está em uma instalação do Ministério do Interior, enquanto Pablo aguarda no Hospital Nacional de Havana. Disse-me que ambos se encontrarão dentro do avião, mas ela não sabe o horário do voo”, relatou. A reportagem apurou com uma ativista do movimento Damas de Branco que os presos e familiares se reuniriam às 14h de ontem (15h em Brasília) no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana.

O ministro das Relações Exteriores da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, disse à agência France-Presse que os 11 dissidentes desembarcarão em Madri ainda hoje, em voos das companhias Air Europea e Iberia. “Creio que, segundo os últimos dados, serão 11 presos políticos cubanos com seus familiares. Ainda não sabemos o número de parentes, mas rondará entre 62 e 65”, declarou. A Arquidiocese de Havana anunciou que três nomes foram acrescentados à lista de prisioneiros que serão libertados “em breve”.

Após receberem penas respectivas de 25, 27 e 20 anos, Jesús Mostafá Felipe, Omar Rodríguez e Antonio Díaz se somarão ao grupo dos 17 dissidentes com a libertação já anunciada. Todos eles são considerados prisioneiros de consciência por parte da organização não governamental Anistia Internacional.Em entrevista à agência France-Presse, Irene Vieira — mulher do dissidente Julio Galvez — admitiu que não dorme há dias. Ontem, ela passou parte do dia arrumando as malas. “Continuaremos lutando por aqueles que ficarem para trás”, prometeu. A expectativa é de que Galvez seja solto em uma próxima leva.

A libertação dos 52 prisioneiros políticos — 20 deles em caráter imediato — é vista por analistas como uma tentativa do regime de Raúl Castro de barganhar vantagens políticas e comerciais. “Raúl sente-se pressionado. Ele provavelmente teme que a frente de apoio da América Latina a Cuba se desvaneça e, por isso, espera manter boas relações com a Espanha e a União Europeia”, explica o espanhol Joaquín Roy, diretor do Centro de União Europeia (UE) da Universidade de Miami e especialista em Cuba. “Antes de falarmos em abertura, precisaremos ver qual será o próximo gesto de Raúl. Esse foi um ato político. O próximo será econômico?”, questiona.

Barganha
Por telefone, William LeoGrande — professor da American University (em Washington) — afirma que a motivação do governo cubano é “aprimorar as relações diplomáticas com a UE”. “Castro também pretende melhorar as relações internas com a Igreja Católica e fazer um gesto para os Estados Unidos. Desde que Barack Obama tornou-se presidente, ele tem buscado uma concessão cubana na área dos direitos humanos, antes de fortalecer as relações bilaterais com a ilha”, observa.

LeoGrande admite que o acordo entre Castro e o cardeal Jaime Ortega é significativo, por se tratar da maior libertação de presos desde a visita do papa João Paulo II a Havana, em 1998. “É importante destacar a vontade do regime em aceitar a Igreja como legítima interlocutora da sociedade civil para discutir assuntos políticos”, diz o analista. Segundo ele, não há dúvidas de que Cuba enfrenta uma grave crise. “Os cubanos estão tentando fortalecer as relações comerciais com a União Europeia. Também é óbvio que eles desejam contatos com os EUA, mas a questão dos direitos humanos tem sido um obstáculo”, acrescenta.

Fidel Castro na TV
Com boa aparência, vestindo casaco azul e camisa quadriculada, o ex-presidente cubano Fidel Castro apareceu na noite de ontem em uma entrevista gravada pela TV estatal do país. Foi a primeira exibição em vídeo do líder em um ano. Nas imagens, Fidel pôde ser visto sentado, conversando sobre a situação no Oriente Médio e na Coreia do Norte, com o apresentador do programa Mesa redonda. No sábado, um site publicou fotos da recente ida de Fidel ao Centro Nacional de Investigações Científicas (CNIC) —su a única aparição pública desde que se afastou do poder, em julho de 2006, após a cirurgia no intestino. Fidel permanece como primeiro-secretário do Partido Comunista e recebe vez por outra personalidades amigas em seu retiro. Também escreve com frequência suas “reflexões” sobre assuntos atuais.

Ouça entrevista com William LeoGrande (em inglês) e veja lista com os nomes de 20 presos políticos que serão soltos em breve

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