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Correio Braziliense

Entrevista - Léster Luis González Pentón


postado em 14/07/2010 07:13 / atualizado em 14/07/2010 09:17

A voz cansada não impede uma resposta imediata. Pergunto-lhe o que significa a tão sonhada liberdade. Do outro lado da linha, em um hotel de Madri, o jornalista cubano Léster Luis González Pentón, 33 anos, afirma: “A liberdade é o que de maior pode ter um homem”. Ele fala com conhecimento de causa. Preso em 18 de março de 2003, durante a chamada Primavera Negra, foi condenado a duas décadas de prisão. Cumpriu sete anos na Penitenciária de Kilo 7, na província de Camaguey.

Ao pisar em solo espanhol, às 12h49 de ontem (7h49 em Brasília), Léster sentiu-se “estranho”. Em entrevista exclusiva ao Correio, o homem que aderiu à dissidência em 1998 tenta se acostumar à ideia de que agora poderá fazer planos. Ele conta que, no cárcere, sofreu violência física e contraiu doenças. Antes da primeira pergunta, Léster começa a falar. Ou melhor, desabafa. “Estão nos dando um tratamento digno aqui em Madri. Fomos recebidos por funcionários do governo espanhol, incluindo um secretário de Estado”, afirma.

Como foi a vida na prisão durante esses sete anos?
Foi bastante difícil, irmão. Foi um tempo de muita dor e muito sacrifício. Estive muito separado de minha família. Demasiado sofrimento. Tive várias enfermidades que são incuráveis hoje em dia, são crônicas… Em primeiro lugar, fiquei 18 meses em uma prisão de máxima segurança. Depois, após uma pressão internacional, as coisas foram aflorando para nós. Mas, irmão, realmente foi muito duro para mim e para minha família.

Que tipos de problemas de saúde o senhor desenvolveu na prisão?
Tive hipertensão de grau 1. Também tive artrite crônica, que acabou se agravando. E ainda uma síndrome crônica de fermentação dos alimentos.

Em que condições são mantidos os prisioneiros políticos de Cuba?
Quando fui detido, eles me falaram que eu estava realizando serviços para uma potência estrangeira. Eles me impuseram os 20 anos de privação de liberdade e me encarceraram. Fiquei junto a presos de alta periculosidade, que estavam ali por terem matado pessoas e estuprado crianças. Em Camaguey, fui vítima de agressões, por parte de presos.

Como o senhor vê o processo de negociação entre a Igreja Católica e o regime cubano?
É o início de uma nova era. Há um diálogo e é muito positivo o que está se sucedendo. É muito positivo o que tem feito o cardeal Jaime Ortega e o que está fazendo o governo espanhol, que nos recebeu aqui. Parece-me que é o início de uma nova era em Cuba.

O governo cubano condicionou sua libertação à mudança para Madri? Os senhores se sentiram obrigados a deixar a ilha?
Na realidade, em nenhum momento me obrigaram a abandonar Cuba. Eu o fiz por conta própria.

De que modo o senhor descreveria o regime de Raúl Castro, com Fidel teoricamente fora do poder?
Raúl Castro tem feito algumas concessões e demonstrado alguma flexibilidade, que antes não existia quando Fidel estava no poder.

O que sentiu ao reencontrar a família e durante o voo, ao deixar o território de Cuba?
Foi um reencontro muito doloroso e emocionante. Não existe um nome para o que senti. Não sei como explicar. Ver minha família reunida, depois de sete anos e três meses de prisão… Eu me sinto estranho. Parece um sonho o que estou sentindo.

Quais são os seus planos?
Os Estados Unidos e o Chile lhes ofereceram exílio…
Primeiro, quero saber o que ocorrerá conosco na Espanha. O governo espanhol nos acolheu muito bem, não? Vamos aguardar os acontecimentos. Chegamos aqui com a permissão de residência permanente na Espanha. Fomos acolhidos pela Cruz Vermelha de Madri. Estamos em um hotel e, dentro de 72 horas, vamos mudar para uma casa, com nossas famílias. Eles sabem que é um momento difícil. A princípio, eu entendia as coisas e me sentia muito estranho. Mas amanhã (hoje) vão explicar melhor como ficará a nossa situação.

Orlando Zapata morreu pela libertação de vocês. Guillermo Fariñas ficou 135 dias em greve de fome pelo mesmo motivo. O que pensa sobre esses gestos?
A morte do irmão Zapata foi muito dolorosa para todos nós. Sentimos muito. Foi ele quem acendeu a chama. E o irmão Fariñas a terminou de acender, em 135 dias de greve de fome. Sabemos do valor que ele teve em acelerar a nossa libertação.

O senhor sonha com uma ampla e irrestrita liberdade em Cuba?
Esperamos que no futuro todos os prisioneiros políticos cubanos sejam libertados. O regime cubano se comprometeu a soltar, pouco a pouco, os outros irmãos que estão em prisões, do grupo de 75 prisioneiros de consciência.

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