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Correio Braziliense

Petraeus discorda sobre a retirada

Comandante das forças da Otan afirma que situação no país determinará a remoção de soldados


postado em 16/08/2010 08:41 / atualizado em 16/08/2010 09:51

Soldados cristãos durante oração na base da Otan, em Kandahar: volta para casa pode ser revista(foto: YURI CORTEZ )
Soldados cristãos durante oração na base da Otan, em Kandahar: volta para casa pode ser revista (foto: YURI CORTEZ )
No dia em que o número de soldados estrangeiros mortos no Afeganistão alcançou a cifra dos 2 mil, declarações do comandante responsável pelas forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país sugerem que a situação é bem pior do que se pensava. Em entrevista à rede de TV norte-americana NBC, o general David Petraeus reservou-se o direito de não iniciar a retirada das tropas em julho de 2011, como determina o cronograma da Casa Branca. Ao ser questionado se poderia considerar que o começo da desocupação não ocorra na data pretendida pelo presidente Barack Obama, o oficial respondeu: “Certamente sim”. “O presidente e eu nos sentamos no Salão Oval e ele expressou muito claramente que o que ele deseja de mim é meu melhor conselho profissional como militar”, contou Petraeus. “Certamente, estou ciente do contexto no qual eu ofereço esse conselho. Mas a situação no terreno é que o conduzirá”, acrescentou.

O comandante considerou o prazo até julho como um sinal do “aumento da urgência” com que o governo Obama analisa o panorama no país. “Nos últimos 18 meses, é a primeira vez que tentamos entender os problemas no Afeganistão. Com base nisso, precisamos redefinir conceitos”, afirmou Petraeus. Consultado pelo Correio, o libanês Nadim Shehadi — analista do Instituto Real de Assuntos Internacionais da Chatham House (em Londres) — acredita ser uma “má ideia” estabelecer um calendário específico de retirada militar. “Deveríamos estipular padrões de desempenho no Afeganistão, em vez de datas”, defende. “A impressão é de que os Estados Unidos não têm resistência para terminar o trabalho e que eles ‘cortam e correm’, deixando seus amigos na mão”, explica Shehadi, para quem a situação é pior do que no Iraque. “O Talibã pode tomar o poder novamente”, alerta.

Os frequentes erros da Otan, que tem bombardeado e matado inocentes, ameaçam os esforços de estabilização do país. Por meio de um comunicado à imprensa, o comando da organização admitiu ontem a morte de cinco civis, por engano, durante ataque aéreo contra um reduto talibã no distrito de Lashkar Gah, três dias antes. “Fomos alvos de disparos dos insurgentes. Então, solicitamos apoio aéreo como reforço. Mais tarde, quatro feridos e três afegãos mortos foram deixados perto de um posto de controle, e dois dos ferido morreram”, afirma a nota da Otan. “Há provas de que havia civis na casa atacada pelas forças da coalizão”, reconhece. A Organização das Nações Unidas (ONU) revela que mais de 1,2 mil civis morreram no Afeganistão somente no primeiro semestre, um aumento de 25% em relação ao mesmo período de 2009.

O general David Petraeus chamou ontem de “reprovável” a possível divulgação de mais documentos secretos sobre a guerra por parte do site WikiLeaks e advertiu que a atitude pôs em risco aliados de Washington. “Há nomes de informantes e, em alguns casos, os nomes verdadeiros de indivíduos com os quais nos associamos em missões difíceis, em lugares difíceis”, disse à TV NBC. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, prometeu tornar públicos mais 15 mil documentos.

Bin Laden
Para Petraeus, a captura ou morte do terrorista saudita Osama bin Laden ainda é um objetivo-chave para os Estados Unidos. De acordo com ele, o líder da rede Al-Qaeda está escondido em algum lugar nas montanhas remotas entre Afeganistão e Paquistão. “Não acredito que ninguém saiba onde está Osama bin Laden”, declarou Petraeus à rede de TV NBC. “Bin Laden continua sendo um ícone e acredito que capturá-lo ou matá-lo continua sendo um objetivo importante para todos aqueles que estão envolvidos no combate ao terrorismo no mundo”, concluiu.

Análise da notícia
Cronograma em xeque

Prazos são surreais para o Afeganistão, um país que corre o risco de retroceder ao status quo anterior a 2001 e que já é considerado como um novo Vietnã. É impossível crer que as tropas americanas e as forças da Otan consigam finalizar em um ano um trabalho que demorou quase uma década para mal começar. A milícia Talibã demonstra notória capacidade de resiliência e estende sua ideologia por quase todas as províncias. Sua força antecede a ofensiva anglo-americana e remonta aos muhajedine, guerrilheiros de Alá que travaram uma batalha contra as forças soviéticas invasoras, respaldados pelos próprios EUA.

Os americanos parecem mergulhados em uma ironia. Atacaram um país para caçar, em vão, Osama bin Laden — que recebeu treinamento dos EUA e usou o que aprendeu para golpear seu “mestre”. Lançaram bombas para destituir um regime que continua uma ameaça tão real quanto antes, ainda que no campo ideológico e nem tanto no político. Determinar um cronograma é aceitar a ideia de que a guerra está perdida. (RC)

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