Publicidade

Correio Braziliense

Minas terrestres ainda matam em Moçambique


postado em 19/08/2010 11:50

Moamba (Moçambique) – A guerra civil moçambicana terminou em 1992, mas mesmo assim já matou oito pessoas e feriu outras 12 em 2010. São as vítimas das minas terrestres, deixadas para trás por militares e guerrilheiros em várias regiões rurais do país.

O caso mais recente ocorreu em 14 de julho deste ano. Uma picape Izuzu, que carregava toras de madeira, explodiu ao passar sobre uma mina antitanque, em uma estrada de terra a 12 quilômetros de Estrada Nacional 7, na Província de Tete, ao norte do país. Adelino Dom Carlos e Paulino Pacate, ambos de 38 anos, morreram na hora. Outras cinco pessoas ficaram gravemente feridas.

As vítimas sempre são pegas de surpresa, sem ter como se defender. “Estava atrás de um boi que havia fugido, quando o chão explodiu”, diz Carlito Macinga, vaqueiro de 28 anos que perdeu a perna ao pisar em uma mina terrestre em Moamba, área rural próxima a Maputo, capital moçambicana. “Nem vi o que aconteceu.”

Cinco meses depois do acidente, Carlito vive do favor dos vizinhos. “Tenho três filhos e agora eles não vão para a escola, porque precisam ajudar em casa. Não sei o que vai ser da minha vida, nem da deles.”

O explosivo foi deixado na região na década de 1980 pelo Exército moçambicano, para proteger as torres que levam energia da África do Sul para Maputo. São 200 quilômetros que ainda estão sob processo de desativação de minas. Só nessa região, 21 pessoas foram vítimas das minas desde o fim da guerra civil. Cerca de 60 animais morreram.

Moçambique tentar livrar-se das minas terrestres desde que terminou a guerra civil do país, em 1992. O processo de desativação das minas começou um ano depois. Segundo o chefe do Departamento de Estudos e Planificação do Instituto Nacional de Desminagem, Fernando Mulima, o trabalho deverá ser concluído em 2014.

"Entre 1993 e 1995, foi o chamado período emergencial, com a retirada do material próximo de centros urbanos", explicou Mulina. Na época, o número de acidentes por ano chegava a 300. Entre 95 e 99 passou-se a limpar áreas estratégicas, para a construção de obras públicas e a recuperação da infraestrutura básica. "Nessa altura, tínhamos 558 milhões de quilômetros quadrados contaminados por minas no país" disse ele. Em 2008, já eram menos de 12 milhões. O número de acidentes anuais ficou entre 10 e 20, o que se mantém até hoje. "Graças à desminagem e ao trabalho de conscientização da população".

Os especialistas contratados pelas organizações não governamentais que apoiam o trabalho acham possível cumprir a meta do governo. “Acho que dá para acabar com tudo até 2014, mas depende da manutenção dos fundos e de um trabalho um pouco mais rápido”, afirma Helen Gray, representante da ONG Halo Trust. “O tempo depende do dinheiro e do número de pessoas trabalhando.”

A Halo Trust atua em nove países e já patrocinou a retirada de mais de 1 milhão de minas no mundo todo. Em Moçambique, a entidade pretende gastar cerca de US$ 3 milhões este ano no apoio à desativação de minas. O dinheiro virá de doadores internacionais. A organização está em Moçambique desde 1993 e já retirou cerca de 100 mil peças do solo do país.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade