MADRI - A fragilidade do ETA, submetido nos últimos meses a uma forte pressão policial, e a divisão entre seus membros originaram o anúncio de cessar-fogo ocorrido no domingo (5/9) pelo movimento separatista armado basco, segundo vários especialistas.
A prisão do último dirigente do aparelho militar do ETA, Mikel Carrera, em maio na França, "ocorreu quando este tentava reorganizar a parte militar do grupo, que foi muito afetada. Essa é a origem da fragilidade e essa é a origem de boa parte do comunicado" de domingo, explicou nesta segunda-feira (6/9) o ministro espanhol do Interior, Alfredo Pérez Rubalcaba.
Depois da trégua anterior do ETA (março de 2006-junho de 2007) foram presos seis chefes da organização, fruto de uma forte ação policial em Espanha, França e Portugal.
"Agora, diante da fragilidade do setor militar" e com "um braço político muito mais estável" dentro do ETA, "para ganhar tempo e estabilidade, para poder assentar-se dentro da organização e controlá-la depois dos golpes recebidos (...), o elemento político passa a ter mais campo de ação e o ETA passa a necessitar de um período de tranquilidade, portanto uma trégua", disse à AFP José Luis Orella, diretor da Universidade CEU San Pablo.
Nos últimos anos, ocorreu uma "rivalidade geracional" no grupo, completa.
Os interesses dos dirigentes jovens, defensores da violência, contrapuseram-se aos dos veteranos, muitos deles presos, partidários em abandonar a violência para defender a independência basca pela via política.
"A ruptura e tensão que hoje estamos vendo no mundo do ETA provêm dessa ruptura da trégua de 2006, pela qual o ETA está pagando muito caro", continua Rubalcaba, declarando que os partidários da violência impuseram-se sobre os que apostavam em dialogar com o governo.
Segundo o ministro, "o ETA para porque não pode mais, e o faz depois do golpe policial que representou o desmantelamento da nova base logística que estavam planejando em Portugal e a tentativa de fazer algo em Gerona (Catalunha, nordeste da Espanha), frustrada pela polícia" nos primeiros meses do ano.
"Em seu interior há ainda um núcleo radical que quer continuar apostando no terrorismo, mas ao mesmo tempo, não pode deixar sem resposta a pressão que está sendo feita em seu entorno", diz, por sua vez, o jornal El Mundo.
A ABC cita especialistas na luta antiterrorista, segundo os quais "não se descarta que o escasso perfil do comunicado (...) obedeça também ao fato de que o ETA não conseguiu completar seu "comitê executivo", carece de um líder de peso" e "não se atreve a se comprometer com decisões de grande transcedência".
"As forças de segurança mantêm abertas diversas vias de investigação na França, Espanha e em outros países" que "demonstram que o grupo criminoso em nenhum momento deixou de tentar reorganizar-se", com a captação de novos membros, cursos na França, grupos de apoio na França e na Bélgica e com a criação de um imposto revolucionário, completa.