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Estado de Minas

Hezbollah se planeja para o novo governo

Líder de grupo xiita descarta guerra civil e negocia poder com colega druso. Crise preocupa árabes e europeus


postado em 14/01/2011 09:37 / atualizado em 14/01/2011 10:27

Xeque Hassan Nasrallah (centro, à esquerda), secretário-geral do Hezbollah, conversa com druso Walid Jumblatt: futuro político sobre a mesa(foto: Reuters)
Xeque Hassan Nasrallah (centro, à esquerda), secretário-geral do Hezbollah, conversa com druso Walid Jumblatt: futuro político sobre a mesa (foto: Reuters)
O futuro político do Líbano começará oficialmente a ser novamente traçado na próxima segunda-feira. Esta foi a data estabelecida para que o presidente do país, Michel Suleiman, inicie as consultas com os diferentes partidos para a formação de um novo governo e a nomeação de um primeiro-ministro. Até que isso seja estabelecido, Suleiman encarregou o atual premiê, Saad Hariri, de continuar no comando, de forma temporária. Hariri viu seu governo desmoronar na última quarta-feira, enquanto estava em viagem a Washington, com a saída de 11 ministros ligados ao Hezbollah. O secretário-geral do grupo xiita, Sayyed Hassan Nasrallah, disse ontem que a crise política não vai provocar uma guerra civil entre xiitas e sunitas, mas acusou Hariri de começá-la, segundo a rede de TV Al-Jazeera.

Apesar de as conversas formais de Suleiman só terem início na segunda-feira, Nasrallah já se reuniu ontem com o líder do Partido Socialista Progressista, o druso Walid Jumblat. Durante o encontro, eles conversaram sobre “os últimos desdobramentos políticos no Líbano, o resultado dos esforços da Síria e da Arábia Saudita e a demissão dos ministros da oposição do governo”. Segundo um comunicado do Hezbollah, Nasrallah e Jumblat discutiram ainda “como lidar com o período atual, em todos os níveis”. O líder druso é visto, por muitos, como peça fundamental na formação de um novo governo.

Por meio de um comunicado, o presidente libanês pediu a Hariri que “continue em caráter interino, até que um novo governo seja formado”. Hariri, contudo, parece não ter pressa de voltar ao país mergulhado na crise: após ser recebido pelo presidente Barack Obama na quarta-feira, ele seguiu para a França, onde se reuniu ontem com Nicolas Sarkozy. Hoje, o primeiro-ministro libanês viaja à Turquia, para um encontro com o colega Recep Tayyip Erdogan.

Só que a tarefa de formar um novo governo de coalizão será ainda mais difícil agora. Isso porque continua o impasse entre o Hezbollah e os partidários de Hariri acerca do Tribunal Especial para o Líbano, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU). A Corte realiza uma investigação internacional sobre o assassinato do ex-premiê Rafic Hariri, pai de Saad, em 2005. O grupo radical xiita se opõe ao tribunal, por temer o envolvimento de alguns de seus partidários, e pretendia que Hariri o desautorizasse — o que não ocorreu.

Palavra final
A instabilidade política no Líbano levou grande preocupação aos países árabes e europeus. Ontem, o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, lamentou que o país tenha voltado para esse “estágio” político e defendeu o tribunal internacional que investiga a morte de Hariri. “O tribunal precisa estar acima da polícia, e a Justiça deve ter a palavra final. E o Líbano deve ter um governo”, afirmou Moussa, que cogita convocar uma reunião especial da Liga Árabe para discutir a crise libanesa. Já a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, lançou um apelo a todos os setores políticos do Líbano em prol de uma “solução negociada”. “Estou preocupada com a situação no Líbano. Quero reiterar nosso apoio ao governo de unidade nacional”, afirmou.

Entretanto, o governo de Teerã, que mantém estreitas ligações com o Hezbollah, aproveitou o momento para criticar Israel e a influência dos EUA na região. Segundo a chancelaria iraniana, “a sabotagem e a obstrução dos EUA e do regime sionista são as causas principais do fracasso dos esforços sírio-sauditas”. O embaixador iraniano em Beirute, Qazanfar Roknabadi, por sua vez, acusou os dois países de “sempre tentarem atrapalhar a paz na região”. Israel já acionou “alerta máximo” na sua fronteira com o Líbano.

Auxílio brasileiro
A crise política no Líbano eclodiu no momento em que o Brasil se prepara para enviar até 300 militares para integrarem a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil). Se aprovado o envio no Congresso, será a segunda grande atuação dos militares brasileiros em forças de paz da ONU, logo atrás do Haiti, e projetará ainda mais o nome do Brasil, que pleiteia um assento permanente no Conselho de Segurança. Até agora, a Marinha brasileira já indicou ao Ministério da Defesa um Contra-Almirante para comandar a Força-Tarefa Marítima, quatro oficiais e quatro praças.

Segundo a Marinha, a missão da Força-Tarefa será “prevenir a entrada não autorizada de armas e materiais relacionados em águas territoriais libanesas”. Os brasileiros estarão autorizados, por exemplo, a realizar tarefas de perseguição e até abordagem de embarcações. A força-tarefa conta com navios alemães, gregos, indonésios e turcos, entre outros. A área de operações marítima abrange um polígono de aproximadamente 110 por 48 milhas náuticas ao largo da costa libanesa. Não será a primeira vez que o Brasil envia militares para a região. Há 55 anos, um grupo integrou uma força para manter a segurança e a paz na região do Suez e a linha de armistício entre Israel e Egito.

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