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Estado de Minas

Sauditas articulam seu dia de protesto


postado em 09/02/2011 09:42

A ameaça de a onda de protestos que já tomou a Tunísia e o Egito chegar a outro dos principais pontos de apoio de Washington no mundo árabe, a Arábia Saudita, parece cada dia mais próxima. Pela rede social Facebook, ferramenta que foi fundamental para reunir manifestantes nos outros dois países, já teve início a mobilização para a Hora da Ira, um protesto contra a monarquia saudita marcado para o próximo dia 25. Até ontem, mais de 2 mil pessoas já faziam parte do grupo, que pede “respeito aos direitos humanos no reino e o reconhecimento dos direitos das mulheres”. Para os Estados Unidos, uma insurreição contra a família real saudita seria ainda mais incômoda que a instabilidade no Egito, onde o presidente Barack Obama se desdobra para tentar fazer coro com os pedidos da população egípcia atrapalhando o menos possível sua relação com Israel e outros regimes aliados na região.

“A Hora da Ira contra a ditadura da Casa de Saud (a dinastia real saudita), em 25 de fevereiro, é o início da luta contra a corrupção e a tirania”, diz a descrição da página criada por ativistas anti-regime no Facebook. A mobilização tenta reunir todos os que, “independentemente de sua religião ou crença, afiliação política ou social, têm senso de responsabilidade”. O grupo quer reformas políticas, sociais e econômicas no reino, incluindo a instauração de um regime constitucional, já que a monarquia saudita é absoluta: não há Constituição, poder legislativo nem partidos políticos. Os manifestantes querem ainda a revisão dos direitos das mulheres, que hoje não podem dirigir carros, trabalhar, casar-se ou viajar sem autorização de um membro masculino da família.

Ameaça menor
Para muitos, no entanto, a mobilização entre os sauditas tem mais chances de tomar o mesmo rumo da Síria — onde a adesão conseguida pela internet não se concretizou nas ruas — do que do Egito. “Considerando as diferenças estruturais e econômicas entre os dois países, a possibilidade de uma ameaça séria ao regime saudita continua sendo improvável no momento. A Arábia Saudita tem uma forma monárquica de governo com militares leais à monarquia, enquanto o Egito tem uma forma de democracia em que os militares protegem o direito dos cidadãos de protestar”, observa o especialista Ray Walser, da Fundação Heritage.

Uma ebulição política na Arábia Saudita colocaria o governo Obama em situação ainda mais complicada no Oriente Médio. “Se ele não quiser ser visto como um hipócrita, terá de pedir que os sauditas e outros regimes árabes totalitários respeitem os ‘valores universais’ e se tornem democracias”, observa Mitchell Bard, autor de O lobby árabe: a aliança invisível que mina os interesses da América no Oriente Médio.


ANÁLISE DA NOTÍCIA
Reformas de risco

Silvio Queiroz

A Arábia Saudita compõe, com Egito e Israel, uma espécie de tripé no qual se apoia a política norte-americana para o Oriente Médio. No caso saudita, porém, qualquer processo de evolução política envolve um certo número de fatores de risco além dos que estão em jogo na crise egípcia.

Ambos os países árabes têm papel chave na geopolítica do Oriente Médio, inclusive como peças de contenção da influência iraniana. É, por exemplo, o papel desempenhado pelo reino saudita no mosaico do Líbano, inclusive no suporte financeiro à reconstrução do país desde o fim da guerra civil (1975-1990). A retaguarda saudita é fundamental para que o bloco do premiê Saad Hariri, muçulmano sunita, resista à ascensão progressiva do partido pró-iraniano Hezbollah, que representa os xiitas — isoladamente, a maior das comunidades religiosas libanesas.

A presença de uma minoria xiita significativa, concentrada em áreas petrolíferas no litoral do Golfo Pérsico, é um dos elementos que diferenciam a Arábia Saudita do Egito. Foi o receio do contágio pela Revolução Islâmica de 1979 que colocou a família real em rota de colisão com o regime dos aiatolás, inclusive prestando apoio irrestrito ao Iraque de Saddam Hussein em sua guerra contra a recém-criada República Islâmica, entre 1980 e 1988.

Os xiitas, a despeito da identificação religiosa com o Irã, nunca chegaram a ensaiar na Arábia Saudita algo semelhante à revolução inspirada pelo aiatolá Khomeini. Mas nem por isso parecem satisfeitos com a posição subalterna na vida econômica e social do. A tímida abertura institucional dos últimos anos, com a eleição de conselhos locais destituídos de maiores poderes, bastou para mostrar a avidez da minoria xiita por ocupar cada espaço político que se ofereça.

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