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Estado de Minas

Sócrates, um socialista pragmático e determinado


postado em 23/03/2011 20:06

Lisboa - O primeiro-ministro português José Socrates, que anunciou a demissão nesta quarta-feira (23/3), após a rejeição de seu novo programa de austeridade pelo Parlamento, é considerado um socialista pragmático, criticado pelo autoritarismo, mas também louvado pela determinação.

Notoriamente impaciente e colérico, Sócrates, que havia prometido emendar-se, admitindo "uma certa indelicadeza", após ter perdido em setembro de 2009 sua maioria absoluta, pagou, assim, o preço pela incapacidade de dialogar, denunciada até pelo próprio partido.

Nascido em 6 de setembro de 1957 perto de Vila Real (norte) de uma família liberal de classe média, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa disse ter despertado para a vida política com a Revolução dos Cravos, que pôs fim a 42 anos de ditadura em Portugal, em 1974.

Após uma breve passagem pelo Partido Social Democrata (PSD, centro-direita), aderiu em 1981 ao Partido Socialista, então na oposição.

Eleito deputado aos 30 anos, várias vezes ministro, este praticante de jogging e apreciador de rock, divorciado e pai de dois filhos, fez toda a carreira na política, estando envolvido em várias polêmicas que arranharam sua imagem, em seis anos de poder.

Engenheiro de formação, foi obrigado a se defender do benefício de um diploma arranjado. Seu nome também foi citado num suposto assunto de corrupção na época em que ocupava o ministério do Meio Ambiente. Aberta em 2004, a investigação "Freeport", que recebeu o nome de um centro comercial instalado numa zona de proteção ambiental, foi finalmente arquivada, em julho de 2010.

Eleito secretário-geral do PS em 2004, José Socrates ofereceu no ano seguinte a seu partido a primeira maioria absoluta de sua história.

Nomeado primeiro-ministro em março de 2005, ele encontrou um crescimento no ponto morto e finanças públicas catastróficas. Apostou, então, no setor privado como motor da retomada e começou a adotar medidas consideradas impopulares.

Em menos de dois anos, seu governo reduziu o déficit público pela metade, em meio a um descontentamento social crescente.

Mais e mais contestado, Sócrates conseguiu, apesar de tudo, garantir a vitória socialista nas eleições legislativas de setembro de 2009, num contexto de grave crise econômica, financeira e social.

Aos que reprovavam o fato de ter-se esquecido de suas origens de esquerda, ele enumerava a paridade de gênero no trabalho, a descriminalização do aborto e a legalização do casamento homossexual.

Apesar de seu partido ter-se tornado minoria no Parlamento, este amante da oratória, da ironia mordaz, conseguiu impor, pouco a pouco, três planos de austeridade sucessivos. Foi em maio, julho e novembro de 2010, não hesitando, também, em pôr o próprio mandato na balança, para obter o apoio da oposição de centro-direita a medidas mais e mais severas.

Apesar desta tentativa sem precedentes, Portugal não convence os mercados e parece condenado a seguir o caminho do resgate financeiro, já trilhado por Grécia e Irlanda.

Teimoso, José Sócrates resistia às pressões e anunciou, no dia 11 de março, a algumas horas de uma cúpula em Bruxelas, um quarto programa de austeridade sem nenhum acordo prévio com a oposição, nem mesmo informar ao chefe de Estado Aníbal Cavaco Silva.

Ante a indignação com este novo pacote e com o método empregado, Sócrates ameaçou novamente demitir-se, se o programa fosse rejeitado, não sem garantir que "certamente" se apresentaria, no caso de legislativas antecipadas.

"Não sou daqueles que viram as costas às dificuldades, que fogem da luta", destacou.

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