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Estado de Minas

Sudão do Sul a um passo da autonomia


postado em 04/07/2011 07:15

Às vésperas de obterem a tão sonhada independência, os 11 milhões de habitantes do Sudão do Sul não acumulam falsas expectativas em relação ao futuro próximo. A 193ª nação do planeta terá pela frente desafios imensos, enquanto ainda tenta fechar as cicatrizes de duas guerras civis que duraram 39 anos e deixaram pelo menos 2 milhões de mortos. “Não deve haver ilusão sobre o que ocorrerá no Sudão do Sul: os confrontos locais serão numerosos e sangrentos, e o Estado não terá condições de prover serviços básicos à população e de combater a corrupção”, afirmou ao Correio, por e-mail, o francês Roland Marchal, especialista do Centro de Estudos e de Pesquisas Internacionais, baseado em Paris. “Os sulistas estão pessimistas agora, mas bastante otimistas pelos seus filhos. A longo prazo, eles poderão administrar seus próprios assuntos e aprimorar sua qualidade de vida”, acrescentou.

Marchal acredita que as tensões entre os governos de Cartum (Sudão do Norte) e de Juba (Sudão do Sul) poderão ser minimizadas após os respectivos presidentes Omar Bashir e Salva Kiir Mayardiit assinarem um acordo econômico que esclareça como será feita a partilha da receita proveniente do petróleo do Sul. “Cartum tem ameaçado Juba porque deseja resolver o tema antes da declaração da independência do vizinho, no próximo sábado”, explica o francês. Depois desse prazo, Bashir poderá ter problemas com as petroleiras estrangeiras, obrigadas a respeitar a soberania do Sudão do Sul — responsável por 375 mil dos 500 mil barris de petróleo produzidos diariamente no ainda unificado Sudão. Por sua vez, Salva Kiir precisará fazer concessões, se quiser exportar o combustível por meio das refinarias e dos portos, concentrados no norte.

“Todos esperam que Cartum mantenha boas relações com Juba. Mas, apesar da retórica sobre a paz, as ações do governo Bashir sugerem outra coisa”, critica a norte-americana Martha Saavedra, diretora do Centro para Estudos Africanos da Universidade da Califórnia, Berkeley. Ela se refere aos ataques do Sudão do Norte ao Estado de Abyei, que faz fronteira com a região norte do Sudão do Sul e tem características semiautônomas. “Os militares (de Cartum) ignoram as cláusulas do Acordo de Paz Compreensivo — assinado em 9 de janeiro de 2005 pelo governista Partido do Congresso Nacional (NCP) e pelo opositor Movimento de Libertação Popular do Sudão (SPLM)”, afirma.

Em 21 de maio passado, as Forças Armadas do Sudão bombardearam vilarejos ao redor de Abyei e invadiram a região com tanques. “Os militares do Norte agora ameaçam os oleodutos, caso o Sul não divida os lucros do petróleo extraído”, observa Martha. Movidos pela cobiça, grupos rebeldes do Sudão do Sul teriam se colocado à disposição de Cartum para atacar seu próprio povo. Segundo a especialista, muitas das cicatrizes das décadas de guerra civil nem sequer tiveram a chance de fechar. Um acordo de paz por demais evasivo pode ser a gota d’água para lançar o Sudão do Norte contra o Sudão do Sul. “Vários temas ainda não foram esclarecidos, como a cadeia de produção de petróleo que será manejada entre os dois países”, exemplifica Martha.

Oportunidade
O britânico Roger Middleton, consultor do Programa África do think tank Chattam House (em Londres), acha que a independência será uma oportunidade para que os sudaneses do sul busquem uma nova relação com o norte. Mas ele admite que a história de desconfiança é longa e, por isso, as memórias dolorosas não vão desaparecer de uma hora para outra. “O Sudão do Sul vai enfrentar desafios imensos. Além de ser desesperadamente pobre e muito dependente do lucro do petróleo, o novo país ainda se recupera de décadas de guerra”, afirma. Ele crê que será preciso muito tempo e apoio para que a nação emergente se estabilize e atinja a prosperidade.

Middleton acha pouco provável que a violência na vizinha Abyei sabote a independência em 9 de julho. “Espero que o envio iminente de capacetes azuis etíopes forneça pelo menos uma solução a curto prazo para reduzir a pressão e permitir o retorno dos refugiados”, comenta. Em longo prazo, será necessário que o desejo político de ambas as partes persista. “Abyei é importante, emocional e politicamente, tanto para o governista Partido do Congresso Nacional (NCP) quanto para o SPLM”, conclui. Nos próximos dias, 4,2 mil capacetes azuis etíopes terão a missão de sufocar qualquer tentativa de agressão de Cartum.

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