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Triunfo de Cristina Kirchner reforça esquerda populista da América do Sul

postado em 24/10/2011 18:51
A contundente reeleição de Cristina Kirchner à Presidência argentina fortalece a esquerda populista e assistencialista na América do Sul, que deverá encontrar uma forma de se modernizar para garantir sua sobrevivência, consideraram analistas à AFP.

A advogada peronista de centro-esquerda conquistou no domingo uma vitória arrasadora no primeiro turno, com 53% dos votos, o triunfo mais amplo obtido por um chefe de Estado desde o retorno democrático em 1983.

O grande triunfo foi baseado fundamentalmente no crescimento econômico que o país atravessa, na ausência de uma oposição unificada, e pelo fato de o primeiro período do governo de Cristina Kirchner (2007-2011) "ter se mantido dentro dos limites do populismo", considerou o professor de relações internacionais Carlos Romero, da Universidade Central de Venezuela. "Essa esquerda populista tem sido uma característica de nossa política (na América Latina) em todo o século XX e nesta parte do século XXI", com uma forte presença do Estado e do partido oficial, ressaltou.

O cientista político Carlos Alberto de Melo considerou que existe uma "infeliz consonância em relação à esquerda na América Latina", sustentada mais em seu passado do que em buscar alternativas futuras.

"O kirchnerismo é muito parecido com antigo peronismo: tem uma visão bastante existencialista do Estado, bastante nacionalista. Isso também pode ser percebido nas políticas públicas do Brasil hoje, também muito nacionalistas e assistencialistas", explicou o professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) de São Paulo.

Para Carlos Alberto, essas políticas assistencialistas fazem parte de um "movimento defensivo" dos governos frente às turbulências nos mercados internacionais, e estão apoiadas no crescimento sustentado da região, cuja economia se expandirá em torno de 4,4% em 2011, segundo dados da Cepal.

Mas para que a esquerda garanta a sua sobrevivência, é necessário "uma esquerda mais moderna, uma esquerda olhando mais para a sociedade do século XXI", que promova mudanças qualitativas na educação, na burocracia e combata a corrupção, destacou o cientista político.

A esquerda "precisa se renovar, apresentar novas formas de progresso, de justiça social, de modernização da economia, de cultura, de mentalidade. E não vejo isso nem no Brasil, nem na Argentina, nem na Venezuela, nem em qualquer outro lugar da América Latina", ressaltou. Sem uma modernização "vamos ficar com nossa riqueza (de matérias-primas) na mão, mas sem condições de explorá-la", previu Carlos Alberto de Melo.

No momento, o populismo levado adiante pelos governos latino-americanos continua rendendo seus frutos em nível econômico, "mas até quando?", se perguntou Everaldo Moraes, professor de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB). "Enquanto for mantido o crescimento. Quando o crescimento parar, aí vai ser mais difícil" mantê-lo, considerou.

Do ponto de vista político, para Romero o novo triunfo de Kirchner vai determinar "até onde vai o processo argentino, se vai consolidar seu governo de esquerda moderada ao estilo do Brasil ou se acompanhará a via radical" da Venezuela.

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