Agência France-Presse
postado em 12/04/2012 14:26
Genebra - O cessar-fogo na Síria foi anunciado, mas se encontra seriamente comprometido pelos atos de violência registrados apenas uma hora depois de sua entrada em vigor, às 00h (de Brasília), e a oposição e o regime se acusam mutuamente de colocá-lo em perigo, apesar de o autor do plano de paz, o emissário Kofi Annan, considerar que o fim das hostilidades parece estar sendo respeitado.O Conselho Nacional Sírio (CNS) anunciou em Genebra que, segundo as informações recebidas do principal grupo de oposição no terreno, cinco pessoas, sendo quatro civis, foram mortas e dezenas de pessoas presas, após o início do cessar-fogo. Segundo o CNS, os mortos foram contabilizados na região de Hama e dezenas de prisões foram efetuadas em Aleppo, Homs e Dera. "Constatamos, com provas, que armas pesadas ainda estão sendo utilizadas em áreas povoadas. Algumas simplesmente foram reposicionadas", acrescentou a porta-voz rebelde Basma Kodmani. Ela também relatou o aparecimento de muitos pontos de controle adicionais fortemente armados.
O Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), por sua vez, informou sobre um civil morto em Hama (centro). Já a televisão pública síria anunciou que o militar morto - citado pelo CNS - é um oficial do Exército. Além dele, 24 outras pessoas ficaram feridas em Aleppo, norte da Síria, em um ataque comandado, segundo as autoridades, por um "grupo terrorista armado".
De acordo com a tv oficial síria, um ônibus transportava oficiais para seu local de trabalho e foi alvo de uma carga explosiva colocada por um grupo de terroristas armados perto da ponte do aeroporto de Al Nairab em Aleppo, segunda cidade do país.
O ministério sírio do Interior, por sua vez, fez um pedido aos refugiados que fugiram da violência para que retornem ao país e também anunciou uma anistia para todos os homens armados que ;não tenham sangue nas mãos;, anunciou a tv pública. "O ministério do Interior apela aos homens armados que não têm sangue nas mãos que se apresentem à delegacia mais próxima para entregar suas armas. Eles serão liberados e não serão processados", afirma o anúncio.
O regime sírio, que reprime de forma sangrenta a oposição, anunciou mais cedo a suspensão das operações militares, mas advertiu que suas forças responderiam a qualquer ataque "terrorista", em referência aos rebeldes, que também prometeram respeitar 100% a trégua.
"O regime anda com rodeios, enquanto que nós nos comprometemos 100% com o cessar-fogo. O regime não nos provocará, não aceitaremos que nos provoque e não responderemos a suas provocações", indicou o coronel Kassem Saadeddin, porta-voz do Exército Sírio Livre. "O fim das hostilidade na Síria parece estar sendo respeitado", afirmou, por outro lado, o emissário da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, acrescentando, no entanto, que o presidente Bashar Al-Assad deve "implementar completamente" seu plano de paz de seis pontos.
"Estou animado com os informes segundo os quais a situação na Síria está relativamente calma e que o cessar das hostilidades parece respeitado", declarou Annan. "Todas as partes envolvidas têm a obrigação de aplicar integralmente o plano de seis pontos para resolver a crise no país", enfatizou. Annan também pediu que o Conselho de Segurança exija a volta do exército de Al-Assad para os quarteis que os militares deixem as cidades em conflito. Segundo Annan, o Conselho igualmente deve enviar uma missão de observadores para vigiar a aplicação do cessar-fogo.
A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, avaliou que o cessar-fogo é um "passo importante", desde que seja respeitado. "Se for respeitado, o cessar-fogo é um passo importante, mas é só um elemento do plano" de seis pontos do enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Kofi Annan, disse Hillary à imprensa, à margem da cúpula do G8, que reúne ministros das Relações Exteriores em Washington.
Não se trata de que o presidente sírio, Bashar al Assad, "faça uma seleção e eleja" o que gosta neste plano, insistiu Clinton. "O plano de Annan não é um menu com opções, é um conjunto de obrigações", explicou.
Em videoconferência celebrada nesta quinta-feira, o presidente americano, Barack Obama, e o colega francês, Nicolas Sarkozy, "pediram ao regime sírio para respeitar escrupulosa e incondicionalmente seus compromissos em relação ao plano do enviado especial da ONU e da Liga Árabe. O regime será julgado por seus atos", informou a presidência francesa em comunicado.
"Com aliados, em particular árabes, concordaram em intensificar seus esforços, inclusive no Conselho de Segurança (da ONU), para o fim definitivo da repressão brutal contra o povo sírio, para que seja fornecida ajuda humanitária urgente e que o povo sírio possa escolher livremente seu destino", diz o comunicado.
O plano de Kofi Annan ainda é considerado pelo Conselho Nacional Sírio como "a última chance para uma solução pacífica", reiterou sua porta-voz, Basma Kodmani. A organização de oposição afirma que existe disposição em trabalhar com Annan "para certificar de que os observadores internacionais serão enviados o mais rápido possível".
O CNS pede que especialistas em direitos humanos façam parte desses observadores para medir corretamente a especificidade da situação no terreno. "O teste real será se haverá ou não disparos enquanto a população se manifestar", disse a porta-voz. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou, por sua vez, que espera pelo envio de observadores à Síria "o mais rápido possível".
Por fim, o CNS convocou para esta quinta-feira (12/4) novas manifestações pacíficas contra o regime. "Convocamos o povo a manifestar-se e a expressar-se porque é um direito absoluto. As manifestações são um ponto essencial do plano do emissário internacional Kofi Annan", afirmou À AFP Burhan Ghalioun.
Todas as manifestações dos opositores foram reprimidas pelo regime de Bashar al-Assad. "O cessar-fogo não tem nenhum valor se não permite ao povo manifestar-se, e o plano de Annan não tem nenhum valor se não permite a transição do país para um governo democrático e pluralista", completou Ghalioun.