Agência France-Presse
postado em 12/09/2013 14:07
Genebra - O presidente Bashar al-Assad prometeu nesta quinta-feira (12/9) entregar as armas químicas da Síria, mas impôs condições aos Estados Unidos, no momento em que Moscou e Washington se preparam para discutir um plano russo para evitar uma ação militar liderada pelos Estados Unidos contra o seu regime.[SAIBAMAIS]Falando a um canal de televisão russo, Assad afirmou que a Síria irá colocar suas armas químicas sob controle internacional, acatando a proposta de Moscou. "A Síria está colocando suas armas químicas sob controle internacional por causa da Rússia", afirmou Assad segundo ao canal Rossiya 24, destacando, no entanto, que a decisão não foi tomada por causa da posição bélica dos Estados Unidos. "As ameaças dos Estados Unidos não afetaram a decisão", disse, acrescentando que a Síria enviará em alguns dias à ONU e à Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAC) os documentos técnicos necessários para entrar na organização.
No entanto, Assad condicionou sua aceitação à proposta russa à desistência dos Estados Unidos de ajudar os rebeldes e de ameaçar Damasco. "É um processo bilateral", declarou o presidente sírio, segundo a tradução em russo de suas declarações. "Quando constatarmos que os Estados Unidos querem efetivamente a estabilidade na região, que deixam de ameaçar, de tentar atacar e de entregar armas aos terroristas, então consideraremos que podemos realizar os procedimentos até o final e que serão aceitáveis para a Síria", explicou. Estas declarações de Assad foram feitas num momento em que Estados Unidos e Rússia se preparam para conversar, em Genebra, sobre a proposta para a Síria abrir suas portas aos inspetores e eliminar suas armas químicas.
O presidente Barack Obama expressou suas esperanças com a reunião. "Estou esperançoso de que as discussões que o secretário (de Estado John) Kerry terá com o chanceler (russo Serguei) Lavrov apresentarão resultados concretos", disse Obama. E acrescentou: "Kerry está no exterior para reuniões sobre um tema ao qual dedicamos muito tempo nas últimas semanas: a situação na Síria e a maneira com que podemos nos assegurar de que as armas químicas não sejam usadas contra inocentes".
Autoridades dos dois países, lideradas por Kerry e Lavrov, devem se debruçar sobre o plano de Moscou - uma proposta de última hora que levou o presidente americano, Barack Obama, a adiar a ameaça de ação militar dos Estados Unidos contra o regime sírio. Washington deseja ver se Assad está falando sério sobre a colocação de seu arsenal de armas químicas sob controle internacional, em meio a alegações de que o regime utilizou gás sarin em um ataque perto de Damasco no mês passado.
Antes do início do encontro, uma autoridade de alto escalão americana declarou que Washington estava convocando a Síria a "declarar todo o seu estoque rapidamente". O funcionário disse que Washington pedirá ações específicas de Damasco para testar a sinceridade do regime e discutirá as "diferentes modalidades" de destruição de armas químicas de Assad e das instalações de produção.
"É viável, mas difícil", disse o funcionário. Lavrov expressou otimismo antes das negociações, dizendo durante uma visita ao Cazaquistão: "Estou certo de que há uma chance para a paz na Síria... Não podemos deixá-la escapar". Em um discurso citado por agências de notícias russas, Lavrov afirmou que estava preparado para "garantir a adesão da Síria à Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas".
Os Estados Unidos e a França, sua principal aliada na defesa de um ataque militar contra a Síria, já advertiram que não permitirão que o plano de armas químicas se torne uma manobra dilatória na guerra brutal do país, afirmando que a ameaça da força militar permanece sobre a mesa. Revelando detalhes da proposta russa pela primeira vez nesta quinta-feira, o jornal Kommersant afirmou que Moscou entregou a Washington um plano de quatro etapas para a entrega das armas.
Citando uma fonte diplomática russa, o Kommersant declarou que o plano incluía ver Damasco aderir à Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), declarar a localização de suas armas químicas, permitir o acesso dos inspetores da OPAQ e, finalmente, enviar o arsenal para ser destruído. A oposição síria denunciou o plano, alertando que ele só provocará mais mortes em um conflito que já tirou 110 mil vidas desde março de 2011. O comandante do Exército Sírio Livre, Selim Idriss, afirmou em um vídeo postado no YouTube que os rebeldes rejeitavam categoricamente a iniciativa russa. E o grupo de oposição Coalizão Nacional Síria disse que o plano é uma "manobra política que tem por objetivo (fazer Assad) ganhar tempo" e que daria luz verde para outros regimes utilizarem armas químicas.
No entanto, o presidente russo, Vladimir Putin, fez um apelo pessoal incomum ao povo americano, defendendo a rejeição de qualquer ação militar, em um artigo de opinião publicado no jornal New York Times. "Um ataque iria aumentar a violência e desencadear uma nova onda de terrorismo", escreveu Putin. "Poderia tirar do equilíbrio todo o sistema de direito internacional", declarou. Putin saudou a boa-vontade dos Estados Unidos de considerar a iniciativa de Moscou, mas advertiu que qualquer ataque sem a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, onde Moscou detém o poder de veto, destruiria a credibilidade da organização mundial.
A Rússia é uma aliada tradicional de Assad, e Moscou, apoiado pela China, bloqueou todas as tentativas de punir seu regime através das Nações Unidas. As reuniões em Genebra devem durar dois ou três dias e também irão se focar nos esforços para organizar uma conferência de paz que vise acabar com a guerra civil na Síria. Assim como Lavrov, Kerry deve se reunir com o enviado especial da ONU e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi, para discutir os esforços para levar o regime de Assad à mesa de negociações com os rebeldes da oposição.
As autoridades ocidentais afirmam que a súbita renovação dos esforços diplomáticos relacionados à Síria é resultado das ameaças militares, mas questionam se Assad é confiável. Washington alega que cerca de 1.400 pessoas morreram no ataque químico de 21 de agosto e tentava reunir apoios para uma resposta militar quando a proposta russa surgiu. O chanceler francês, Laurent Fabius, declarou nesta quinta-feira que um relatório muito aguardado preparado pelos inspetores da ONU sobre o ataque "provavelmente" será publicado na segunda-feira. "Ele vai dizer que houve um massacre químico", afirmou Fabius a uma rádio francesa.