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Tragédia em Lampedusa: naufrágio deixa 130 mortos e 200 desaparecidos

Mergulhadores encontraram 40 corpos dentro da embarcação que naufragou em frente à ilha de Lampedusa

Agência France-Presse
postado em 03/10/2013 12:47
Corpos de imigrantes que se afogaram são colocados no cais do porto da Ilha de Lampedusa

Lampedusa teve nesta quinta-feira (3/10) a pior tragédia relacionada à imigração nos últimos anos. Mais de 130 imigrantes ilegais morreram e cerca de 200 estão desaparecidos depois do naufrágio de um barco perto da pequena ilha siciliana.

Segundo as autoridades, o navio partiu da Líbia e transportava entre 450 e 500 imigrantes. Apenas por volta de 150 foram salvos, o que suscita temores de um registro de cerca de 300 mortos.

"Não temos mais lugar, nem para os vivos nem para os mortos", declarou, abatida, a prefeita de Lampedusa, Giusi Nicolini. "É um horror, um horror; eles não param de deixar corpos".

As buscas foram interrompidas na noite desta quinta e serão retomadas na sexta, por volta das 04h30 GMT (01h30 de Brasília).

"Ainda há muitos corpos. Não posso dizer quantos. Ele estão todos grudados uns aos outros. Podemos ver apenas os primeiros", explicou à rede SkyTG24 um dos resgatistas, Giovanni de Gaetano, visivelmente transtornado.

"Queremos trazer o barco o mais rápido possível à superfície para levá-los as suas famílias", acrescentou um de seus colegas.

Na superfície, as buscas eram mantidas durante a noite por corpos que podiam vir à tona, mas "não há mais esperança de encontrar sobreviventes", declarou à AFP um membro da Guarda de Finanças, a polícia financeira que também atua no setor.

Pelo menos 40 novos corpos foram encontrados por mergulhadores da guarda-costeira, dentro e nas imediações da embarcação, que está a cerca de quarenta metros de profundidade. A imprensa falou de dezenas de corpos de mulheres e crianças.

"Foi terrível ver os corpos das crianças", declarou à rede de televisão Sky TG24 Pietro Bartolo, uma autoridade de saúde da ilha, muito emocionado. Lampedusa "não tem caixões o bastante" e teve que receber mais de outros lugares, disse.

Roma decretou uma sexta-feira de "luto nacional" e um minuto de silêncio será respeitado em todas as escolas e antes de todas as partidas de futebol do Campeonato Italiano.

O vice-primeiro-ministro Angelino Alfano confirmou à AFP que o capitão do barco tinha sido preso. "É um tunisiano de 35 anos que tinha sido expulso da Itália em abril", indicou.

Os imigrantes, na maioria somalis e eritreus, tinham partido do litoral líbio. O acidente aconteceu "a 0,3 milha náutica (550 metros)" da costa, disse.

O barco de pesca começou a se encher de água e, "com medo que ele afundasse, os imigrantes atearam fogo a um cobertor (para chamar a atenção, ndlr). Mas isso provocou um incêndio, e o navio virou", segundo Alfano.

"Um oceano de cabeças"

O pescador Rafaele Colapinto explicou à Sky TG24 que tinha ido em ajuda aos imigrantes: "Vimos um oceano de cabeças. Levamos meia hora para tirar cada um da água porque eles estavam oleosos por causa do diesel".

Uma jovem eritreia ainda viva foi encontrada entre eles, depois que um membro das equipes de socorro percebeu que ela ainda respirava. Ela foi levada ao hospital de Palermo, na Sicília, onde se encontra em estado grave, desidratada, com hipotermia e pneumonia. Ela ingeriu o diesel que vazou do barco, assim como as outras vítimas.



Revoltada, a prefeita Nicolini enviou um telegrama ao primeiro-ministro Enrico Letta pedindo que fosse contar os mortos com ela e acusou a Europa de "ignorar (...) o enésimo massacre de inocentes que acontece perto da ilha". Ela lembrou que Lampedusa, mais próxima da costa norte-africana do que da Sicília, é "há anos" o destino dos imigrantes clandestinos.


"É um drama europeu, não apenas italiano", explicou Alfano, pedindo que a Itália, que recebeu 25.000 imigrantes este ano (três vezes mais do que em 2012), possa estender suas patrulhas "para além de suas águas territoriais".

A ministra da Integração, Cécile Kyenge, primeira negra em um governo italiano, pediu a formação de "corredores humanitários com o objetivo de tornar mais seguras essas travessias, que registram a atuação de grupos criminosos".

"Uma vergonha"

O presidente Giorgio Napolitano pediu que a "Europa interrompa o tráfico criminoso de seres humanos em cooperação com os países de procedência" e considerou "indispensável a vigilância das costas onde começam essas viagens de desespero e morte".

O Papa, que visitou Lampedusa em sua primeira viagem para fora de Roma, no início de julho, falou de "vergonha", tendo-se em vista as "várias vítimas de mais esse naufrágio".

Segundo a rede de ONGs Migreurop em Paris, em vinte anos, 17.000 imigrantes morreram tentando chegar à Europa. A maior tragédia até hoje aconteceu em junho de 2011, quando de 200 a 270 imigrantes originários da África Subsaariana se afogaram tentando chegar a Lampedusa.

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