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Estado de Minas

Sobreviventes de Auschwitz detalham o horror vivido no campo de extermínio

Ao menos 1 milhão do total de 1,3 milhão de judeus deportados para Auschwitz entre 1940 e 1945 foram assassinados pelos nazistas


postado em 25/01/2015 06:40 / atualizado em 24/01/2015 21:33

Nenhuma palavra, nenhum sentimento é capaz de definir o horror vivido por seres humanos naquele local. A fumaça que exalava das chaminés, o cheiro dos corpos, as chamadas “marchas da morte”, os números tatuados na pele. Tudo levava ao fim iminente e doloroso. Na próxima terça-feira, 70 anos terão se passado desde que os soldados soviéticos entraram nos portões do campo de extermínio de Auschwitz, 60km a oeste da Cracóvia, na Polônia.

Havia apenas 7 mil prisioneiros remanescentes, a maior parte deles moribundo ou bastante doente. Ao menos 1 milhão do total de 1,3 milhão de judeus deportados para Auschwitz entre 1940 e 1945 foram assassinados pelos nazistas, sob as ordens de Adolf Hitler, e pelos kapos — criminosos recrutados pela polícia alemã Schutzstaffel (SS) para supervisionar o funcionamento dos campos. Aquele 27 de janeiro de 1945 representou a sonhada e impossível liberdade para quem driblou a morte tantas vezes. O Correio entrevistou, com exclusividade, quatro sobreviventes de Auschwitz. Eva Mozes Kor, 80 anos, se lembra como ontem daquela data.

“Eles (militares soviéticos) nos deram chocolate, biscoitos e abraços. Foi o meu primeiro gosto de liberdade”, relatou. A então menina de 10 anos foi uma das cobaias do médico nazista Josef Mengele, o chamado “Anjo da Morte”. Gábor Hirsch, 85, se escondeu sob um colchão de palha para não ser encontrado pelos soldados, após ser escolhido para se unir à “marcha da morte”. Aleksander Henryk Laks, 87 anos, que mora no Brasil desde 1948, contou como a mãe foi logo selecionada para morrer na câmara de gás. Halina Birenbaum, 85, desafiou os oficiais alemães para salvar a vida da cunhada.

"O que eu vi em uma hora, uma pessoa pode viver mil anos que não verá" (foto: Arquivo pessoal)
Aleksander Henryk Laks, 87 anos, morador do Rio de Janeiro

“Fui levado para Auschwitz-Birkenau em 1944. Minha mãe morreu lá, na câmara de gás. Fiquei dois meses ali e fui vendido para outro campo de concentração. Eu me recordo do transporte para lá. Eram vagões que carregavam gado. Quando eu cheguei a Auschwitz, parecia que estava em outro planeta. Na hora de descer do trem, um alto-falante avisava que as mulheres e as crianças deveriam ficar de um lado e os homens do outro. Meu pai segurou-me forte pelo pulso para que não nos perdêssemos um do outro. Minha mãe foi levada com as mulheres. Nunca mais a vi. Ela foi assassinada na câmara de gás e queimada no crematório. Na chegada, o que eu vi em uma hora, uma pessoa pode viver mil anos que não verá isso. Eram gritos, arrancavam as crianças do colo das mães e as jogavam contra a parede. Chutavam, batiam.

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Era noite e o céu estava todo avermelhado. Havia um complexo de chaminés e saía fuligem. Pensei que, assim como no gueto onde eu morei e trabalhei como metalúrgico, aquilo seria um autoforno para produzir aço, ferro e guza. Mas era o crematório. Meu pai falava bem alemão e perguntou: ‘O que está acontecendo? Onde estamos?’ A resposta foi: ‘Cala a boca! Você está em Auschwitz. Só tem uma saída, pela chaminé. Não pergunte, obedeça’. Para nós, a palavra Auschwitz não dizia nada. Nós não sabíamos de Auschwitz. O mundo inteiro sabia, mas nós, judeus, não. Quando o campo foi libertado pelos soviéticos, todos os prisioneiros, inclusive eu e meu pai, fomos levados para a ‘marcha da morte’. Ali, morreram 2 milhões de judeus. Foram exterminados andando na neve, dormindo ao relento, congelados, com fome e inanição. Isso durou até 8 de maio de 1945.

Ouça o áudio com trechos da entrevista

Em Auschwitz, não havia comida. Recebíamos uma casca de batata, um pouco de água e 200g de pão. Os judeus eram levados, nus, para a câmara de gás e queimados no crematório. Em 1943, a Alemanha começou a perder a guerra. Os jovens tinham que se alistar às Forças Armadas para defender o nazismo. Os judeus foram obrigados a fazer ‘esforço de guerra’ para a Alemanha. Foi o que ocorreu comigo e com meu pai. Somente soubemos da liberação de Auschwitz após o término do conflito. Eu sou o único sobrevivente de uma escola, cujos alunos foram todos mortos no primeiro campo de extermínio da humanidade, o Chelmo (em alemão, Kulmhof). Meu pai me escondeu e eu não fui para a aula naquele dia.


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