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Embaixador armênio ao Correio: 'A verdade precisa ser reconhecida'

No dia que marca o centenário do massacre de 1,5 milhão de pessoas durante a Primeira Guerra, Ashot Galoyan cobra posição oficial: "Será ótimo quando o Brasil reconhecer o genocídio em nível federal"

Em meio aos eventos que marcam os 100 anos do genocídio armênio, o representante Yerevan em Brasília, embaixador Ashot Galoyan, falou com o Correio sobre a data lembrada hoje (24/4) e as feridas, que após um século, permanecem abertas. O diplomata afirma que os esforços políticos para estreitar as relações com os turcos foram abandonado pelo país vizinho e que busca apoio da comunidade internacional para que o massacre que dizimou cerca de 1,5 milhão de armênios durante a Primeira Guerra Mundial seja reconhecido como o primeiro genocídio do século 20. Galoyan está em São Paulo, onde se concentram as homenagens do centenário no Brasil.

O que o 24 de abril significa para a Armênia?
O significado da data é difícil de superestimar. Nós nos tornamos um povo da diáspora, estamos em todos os lugares do mundo. É difícil encontrar um país que não tenha pessoas armênias, principalmente por causa do genocídio. Essas pessoas foram negadas o direito de viver em sua terra natal, não foi um ato aleatório, foi realizado por uma autoridade. A comunidade internacional reconhece que foi um genocídio porque aconteceu de forma organizada, sob a autoridade da Turquia, com o objetivo de exterminar os armênios. Dessa forma, pensavam que poderiam remodelar a Turquia da maneira que quisessem. Para os armênios, o genocídio faz parte de uma herança trágica e o reconhecimento significa a abertura de uma porta para o dialogo entre nossas nações. Mas como podemos ir em frente sem o reconhecimento do que aconteceu no passado? Isso é que queremos, os armênios em todo o mundo.

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Qual a demanda do povo armênio?
Nosso objetivo é que a verdade sobre o genocídio seja reconhecida. Especialmente depois da decisão do Parlamento Europeu, que chamou a Turquia a admitir um fato histórico. Eles reconheceram o genocídio antes disso, mas, agora, tomaram a decisão de chamar a Turquia a reconhecer o fato que o país atualmente nega. Há meses autoridades turcas vêm divulgando comunicados dizendo que entendem a dor do povo armênio, mas ao mesmo tempo eles estão trabalhando duro e fazendo lobby nos Estados Unidos para tornar praticamente impossível ao presidente Barack Obama mencionar a palavra genocídio. A maior autoridade do Vaticano e as maiores da Europa não estão chamando o que houve na Armênia de massacre ou de ações injustificadas durante a primeira guerra, mas de ações organizadas e patrocinadas contra uma nação.

O governo brasileiro não reconheceu o massacre como genocídio. Como o senhor entende a posição do Brasil?
Será ótimo quando o Brasil reconhecer o genocídio em nível federal. O Uruguai foi o primeiro do mundo a reconhecer. Argentina, Bolívia, Venezuela, Chile, muitos latino-americanos já reconhecem, e esperamos, claro, que o Brasil também o faça. Eu sei que há trâmites internos para que questões como essa sejam discutidas, e não cabe a mim abordá-las, mas esperamos, sim, que todos reconheçam. Há algumas semanas, a Assembleia Legislativa de São Paulo, estado de 44 milhões de pessoas, estabeleceu o dia 24 de abril como o dia do genocídio armênio e estendeu sua solidariedade para o nosso povo. Mas, antes disso, a cidade de São Paulo já havia reconhecido o genocídio, assim como a cidade do Rio de Janeiro e Osasco, para onde as primeiras ondas de armênios que vieram ao Brasil seguiram e formaram a maior comunidade armênia no país.

O que o senhor acredita ser necessário para que a questão com a Turquia seja superada?
A primeira coisa que precisa ser feita no nosso ponto de vista que é os turcos reconheçam o genocídio. Precisamos que isso aconteça para que nossa relação fique melhor no futuro. Quando tentamos normalizar as relações, com a assinatura de um protocolo (que estabelecia metas de aproximação), na esperança de que pudesse haver diálogo entre os países, nada se tornou verdade. Eles sempre pospuseram a ratificação e demonstraram não ter vontade política de fazê-lo prosseguir.