Jacqueline Saraiva
postado em 11/03/2016 06:21
Um jihadista entregou uma lista, com as supostas fichas de 22 mil membros do Estado Islâmico (EI), a um jornalista na Turquia. O documento, com data de 2013, teria endereços, telefones, contatos familiares e até tipo sanguíneo de milhares de pessoas de várias partes do mundo. De acordo com o canal britânico de televisão Sky News, que divulgou os dados na quinta-feira (10/3), os formulários têm dados dos voluntários do grupo jihadista, que os preenchem ao entrar para o grupo.
A lista mostra que a maioria deles é de países árabes, seguidos por franceses, alemães e britânicos. Diversos recrutados ainda não identificados se encontram na Europa ocidental, Estados Unidos, Canadá, Magreb e Oriente Médio. No total, os voluntários seriam de 55 países. A notícia da existência de tal documento já havia sido citada na segunda-feira (7/3) por alguns meios de comunicação alemães.
De acordo com o Sky News, as informações recebidas pelo jornalista do canal televisivo na Turquia estavam em um dispositivo USB, que teria sido roubado do chefe da polícia interna da organização por um membro do Exército Livre da Síria, opositor ao regime de Bashar Assad, que se integrou ao EI. O homem, que se identificou como Abu Hamed, afirmou que abandonou o grupo após ficar decepcionado e se converteu em um reduto de antigos soldados iraquianos do Partido Baath do ditador Saddam Hussein, executado em 2006 após sua deposição por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos.
Ao entregar a lista, Abu Hamed afirmou que havia abandonado o grupo jihadista por considerar que "os valores islâmicos colapsaram" no seio do grupo. "Esta organização é uma fraude, não tem nada a ver com o Islã", disse o miliciano decepcionado.
Organização
O documento já foi entregue às autoridades, que investigam sua autenticidade. As informações ; que detalham até o tipo sanguíneo e o nível de compreensão da charia, o direito islâmico - são organizadas em 23 perguntas formuladas pelo Estado Islâmico. Um dos ficheiros, intitulado ;mártires; traz o nome de voluntários que estariam dispostos a cometer atentados suicidas. O homem informou ainda que a organização jihadista retirou o quartel-general da cidade de Raqa, no norte da Síria, para o deserto.
[SAIBAMAIS]Muitos dos nomes incluídos nos ficheiros já eram conhecidos das autoridades, segundo o Sky News. Um deles é Abdel-Majed Abdel Bary, 26 anos, um rapper londrino que se juntou ao grupo em 2013 e que visitou a Líbia, o Egito e a Turquia. Após ser alistado no EI, ele chegou a publicar no Twitter uma foto sua com a cabeça de uma pessoa decapitada na mão. Há também nomes de terroristas mortos em operações militares, como Junaid Hussain, um hacker de Birmingham, 21, que comandava os serviços do Estado Islâmico na Síria, nos setores de recrutamento e informações. Juntamente com a mulher Sally Jones, uma ex-punk de Kent, teriam planejado uma sequência de ataques terroristas no Reino Unido.
Autenticidade
A lista entregue seria de 2013, mas, mesmo desatualizada, deve ajudar as autoridades a entenderem parte do sistema terrorista. Se forem autênticas, podem ter efeitos devastadores para o grupo, que controla amplas faixas da Síria e do Iraque e que reivindica atentados letais na África e nos países ocidentais. Richard Barrett, ex-diretor de contra-terrorismo da Inteligência britânica, qualificou a documentação de "fonte inestimável para os analistas". ;Será uma autêntica mina de ouro de informação de enorme significado e interesses para muita gente, em particular para os serviços de inteligência e segurança", disse Barrett;.
As autoridades alemãs consideraram verdadeiras as informações referentes aos seus cidadãos jihadistas, mas até o momento não há mais reações oficiais. O ministro do Interior alemão, Thomas de Maziere, disse que a lista abrirá caminho para "realizar investigações mais rápidas, mais claras, e conseguir sentenças de prisão mais duras", além de ajudar a "entender melhor as estruturas" da organização.
Preocupação
Milhares de cidadãos europeus se uniram ao Estado Islâmico, que em 2014 proclamou a instauração de um califado entre Síria e Iraque, e as autoridades de seus países temem que retornem para cometer atentados.
Com informações da France Presse