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Trump poderia implementar mudanças radicais na política ambiental

O magnata declarou, em 2012, que as mudanças climáticas eram uma "farsa" criada pelos chineses para prejudicar a competitividade das indústrias americanas, mas depois disse que estava brincando

Quando assumir a Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump pode decretar mudanças radicais na política ambiental americana já nos seus primeiros dias de governo, com efeitos de longo alcance tanto nos Estados Unidos como em todo o mundo, afirmam especialistas.

Além de contar com a maioria republicana no Congresso, Trump poderá promover uma série de mudanças através de decretos presidenciais.

Mas os especialistas admitem que é impossível prever seus primeiros passos após a posse, nesta sexta-feira.

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O magnata declarou, em 2012, que as mudanças climáticas eram uma "farsa" criada pelos chineses para prejudicar a competitividade das indústrias americanas, mas depois disse que estava brincando.

Ele também afirmou ao New York Times que manteria a mente aberta sobre o Acordo Climático de Paris, assinado em dezembro de 2015, e admitiu que as mudanças climáticas podem ser influenciadas pela atividade humana.

Um dos principais compromissos de Trump durante a campanha foi o de "cancelar" o Acordo de Paris. Porém, sua escolha para secretário de Estado, Rex Tillerson, disse durante as audiências de confirmação, neste mês, que achava importante que os Estados Unidos permanecessem na mesa de discussões.

Mas se Trump decidir retirar o país do Acordo de Paris, no qual mais de 190 líderes mundiais se comprometeram a reduzir as emissões de gases que causam o aquecimento global, ele poderia fazer isso "por conta própria", disse Michael Burger, diretor-executivo do Centro Sabin para a Lei de Mudança Climática da Universidade de Columbia.

De qualquer forma, esse processo levaria vários anos.

O novo líder americano poderia ir ainda mais longe e se retirar de um importante tratado ambiental internacional negociado durante a Rio-1992, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, "o que seria um verdadeiro desastre", acrescentou Burger.

"Esse quadro tem sido o mecanismo através do qual os países vêm tentando lidar com as mudanças climáticas há mais de 25 anos", disse.

Espera-se também que Trump pare de fazer repasses ao Fundo Verde do Clima, que conta com os Estados Unidos para ajudar os países mais pobres do mundo a lidar com as mudanças climáticas.

Na terça-feira, o Departamento de Estado anunciou seu segundo pagamento de US$ 500 milhões para o fundo, como parte de uma promessa de US$ 3 bilhões feita em 2014.

Este foi o último de uma série de movimentos feitos pelo governo do presidente Barack Obama em suas últimas semanas para preservar as proteções ambientais, incluindo o bloqueio de novas concessões para perfuração de petróleo e gás no Ártico e no Atlântico.

Amigo dos combustíveis fósseis

Outra medida que Trump poderia tomar rapidamente seria conceder a aprovação do controverso oleoduto Keystone XL, que transportará petróleo bruto do Canadá para as refinarias dos Estados Unidos na Costa do Golfo, um projeto bloqueado pela administração Obama.

"O único obstáculo para o oleoduto Keystone foi a negação do governo Obama", disse Brendan Collins, advogado ambientalista que representa clientes no setor de energia elétrica e na indústria de petróleo e gás.

A nomeação do ex-CEO da ExxonMobil, Tillerson, como secretário de Estado do governo Trump, mandou a mensagem de que a nova administração será "simpática em um nível fundamental" com os interesses dos combustíveis fósseis, disse Collins à AFP.

Nos últimos dias, Tillerson e outros candidatos foram questionados pelos legisladores sobre suas posturas em relação às mudanças climáticas.

O procurador-geral de Oklahoma, Scott Pruitt, escolhido por Trump para liderar a Agência de Proteção Ambiental (EPA), reconheceu na quarta-feira que a atividade humana afeta as mudanças climáticas, mas ressaltou que a extensão desse impacto permanece sujeita a debate.

O congressista de Montana Ryan Zinke, nomeado como secretário do Interior, também admitiu que as mudanças climáticas não são uma farsa.

Mas seus pontos de vista sobre o aquecimento global podem não ser a questão mais relevante, dizem os especialistas.

"Embora Zinke acredite na realidade das mudanças climáticas como uma questão científica, ele também acha que há espaço para o desenvolvimento contínuo dos combustíveis fósseis em terras federais", disse Collins, indicando que Trump poderia colocar fim aos limites impostos por Obama à extração de minerais, petróleo e gás.

E Pruitt, como procurador-geral de Oklahoma, processou a própria agência que agora é convidado a dirigir, na tentativa de desfazer a "descoberta de ameaça" que afirma que os gases de efeito estufa colocam em risco a saúde pública e o bem-estar.

"Essa descoberta pôs em andamento e autorizou uma série de regulações sobre usinas de energia, petróleo e gás, e emissões de metano", disse Burger.

Pruitt perdeu o processo, e "a EPA do presidente Trump não será capaz de desfazer essa descoberta. A ciência não apoia isso", acrescentou.

Trump também prometeu desfazer "regulações desnecessárias que prejudicam o trabalho".

Em geral, as regulações ambientais são difíceis de se desfazer, porque levam anos de trabalho e comentários públicos para se tornarem leis.

Mas Trump pode enfraquecer as regulações simplesmente não fazendo nada, disse Burger.

"Não fazer nada neste contexto significaria não aplicar regulações que estão nos livros, não exigindo que as entidades estatais ou privadas façam alguma coisa sobre as mudanças climáticas", afirmou, descrevendo essa abordagem como "um enorme risco".