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Correio Braziliense

Reformas aumentam a esperança de igualdade de gênero na Arábia Saudita

Reino proíbe mulheres de dirigir e as submete à tutela masculina


postado em 26/03/2017 08:00 / atualizado em 26/03/2017 09:16

Mulheres esperam por seus motoristas do lado de fora de shopping center da capital, Riad: há 27 anos, elas lutam para poder conduzir carros (foto: Fayez Nureldine/AFP - 26/9/11)
Mulheres esperam por seus motoristas do lado de fora de shopping center da capital, Riad: há 27 anos, elas lutam para poder conduzir carros (foto: Fayez Nureldine/AFP - 26/9/11)

Na Arábia Saudita, berço do islã, as mulheres galgam lentamente posições de destaque em uma nação tradicionalista e ultraconservadora, cujas leis e valores são regidos pelas autoridades religiosas. No mês passado, duas delas foram nomeadas para comandar importantes instituições financeiras: Rania Mahmoud Nashar ascendeu ao cargo de presidente executiva do banco Samba Financial Group; Sarah Al-Suhaimi estará à frente do Conselho de Administração da Tadawul, a Bolsa de Valores. Mais que um reconhecimento ao papel feminino, as nomeações de Rania e de Sarah se inserem em um conjunto de reformas para superar a crise econômica e se preparar para a falência da receita petrolífera. Aos poucos, a Casa de Saud recebe influências do Ocidente e ensaia passos modestos rumo à maior igualdade de gêneros: em 2015, autorizou as mulheres a votar; e o reino abre espaço à inserção no mercado de trabalho. No entanto, o sistema de tutela masculina e a proibição de dirigir imposta às mulheres são entraves para o empoderamento feminino.

O inédito Conselho de Garotas de Qassim, lançado pelo príncipe Faisal bin Mishal bin Saud, na província de mesmo nome, acabou ridicularizado pela imprensa internacional, depois de fotos vazarem na internet. A reunião do conselho mostrava 13 homens e nenhuma mulher. Segundo a emissora britânica BBC, as mulheres estavam em outro ambiente, conectadas por meio de vídeo. A saudita Najah Al-Osaimi, jornalista especialista em assuntos sociopolíticos do Oriente Médio, baseada em Londres, admite ao Correio que as indicações para o Samba Financial Group e para a Tadawul são um pequeno progresso, mas lembrou que as posições de liderança seguem dominadas pelos homens. “Isso impacta a velocidade de progresso dos direitos humanos.”

Segundo Najah, o debate sobre a situação das mulheres sauditas deve considerar três elementos: a cultura e o legado tradicional; a influência das autoridades religiosas na esfera nacional; e a ausência de leis de apoio ao público feminino que reforcem a igualdade de gêneros. “Por causa dessa tríade, a situação das mulheres melhora, mas lentamente. A sociedade saudita é tribal e muçulmana, e vive de acordo com valores tradicionais. As autoridades religiosas detêm poder, pois o país é o berço do islã e elas tentam emitir fatwas (decretos islâmicos) contrários aos temas das mulheres”, comenta.

Apesar do contexto desfavorável, a especialista reconhece uma mudança na última década e destaca que mais de 400 mil jovens sauditas foram enviados para estudar em países como EUA e Reino Unido — 25% de mulheres. “Elas receberam direito de votar e de se candidatar nas eleições municipais. Outra grande evolução foi a indicação de 30 mulheres para o Conselho Shoura, que atua como um parlamento, uma representatividade de 20%”, acrescenta. “As coisas estão se transformando, mas o problema é que a Arábia Saudita possui uma geração de jovens mulheres altamente educadas que querem uma mudança rápida, a fim de se tornarem completamente iguais aos homens.”


Obstáculos


Najah vê dois grandes obstáculos que impedem as mulheres de obterem os seus direitos. “O primeiro é a proibição para elas dirigirem, tema pelo qual lutam há 27 anos. Outro assunto está ligado ao sistema de tutela masculina, que restringe as mulheres de tomarem qualquer decisão independente, como se casar, trabalhar, viajar etc., sem consentimento de um homem da família. Mas, agora, temos um movimento feminista que tenta abolir a lei e melhorar a situação”, observa. A jornalista contextualiza as prováveis mudanças ao citar o plano “Visão 2030”, encampado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e destinado a preparar o país para a era pós-petróleo, com reformas econômicas e sociais. “Mohammed bin Salman é jovem e apaixonado pelas transformações. Ele tomou a histórica decisão de modernizar o país, de reduzir o poder e a influência das autoridades religiosas sobre a vida das pessoas e de permitir entretenimento público, como a realização de shows musicais, há décadas banidos da Arábia Saudita. Também reduziu o poder da polícia religiosa.”

Especialista libanesa da Organização Europeia-Saudita pelos Direitos Humanos, Duaa Dhainy acredita que a Arábia Saudita permanece opressora no campo dos direitos humanos. “Na esfera legal, as leis de tutela dos homens governam todos os aspectos da vida das mulheres, incluindo a educação e o emprego. Elas também não têm o direito de transferir a nacionalidade para os filhos. Além disso, a Arábia Saudita é a única nação que proíbe as mulheres de dirigir”, afirma ao Correio. Entre as razões pelas quais o governo adota a abordagem contrária às mulheres, ela cita a interpretação estrita e religiosa das leis, a falta de desejo de mudanças e o fato de a sociedade ser machista. “Os homens controlam todos os detalhes e todas as instituições. Eles não querem nenhuma mudança no status atual da mulher”, conclui.

Apesar de tudo, Najah diz que “ser mulher na Arábia Saudita é ótimo, ao contrário do que muitos pensam”. Ela revela que as mulheres têm vários privilégios, como acesso livre à educação em universidades estrangeiras, com todas as despesas pagas pelo reino. “Eu vim a Londres com uma bolsa de estudos de nove anos de duração, e o governo pagou toda a minha educação e a minha subsistência. Além disso, todos os cidadãos sauditas têm padrões elevados de atendimento médico gratuito e de benefícios sociais, pois este é um país rico em petróleo, e as receitas permitiram um massivo bem-estar dos cidadãos.”

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