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Papa viaja ao Egito e denuncia violência cometida 'em nome de Deus'

Sob forte esquema de segurança, a visita do pontífice argentino acontece três semanas após os dois atentados de 9 de abril contra igrejas coptas ortodoxas que deixaram 45 mortos

Cairo, Egito - O papa Francisco denunciou a violência cometida "em nome de Deus" e o populismo que ameaça a paz, durante sua primeira visita nesta sexta-feira ao Egito, onde a minoria cristã local sofre constantes ataques.

Sob forte esquema de segurança, a visita do pontífice argentino acontece três semanas após os dois atentados de 9 de abril contra igrejas coptas ortodoxas que deixaram 45 mortos e que foram reivindicadas pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI).
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O papa Francisco denunciou a violência cometida "em nome de Deus" e o populismo que ameaça a paz, durante sua primeira visita nesta sexta-feira ao Egito, onde a minoria cristã local sofre constantes ataques.

Sob forte esquema de segurança, a visita do pontífice argentino acontece três semanas após os dois atentados de 9 de abril contra igrejas coptas ortodoxas que deixaram 45 mortos e que foram reivindicadas pelo grupo extremista Estado Islâmico (EI).

"Nenhuma violência pode ser cometida em nome de Deus porque profanaria Seu nome", declarou o papa em um discurso pronunciado durante uma conferência organizada pela instituição sunita Al-Azhar.

Para esta primeira visita do papa ao mais populoso dos países árabes, que segue em estado de emergência, policiais e militares eram onipresentes nas ruas da capital egípcia.

Os arredores da Nunciatura Apostólica, onde o papa deve ficar hospedado, foram fechadas ao tráfego nesta sexta-feira. E perto da catedral, sede da Igreja ortodoxa copta, tanques estavam estacionados.

Francisco se dirigiu ao palácio presidencial para uma reunião com o presidente Abdel Fattah al-Sissi. Depois foi para a instituição de Al-Azhar, onde foi recebido pelo grande imã, xeque Ahmed al-Tayeb, e deverá encontrar mais tarde o líder dos coptas, o papa Tawadros II.

Em seu discurso, o papa denunciou "os populismos demagógicos que não ajudam a consolidar a paz". "Nenhuma incitação à violência garantirá a paz", insistiu, sem citar exemplos.

Ele também pediu a "bloquear os fluxos de dinheiro e de armas" para "prevenir os conflitos e edificar a paz".

"Juntos, nesta terra de encontro entre o céu e a terra, de alianças entre os povos e entre os crentes, repetimos um ;não; alto e claro à toda forma de violência", acrescentou o chefe da Igreja católica.

"Só trazendo à luz as turvas manobras que alimentam o câncer da guerra é possível prevenir suas causas reais", afirmou ainda o Papa, para que o verdadeiro culpado pelos conflitos no Oriente Médio é o tráfico de armas.

"Para prevenir os conflitos e construir a paz, é essencial trabalhar para eliminar as situações de pobreza e de exploração, onde os extremismos se fortalecem facilmente", alertou.

- Respeito aos direitos Humanos -
Todas as igrejas no Cairo foram colocadas sob vigilância, por medo de atentado, enquanto o EI ameaçou multiplicar os ataques contra os coptas, majoritariamente ortodoxos, que representam cerca de 10% dos 92 milhões de egípcios.

Mais importante comunidade cristã em número no Oriente Médio, os coptas ortodoxos do Egito se dizem vítimas de discriminação por parte das autoridades e da maioria muçulmana.

Em outro discurso pronunciado diante de Sissi, o papa Francisco pediu respeito "incondicional" aos direitos Humanos, citando "a liberdade religiosa e de expressão".

Criticado no exterior por violações dos direitos humanos, Sissi demonstrou certa abertura à comunidade cristã egípcia desde que chegou ao poder em 2014.

Ele foi o primeiro presidente do Egito a participar de uma missa de Natal, em 2015.

O presidente prometeu aos coptas identificar os responsáveis %u200Bpelos atentados reivindicados pelo EI contra as igrejas em Tanta e Alexandria, que mataram 45 pessoas no início da Semana Santa, em 9 de abril.

-Degelo -
A viagem de Francisco é a segunda de um papa ao Egito contemporâneo, após a de João Paulo II em 2000.

A instituição sunita de Al-Azhar se opõe ao jihadismo inspirado no salafismo rigoroso dominante na Arábia Saudita.

Mas Al-Azhar está igualmente no centro de uma disputa entre as autoridades políticas e religiosas desde que Sissi fez campanha por reformas visando erradicar os discursos extremistas na esfera religiosa.

A visita do papa ao Cairo visa, muito particularmente, consolidar as relações entre Al-Azhar e o Vaticano, tensas a partir de 2006, em razão das polêmicas declarações do papa Bento XVI associando o Islã e a violência.

Já em maio de 2016, o papa Francisco recebeu o imã al-Tayeb, ponto culminante de uma aproximação entre a Santa Sé e Al-Azhar.

O líder espiritual de quase 1,3 bilhão de católicos finalmente se reunirá na sexta-feira com o papa copta ortodoxo do Egito, Tawadros II.

Eles devem visitar a igreja copta de São Pedro e São Paulo, onde um atentado a bomba matou 29 vítimas em dezembro, no coração do Cairo.