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Correio Braziliense

Com míssil intercontinental, Coreia do Norte eleva aposta, dizem analistas

A península coreana está dividida desde a Guerra da Coreia, a qual terminou em 1953 com um armistício, e não com um acordo de paz


postado em 06/07/2017 09:32

Com seu míssil balístico intercontinental (ICBM), a Coreia do Norte aposta em aumentar seu poder de barganha frente a eventuais negociações com os Estados Unidos - afirmam analistas -, ainda que, ao mesmo tempo, esse movimento afaste a possibilidade de um diálogo. O artefato põe ao alcance de Pyongyang o acalentado sonho de desenvolver um míssil capaz de transportar uma ogiva nuclear até o território continental dos Estados Unidos, colocando um sério desafio para o presidente Donald Trump.

Para especialistas consultados pela AFP, o míssil lançado no Dia da Independência dos Estados Unidos (4 de julho) é capaz de atingir o Alasca e até além. "Tudo parece indicar que o Norte está buscando subir a aposta diplomática o máximo possível e garantir uma posição favorável em suas relações com o resto do mundo, incluindo Estados Unidos e Coreia do Sul", comentou o professor de Estudos Norte-Coreanos Kim Yong-Hyun, da Universidade Dongguk, de Seul.

A península coreana está dividida desde a Guerra da Coreia, a qual terminou em 1953 com um armistício, e não com um acordo de paz. Pyongyang alega que precisa de armas nucleares para se defender da permanente ameaça de uma invasão. De acordo com o governo, o programa nuclear e de mísseis nunca será negociável, a menos que Washington abandone o que Pyongyang classifica como "política hostil" americana.

Os cálculos de Kim Jong-Un
O momento escolhido para o teste do míssil - após a primeira reunião entre Trump e o novo presidente sul-coreano, Moon Jae-In, e antes da cúpula do G20 - parece ser deliberado, avaliou Kim. O presidente Moon quer dialogar com o vizinho do Norte e levá-lo à mesa de negociações, o que recebeu o apoio de Trump. O lançamento do míssil foi, porém, "claramente uma porta na cara de Moon", opinou Kim.

"Com frequência, Moon diz que quer estar sentado 'no banco do motorista, e não no banco de trás' para desempenhar um papel de liderança nas negociações nucleares", lembrou o pesquisador na conversa com a AFP. "Aparentemente, o que Kim Jong-Un está dizendo é que ele é que deveria estar sentado no banco do motorista", acrescentou.

Um número crescente de analistas acredita que - cedo, ou tarde - os Estados Unidos terão de negociar com o Norte. "Em última análise, não restará outra opção a não ser o diálogo", apontou o professor Kim Yeon-Chul, da Universidade Inje, da Coreia do Sul.

Linha vermelha
Durante décadas, Pyongyang buscou obter concessões de seus rivais com uma mistura de provocação e de gestos ocasionais pacíficos - às vezes com sucesso - antes de o processo voltar a desmoronar. De acordo com o analista coreano Cho Han-Bum, do Korean Institute for National Unification, o lançamento do míssil na última terça (4) foi outro "movimento altamente calculado e calibrado de estratégia do precipício". 

Segundo ele, esse movimento consiste em levar uma ação perigosa a até quase as últimas consequências para forçar o adversário a retroceder e tentar alcançar o resultado mais vantajoso para si mesmo. Outra "linha vermelha" que Pyongyang evitou cruzar até agora é a realização de um sexto teste nuclear. Já o lançamento de um míssil "faz parte de sua tentativa de subir a aposta", de olho em futuras negociações, acrescenta.

O problema é que, ao fazer isso, "torna ao mesmo tempo mais difícil para a comunidade internacional lançar as negociações". O especialista sugere também que o Norte "não tem pressa" em chegar às negociações e pode, pelo contrário, continuar elevando a aposta.

Um G20 com divisões
Enquanto isso, Washington pode se ver obrigado a ter de se conformar com continuar pedindo ao mais próximo aliado da Coreia do Norte - a China - que faça mais para conter o vizinho. Em um tuíte, Trump convidou Pequim para pôr um limite a Pyongyang "e acabar com esse nonsense de uma vez por todas".

Pequim insiste em que já foram feitos "dedicados esforços" sobre el tema e considera que o pior cenário seria um colapso do regime de Pyongyang capaz de provocar um fluxo de refugiados em massa. Ou ainda pior: o envio de tropas americanas para sua fronteira com uma Coreia unificada.

Até agora, sucessivos pacotes de sanções da ONU fracassaram na tentativa de conter o impulso norte-coreano. As chamadas "sanções secundárias" dos Estados Unidos para penalizar empresas que fizerem negócios na Coreia do Norte podem afetar interesses chineses. Esse quadro dificilmente estimulará Pequim - já bastante irritada com o escudo antimísseis dos Estados Unidos instalado em solo sul-coreano - a dar uma mão no imbróglio na península.

Em artigo publicado pela rede BBC, o pesquisador John Nilsson-Wright, do "think tank" Chatham House, com sede em Londres, disse que o Norte pode continuar jogando com o tempo "e, ao mesmo tempo, continuar capitalizando as divisões na comunidade internacional". Na véspera da cúpula do G20, ficam cada vez mais claras as divergências das principais potências mundiais sobre o tema: de um lado, China e Rússia pedem moderação e, do outro, Estados Unidos insistem em uma reação.

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