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Correio Braziliense

Egito: sonho de democracia deu lugar a regime militar opressivo

Há exatamente sete anos, milhares de jovens reunidos na praça do Cairo comemoravam a deposição de Hosni Mubarak, após revolução que deixou mais de 840 mortos.


postado em 11/02/2018 08:00 / atualizado em 10/02/2018 21:14

Fogos de artifício e celebração na Praça Tahrir lotada, na noite de 11 de fevereiro de 2011, depois do anúncio da renúncia de Hosni Mubarak: especialistas admitem que ditadura de Abdel Fattah Al-Sisi é ainda mais cruel(foto: Marco Longari/AFP - 11/2/11)
Fogos de artifício e celebração na Praça Tahrir lotada, na noite de 11 de fevereiro de 2011, depois do anúncio da renúncia de Hosni Mubarak: especialistas admitem que ditadura de Abdel Fattah Al-Sisi é ainda mais cruel (foto: Marco Longari/AFP - 11/2/11)

Durante 18 dias e noites, quando a angústia, o medo e a revolta insistiam em acampar no meio de Tahrir, milhares de egípcios buscavam inspiração no poeta Ahmed Fouad Negm (1929-2013) e recitavam um de seus mais famosos versos. “Os homens corajosos são corajosos. Os covardes são covardes. Venham com os corajosos, juntos, até a praça”, clamavam. Em 11 de fevereiro de 2011, os bravos jovens reunidos na praça central do Cairo forçaram a renúncia do ditador Hosni Mubarak, após quase três décadas de governo. A Primavera Árabe parecia florescer democracia em um país sedento por liberdades civis. 

Primeiro presidente eleito do Egito, o islamita Mohamed Morsy assumiu o poder em 30 de junho de 2012. Um ano depois, foi derrubado por uma junta militar. Abdel Fattah Al-Sisi, líder dos golpistas, assumiu o comando do país e, em junho de 2014, tornou-se o novo chefe de Estado, com suspeitos 97,6% dos votos. Todos os sonhos e aspirações, perseguidos pelos jovens de Tahrir, exatamente sete anos atrás, deram lugar a um regime que esmagou a oposição com mão de ferro, triplicou as sentenças de morte (60 em 2016 e 186 no ano seguinte) e dobrou o número de execuções — 22, em 2015, e 44 em 2016. Em 19 de janeiro passado, Al-Sisi anunciou que tentará a reeleição no pleito, que deve ocorrer entre 26 e 28 de março. Detalhe: não haverá adversários.

“Há menos liberdades agora do que em qualquer época desde que o Exército ascendeu pela primeira vez ao poder, em 1952. Apesar de ditador, o ex-presidente Gamal Abdel Nasser era politicamente astuto. Al-Sisi é um neófito político, acredita que a política representa uma ameaça para ele e, por isso, faz o possível para silenciar qualquer comportamento que tenha remotas implicações políticas”, explicou ao Correio Robert Springborg, professor visitante do Departamento de Estudos de Guerra do King’s College, em Londres, e especialista do Middle East Institute.

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Segundo Springborg, a população egípcia jamais esteve tão apavorada em relação a um regime. “Isso é o que exatamente Al-Sisi pretende. O custo desse cenário não envolve somente a liberdade política, mas também o desempenho econômico. Como ele não pode permitir qualquer independência, se cercou de homens incapazes de controlar a economia. O presidente do Banco Central é sobrinho do ex-ministro da Defesa de Nasser, enquanto a chefe do Ministério de Investimentos é filha do responsável pelo setor de inteligência durante o governo de Nasser”, acrescentou. Sem expertise em economia, o Egito retrocede no bem-estar social.

Springborg admite que o regime de Al-Sisi modificou as relações-chave entre os três principais pilares do Estado: a presidência, o Exército e os serviços de segurança. “Os militares agora exercem controle direto, enquanto Al-Sisi considera a inteligência militar como principal suporte de seu governo. Isso subordinou outros serviços de inteligência, que, durante o regime de Mubarak, serviam como contrapeso aos militares”, observou. Para o analista, o domínio absoluto do poder por parte dos militares subordinou o resto do governo, a sociedade civil e a economia ao controle do ex-general. Ele não hesita em afirmar que o modelo de Al-Sisi para o Egito é calcado no militarismo. “Ele quer subordinar todos ao comando centralizado. É uma ditadura 100% genuína, do tipo das de Bashar Al-Assad, Saddam Hussein e Muamar Kadafi.”


Transição

Analista político egípcio, Amr Khalifa lembra que o seu país experimentou múltiplos períodos políticos nos últimos sete anos, desde a revolução que destituiu Mubarak. Entre 2011 e 2012, a nação foi controlada pelo comandante supremo das Forças Armadas, em prosseguimento ao controle militar imposto em 1952. “A segunda era foi dominada por Morsy e pela Irmandade Muçulmana, o primeiro governo presidencial, mas também produto de um acordo de bastidores com o complexo militar. Isso não durou até 3 de julho de 2013, com um golpe articulado por Al-Sisi”, citou. Outro período transicional de 10 meses terminou com a eleição de Al-Sisi. “Somente o fato de ele ter obtido 97,6% dos votos deveria dizer grande coisa sobre o estado da política no Egito. O que transpirou desde aquele 11 de fevereiro de 2011 foi a ditadura mais repressiva da história moderna do Egito”, reconheceu.

De acordo com Khalifa, o que distingue Al-Sisi de Mubarak é que o ditador deposto se guiava por um senso estratégico das políticas doméstica e externa. “A política de Al-Sisi, por sua vez, depende da força e de sua aplicação.” Mais de 61 mil egípcios estão nas prisões apenas por suas convicções políticas. Na semana passada, dois jornalistas desapareceram, e a suspeita é de execução extrajudicial. A brisa da liberdade que soprou sobre Tahrir, naquela noite de fevereiro, deu lugar a tempos obscuros.



Pontos de vista

Por Robert Springborg

No caminho
da ditadura



“O fato de Al-Sisi não deixar que nenhum adversário dispute as eleições de março sugere o medo de que militares e serviços de segurança não estejam ao lado dele. Se o ex-general Sami Anan ou o ex-premiê Ahmed Shafiq fossem capazes de disputar as eleições e tivessem entre  20% e 25% dos votos, isso forçaria Al-Sisi a mudar o curso e reconhecer a insatisfação com a política. Al-Sisi quer comandar o país como se todos o apoiassem, não como um chefe de um Estado no qual há discordâncias sobre as políticas. Agora que ele desceu pelo caminho da ditadura, não há retorno.”

Professor visitante do Departamento de Estudos de Guerra do King’s College, em Londres


Por Amr Khalifa

Teatro do
absurdo




“A marca Al-Sisi de autocracia é particularmente musculosa, e não distingue entre assuntos militares e políticos. Ele disse, em um recente discurso: ‘Eu não sou político’. A tentativa de assassinato do ex-czar anticorrupção Hisham Genena  é um exemplo perfeito de como usar uma vara dura quando o silêncio deveria ter sido a abordagem. Essa ato, aliado à prisão do candidato presidencial Sami Anan, é um pequeno reflexo de um homem que acredita que o seu caminho é a prisão ou a morte. As eleições convocadas por Al-Sisi nada mais são do que um teatro do absurdo.”

Colunista e analista político egípcio

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