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Correio Braziliense

Conflito na Síria objetiva alianças e dificulta negociação diplomática


postado em 25/02/2018 08:00

O enclave rebelde de Ghouta, sob ataque incessante do governo: civis encurralados(foto: Ammar Suleiman/AFP)
O enclave rebelde de Ghouta, sob ataque incessante do governo: civis encurralados (foto: Ammar Suleiman/AFP)

Com mais de 500 vítimas sob bombardeios desde o último domingo, o enclave rebelde de Ghouta Oriental, na periferia leste de Damasco, é a imagem mais recente dos horrores de sete anos de guerra civil na Síria — com um saldo acumulado de mais de 400 mil mortos e 11 milhões de pessoas desalojadas de casa. Paralisada diante do desafio de estancar os ataques indiscriminados à população civil, a comunidade internacional esbarra na complexidade crescente do conflito, iniciado em 2011 com a dura repressão do regime de Bashar al-Assad contra os opositores que se manifestavam por democracia. Hoje, Ghouta Oriental é apenas uma das frentes nas quais a guerra da Síria se fragmentou, com a intervenção de diferentes atores, externos e internos, com interesses mutantes e alianças que se fazem e se desfazem.

A imagem mais completa do país, hoje, é a de um caleidoscópio, em que pequenos estilhaços se combinam para formar infinitos desenhos, que mudam a cada movimento. Em resumo, existem hoje ao menos cinco focos principais de combate (veja infografia), e, em cada um deles, as forças envolvidas se recombinam segundo objetivos determinados. As forças do governo atuam principalmente contra os últimos importantes bolsões rebeldes: além de Ghouta, a província de Idlib (norte) e a fronteira sul. Mais recentemente, milícias pró-Assad uniram-se a combatentes da minoria étnica curda, em Afrin, para deter uma incursão da Turquia, aliada a facções islâmicas.

“Os ingredientes estão no tabuleiro: tensões entre turcos e curdos, com os americanos no meio; tensões entre Irã e Israel, com sírios e libaneses no meio”, comenta Ryan Crocker, ex-embaixador dos Estados Unidos na Síria”. Ele lembra, ainda, que em 2014 emergiu no conflito o Estado Islâmico (EI), que ocupou vastas áreas abandonadas pelo exército sírio e proclamou um califado, que se estendia a porções do vizinho Iraque. Até o fim de 2017, quando caíram as últimas cidades importantes em poder dos jihadistas, o combate a eles se sobrepôs aos demais interesses dos vários agentes envolvidos no conflito 


Imprevisível


“A Síria está entrando em uma fase extremamente perigosa e volátil, que terá como característa os esforços dos vários atores para manter as posições conquistadas e garantir os próprios interesses”, analisa Mona Yacoubian, estudiosa de Oriente Médio no think tank americano Instituto para a Paz. “Atingimos (na Síria) um patamar inédito de complexidade, e parece que agora todos os fatores se acirram ao mesmo tempo”, concorda Ryan Crocker.

Até certo ponto, a fragmentação da guerra civil síria repete o processo vivido nos 15 anos de conflito no vizinho Líbano, entre 1975 e 1990, no qual a Síria teve papel destacado. Se, por um lado, possibilita a intervenção pontual para conter escaladas em algumas das “miniguerras” em andamento — como é agora o caso de Ghouta —, essa pulverização das frentes e o envolvimento paralelo de múltiplos interesses externos podem alimentar o prolongamento das hostilidades.

“Neste ponto, ninguém parece querer uma guerra total — nem o regime de Assad, nem o Irã, nem a Rússia, nem os curdos”, raciocina o diplomata americano. “Não é o caos completo, mas ninguém pode saber  o que vem em seguida.” Mona Yacoubian ressalta o vazio criado pelo desmoronamento do antigo status quo e pelas pressões concorrentes exercidas pelas várias forças, em função dos próprios objetivos. “Não há como exagerar o poder dessa nova dinâmica, com os diferentes atores tratando de moldar o futuro da Síria”, observa. “E isso deve se produzir, em múltiplas formas, pelos próximos meses ou, talvez, anos.”
 
 
 
 
 
 
 




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