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Correio Braziliense

Eleições deste domingo marcam a estreia das Farcs na vida política

Mais de 45 milhões de pessoas vão às urnas na Colômbia. Candidatos da antiga guerrilha e especialistas avaliam chances do novo partido na busca por representatividade


postado em 11/03/2018 07:25

Policial mantém guarda ao lado de membros do partido Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc), em Monteloro, no Vale do Cauca(foto: Luis Robayo/AFP)
Policial mantém guarda ao lado de membros do partido Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc), em Monteloro, no Vale do Cauca (foto: Luis Robayo/AFP)

 
Das selvas da Colômbia ao Capitólio Nacional, em Bogotá. Dos sequestros e emboscadas às artimanhas e negociatas políticas. Depois de mais de 50 anos de conflito e de um processo de desmobilização acertado com o governo de Juan Manuel Santos, a Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc) — antiga guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, de mesma sigla — disputa, hoje, suas primeiras eleições. Serão 23 candidatos para as 102 cadeiras do Senado e 13 para os 165 assentos da Câmara de Representantes. Na última quinta-feira, a organização sofreu um golpe, ao anunciar a desistência de seu líder máximo, Rodrigo Londoño “Timochenko”, da candidatura ao pleito presidencial de 27 de maio. Analistas preveem uma vitória contundente da direita nas legislativas de hoje, mas entendem que as urnas podem conferir legitimidade à Farc. “As possibilidades de o partido conquistar assentos na Câmara são muito mais difíceis do que para o Senado”, afirma Carlos Medina Gallego, cientista político colombiano e diretor do Departamento de Ciência Política da Universidad Nacional Colombiana.

Uma das quatro mulheres entre os 14 integrantes do Conselho Político-Nacional da Farc, o antigo Secretariado, Victoria Sandino Palmera decidiu concorrer ao Senado. “Nosso propósito é aumentar o número de cadeiras. Queremos ter uma bancada robusta e com capacidade suficiente para exigir as normas que devem tramitar no Congresso, a fim da adequação institucional para garantir da implementação do acordo de paz”, afirmou ao Correio, por telefone, a ex-comandante da Frente 21 das Farc. “As pessoas nos postularam e nos escolheram para representar o partido nessa instância de tomar decisões, dentro do Congresso.”

Pacto

Se a Farc chegou à política, muito se deve ao papel de Sandino. “Estive por 24 anos na insurgência. Antes de viajar a Havana, dirigi um bloco Sul-Ocidental das Farc, que compunha o Comando Central e parte da região oeste da Colômbia. Eu tinha a responsabilidade de fazer os trabalhos político e de relacionamento com os movimentos sociais e as comunidades”, explicou. A ex-guerrilheira integrou a mesa de negociações, em Havana, por quatro anos e meio, até a assinatura do acordo de paz. O pacto assegurou as 10 cadeiras da Farc para o Congresso, cinco na Câmara e cinco no Senado. Desde a 10ª Conferência de Guerrilha Nacional, em setembro de 2016, Sandino se incorporou ao Estado-Maior Central e ao Conselho dos Comuns, a direção do partido. 

Caso vença as eleições, ela pretende levar adiante o programa “Para um governo de transição e de mudança”, lançado pela Farc. “Queremos um governo de convergência. O importante é que a agenda legislativa corresponda a esse programa de governo”, explicou. Entre os principais temas em pauta, estão a reforma agrária integral e a política, além de medidas voltadas para as mulheres do campo e aquelas encarceradas — com a proposta de penas alternativas.

Ex-comandante da Frente 57 das Farc e candidato à Câmara de Representantes, Olmedo Ruiz admitiu ao Correio que as aspirações do partido não se resumem a conquistar mais assentos no parlamento. “O que realmente nos interessa é posicionar nossas ideias e propostas políticas ante a opinião pública nacional. Queremos que a gente  comum compreenda a necessidade de avançar em uma sociedade mais justa e equitativa”, disse. De acordo com ele, não pode haver paz sem justiça social. “Queremos construir confiança na sociedade e dar exemplo de transparência política. Apesar da tentativa de setores da ultradireita de sabotarem nossa campanha, temos nos unido e estamos a caminho de nos fortalecer a cada dia”, acrescentou. 

Renovação

Ruiz também participou como delegado nas negociações de paz de Havana e atuou em um projeto piloto de descontaminação de minas terrestres em regiões da Colômbia. Ele acusa as eleições de hoje de não refletirem os interesses das grandes maiorias empobrecidas do país.

Carlos Medina Gallego, da Universidad Nacional Colombiana, considera o pleito de suma importância e aponta uma provável renovação em 32% dos quadros do Congresso. “A esquerda deverá contabilizar entre 3% e 5% dos votos, com a obtenção de entre 8 e 12 assentos. O melhor que poderia ocorrer à legenda seria conquistar votos necessários para que essas cadeiras se tornem próprias e avaliar os resultados do acompanhamento eleitoral da cidadania. Isso daria maior legitimidade à Farc e lhe permitiria enfrentar com mais força os debates no interior do Senado”, afirmou.

Para Jaime Fajardo Landaeta, constituinte em 1991, analista e investigador do conflito colombiano, a última legislatura do Congresso, marcada pela campanha eleitoral e por grande polarização, não espreita boas condições para acelerar a implementação dos acordos de paz. “A Farc tem de se reconciliar com o povo e realizar ações de reparação que contribuam com essa meta.”

Pontos de vista

Como esperam que o partido Farc reaja à repulsa popular e obtenha mais apoio nas eleições de hoje?
Por Victoria Sandino Palmera

“Eles nos receberam com emoção profunda. Em um contexto no qual se desenrolou um conflito tão prolongado como o da Colômbia, não se pode falar em repulsa ou ódio generalizado da população contra o partido, nem por nosso passado. É importante levar em conta que a Colômbia é um país extremamente polarizado. Aqui, durante décadas, criou-se toda uma política de ódio contra uma parte do conflito. Em grande parte da  população, esse ódio não se expressa. Pelo contrário, onde fomos, tivemos um intercâmbio direto com o povo. Os moradores dos territórios onde estivemos nos receberam com uma emoção profunda pelo retorno, por verem que estamos comprometidos com os direitos das comunidades. Nos locais urbanos onde nunca antes chegamos, há uma disposição de escutar e entender o conflito, além de um agradecimento profundo por termos alcançado a paz. O que não se pode negar ou ocultar é que, encabeçado pela ultradireita colombiana, há um grupo de sabotadores, provocadores e agressores que atentaram contra a nossa e contra outras campanhas.”

Ex-comandante da Frente 21 das Farc, integrante da delegação de paz e candidata ao Senado



Temos reconhecido os nossos erros
Por Olmedo Ruiz 

“A repulsa popular pela Farc é um imaginário orquestrado por aqueles que desejam seguir vivendo da guerra. Há ações incendiárias de ódio, promovidas pelos setores de ultradireita do país. Um exemplo é que vítimas diretas das ações de guerra se aproximaram de nós e tiveram um diálogo respeitoso conosco. Temos reconhecido os erros, sempre de uma maneira humilde. Além disso, em nossos trabalhos de pedagogia da paz, os setores mais humildes do país nos receberam com muita cordialidade. Não temos sentido repulsas das vítimas em relação a nós. Estamos dedicados a não agudizar uma polarização política e a evitar os comentários insalubres, que nada aportam à construção de uma paz estável e duradoura. Também convidamos os grêmios empresariais e as instituições do Estado e a sociedade para que se comprometam ativamente na superação da guerra e nos dediquemos a traçar caminhos de reconstrução nacional. A Colômbia não pode seguir em uma lógica de ódio autodestrutivo.”

 
Ex-vice-comandante da Frente 36 das Farc e candidato à Câmara de Representantes



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