Publicidade

Correio Braziliense

Uma diplomacia em crise às vésperas da histórica cúpula Trump-Kim

Em meio à saída de Rex Tillerson do cargo de chefe de Estado, o presidente dos EUA precisa se preparar para o encontro com o líder norte-coreano


postado em 15/03/2018 11:43

(foto: AFP)
(foto: AFP)
Washington, Estados Unidos - Donald Trump vai se preparar para um desafio de alto calibre: a histórica cúpula com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, no momento em que sua equipe diplomática está mergulhada no caos com a abrupta saída de Rex Tillerson do Departamento de Estado, onde vários postos-chave continuam vazios.

"Tillerson era favorável a conversas com a Coreia do Norte, e o presidente, ao aceitar fazer isso, está fazendo, de certo modo, o que o secretário sempre promoveu", disse o ex-embaixador Stapleton Roy em conversa com jornalistas em Washington, nesta quinta-feira (15/3).

E isso, mesmo depois de Donald Trump já ter desprezado publicamente os esforços de negociação de seu secretário com Pyongyang sobre os programas nuclear e balístico da Coreia do Norte.

Na semana passada, por exemplo, em sua última viagem ainda no cargo, Rex Tillerson - partidário de uma diplomacia convencional que se contrapõe a um presidente inclinado a mostrar os "músculos" dos EUA, ameaçando "destruir totalmente" a Coreia do Norte - se gabava de poder "criar as condições para negociações bem-sucedidas entre duas partes muito diferentes".

"Todo o mundo sabia das diferenças de opinião entre Trump e Tillerson. Isso minou a capacidade de Tillerson de representar o presidente como secretário de Estado", avaliou o diretor do programa Ásia do "think tank" Wilson Center, Abraham Denmark.

O sucessor escolhido por Trump, o diretor da CIA (a Agência Central de Inteligência), Mike Pompeo, que parece estar alinhado com o magnata republicano, pode acabar sendo, portanto, "um negociador mais crível frente aos norte-coreanos", acrescentou.

O tempo urge, porém.

A Casa Branca justificou a demissão de Tillerson pela necessidade de que Trump tenha "sua nova equipe pronta antes das discussões com a Coreia do Norte" - um encontro sem precedentes que deve acontecer no final de maio.

A indicação de Pompeo não poderá ser confirmada pelo Congresso antes de abril. Até lá, o subsecretário de Estado, John Sullivan, que não tem envergadura política, ficará interinamente à frente da pasta.

Departamento esvaziado

À sua volta, não há muita gente com quem contar.

A secretária de Estado adjunta para o Leste da Ásia, Susan Thornton, ainda não foi confirmada pelo Congresso, porque Tillerson demorou a impô-la aos partidários da linha-dura da Casa Branca. Fica, então, a pergunta: diplomata e favorável a negociações, ela vai se entender com Mike Pompeo, considerado um "falcão"?

Ao mesmo tempo, o representante especial para a política norte-coreana Joseph Yun, um dos poucos "canais de comunicação" entre Washington e Pyongyang, acaba de se aposentar e não foi substituído.

Os Estados Unidos tampouco têm um embaixador na Coreia do Sul, aliado-chave e artífice do giro diplomático com o Norte.

Há tempos considerado para o cargo, o acadêmico e diplomata Victor Cha foi recentemente descartado, após ter criticado a eventualidade - prevista, segundo ele, por alguns na Casa Branca - de um ataque preventivo seletivo para persuadir Kim Jong-un a renunciar às armas atômicas.

"Atualmente, no Departamento de Estado, são poucas as pessoas com a experiência necessária para negociar com o Norte", considerou Roy.

"Nos Estados Unidos, tem muita gente capaz de participar de um processo de negociação, mas essas pessoas não estão no governo. Isso depende da maneira como se constitui a equipe" ao redor do presidente, acrescentou o especialista em Ásia.

Trump, por sua vez, parece não se preocupar muito com os problemas de Recursos Humanos da diplomacia americana. "Eu sou o único que importa", respondeu há meses, em entrevista à Fox, ao ser questionado sobre o assunto.

Para Stapleton Roy, preocupa, contudo, que o presidente "tenha aceitado participar da reunião antes de fixar os objetivos" e que ele vá para o encontro com Kim "com a reputação de não estar adequadamente preparado sobre os temas", com os quais deve lidar.

"Deve, de forma inequívoca, mostrar a todo mundo e aos Estados Unidos que ele se prepara seriamente para essa cúpula", afirmou, fazendo um apelo ao presidente para que incorpore representantes do Partido Democrata, em um esforço "bipartidário".

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade