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Correio Braziliense

Rússia deve consagrar Putin como o governante mais duradouro desde Stalin

Sem concorrentes de fato, Putin segue com o projeto de modernizar o velho império e confrontar o Ocidente


postado em 18/03/2018 08:00 / atualizado em 17/03/2018 22:42

As duas incógnitas que restam são a taxa de comparecimento às urnas e o tamanho da vitória(foto: AFP/Kirill KUDRYAVTSEV)
As duas incógnitas que restam são a taxa de comparecimento às urnas e o tamanho da vitória (foto: AFP/Kirill KUDRYAVTSEV)
Vladimir Putin vai neste domingo (18/3) depositar seu voto com mais de 100 milhões de eleitores em toda a Rússia em um cenário que não poderia ser mais conveniente para a estratégia de garantir o quarto mandato como presidente com uma votação consagradora. Neste sábado, com a campanha encerrada e as últimas pesquisas antecipando a vitória, o Kremlin anunciou a expulsão de 23 diplomatas britânicos, como resposta à decisão simétrica anunciada na quarta-feira pela primeira-ministra Theresa May — em represália ao envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal e da filha, Yulia, na cidade inglesa de Salisbury. Moscou vai também encerrar as atividades do British Council, que promove relações culturais, e o consulado do Reino Unido em São Petersburgo.

A queda de braço com Londres deu a nota de encerramento para uma campanha sem surpresas nem adversários — um one man show do ex-agente da KGB soviética que domina a cena política do país desde o início do século. Neste domingo, as duas incógnitas que restam são a taxa de comparecimento às urnas e o tamanho da vitória: a meta informalmente assumida por Putin foi resumida na fórmula 70%-70%. As primeiras seções eleitorais foram abertas às 8h deste domingo (17h de ontem, em Brasília), no extremo oriente. As últimas, na fronteira ocidental, serão fechadas às 21h (15h em Brasília).

Na ausência do único opositor possivelmente capaz de incomodá-lo, Alexei Navalny, declarado inelegível por promover manifestações sem consentimento das autoridades, o presidente apareceu com 69% das intenções de voto na última pesquisa de opinião do instituto VtsIOM. Em um segundo lugar remoto, o comunista Pavel Grudinin (7%), seguido pelo ultranacionalista Vladimir Zhirinovski (5%). Os demais cinco candidatos obtiveram 1% ou menos. Confirmados mais seis anos de mandato, o Kremlin terá seu ocupante mais longevo desde Josef Stalin, que governou a hoje extinta União Soviética de 1924 a 1953.

A confrontação com o Ocidente, avaliam os estudiosos da política russa, desponta como o grande trunfo de Putin em um cenário doméstico marcado por dois anos de crescimento econômico praticamente nulo — impacto causado pelas sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia (UE). Ironicamente, elas foram adotadas em represália à anexação da península ucraniana da Crimeia, que completa quatro anos justamente hoje. De 2014 para cá, a popularidade do já chamado “novo czar” cresceu em ritmo semelhante ao dos gastos bilionários com o reequipamento das Forças Armadas.

Reconstrução

Um conjunto de indicadores econômicos e sociais atesta que, na era Putin, a Rússia sacudiu a letargia dos anos seguintes ao colapso da União Soviética (1991) e deixou de ser “apenas uma cópia empobrecida da antiga superpotência da Guerra Fria”, como diz Alexander Baunov, do Carnegie Moscow Center. A pobreza diminuiu, fruto do aumento da massa salarial, a despeito da estagnação do período mais recente. A taxa de conexão dos russos à internet disparou e se aproximou das observadas nos EUA e na UE.

Baunov se remete ao discurso anual do presidente sobre o estado da nação, no último dia 1º, para descrever uma visão da Rússia como a das matrioshkas, as bonecas tradicionais compostas de numerosas réplicas embutidas uma na outra. “A boneca de dentro, que representa o panorama doméstico, é digital e usa roupas e acessórios da moda”, compara o pesquisador. “A de fora usa farda militar de camuflagem e exibe armas modernas.” Baunov não acredita que Putin pretenda restaurar a URSS ou o antigo império czarista, mas tampouco que busque integrar a Rússia ao Ocidente. “A ambição dele é criar uma espécie de ‘Ocidente’ econômico e tecnológico dentro da Rússia.”

“O objetivo primário do atual sistema político é manter no poder a nova classe dominante — isto é, os que estão sob a ‘capa’ de Putin — pelo tempo que for possível”, diz Andrei Kolesnikov, outro estudioso do Carnegie Moscow. “A elite de oligarcas que personifica o estilo político do Kremlin e o capitalismo de Estado dessa era, na qual poder é igual a propriedade, não tem a menor intenção de realmente transitar dessa espécie meio híbrida de autocracia para um regime mais flexível, democrático e pró-mercado”, avalia. “Eles querem apenas encenar mudanças.”

Embora não cite pelo nome as matrioshkas, também Kolesnikov recorre à imagem de uma figura com várias camadas para descrever uma variante do absolutismo francês com Luis XIV, que proclamava “o Estado sou eu”. “Na Rússia, o Estado é composto por círculos concêntricos da elite administrativa, política e financeira”, explica o estudioso. “A visão que prevalece é de que tudo é feito para o Estado, nada fora do Estado, e sempre subordinado aos interesses do Estado.”

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