Publicidade

Correio Braziliense

Egito vai às urnas em eleição que deve manter governo de Al-Sisi

Presidente é franco favorito a permanecer no cargo e um aliado como único adversário. Especialistas temem que, com os resultados das urnas, se intensifiquem no país as medidas autoritárias e o desrespeito aos direitos humanos


postado em 26/03/2018 06:00 / atualizado em 26/03/2018 08:42

O presidente é acusado de ter intimidade interessados em participar do pleito, que, como na eleição anterior, deve ter alta abstenção(foto: Brendan Smialowski/AFP - 3/4/17)
O presidente é acusado de ter intimidade interessados em participar do pleito, que, como na eleição anterior, deve ter alta abstenção (foto: Brendan Smialowski/AFP - 3/4/17)

Em uma controversa eleição que começa hoje e termina na quarta-feira, o favoritismo do presidente do Egito, o ex-marechal Abdel Fattah Al-Sisi, aponta para a continuidade de um dos governos mais autoritários e repressores da história do país, na visão de entidades de direitos humanos, opositores e especialistas. Nos últimos meses, vários adversários do regime foram alvos de prisões e outras intimidações, o que levou a oposição a boicotar o pleito. O único concorrente de Al-Sisi nas urnas é o aliado Moussa Mostafa Moussa, presidente do pequeno partido Ghad, que registrou a candidatura quase no fim do prazo fixado pela Autoridade Nacional Eleitoral. Opositores e um grupo de 14 organizações locais e internacionais denunciam o que consideram uma manobra do governo para conferir ares democráticos a um processo fraudulento.

“Já dissemos em conjunto com outras ONGs locais e internacionais que as eleições no Egito não são justas nem gratuitas”, disse ao Correio o norte-americano Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch (HRW), uma das principais organizações internacionais de direitos humanos, atuante em mais de 90 países, que foi expulsa do Egito, como várias outras entidades. “O Egito, nos últimos quatro anos, testemunhou a aniquilação dos direitos mais básicos, incluindo aqueles que são necessários para a realização de eleições livres”, acrescentou.

“Quando se trata do que aconteceu nos últimos dois meses diretamente antes das eleições, é apenas uma escalada da repressão. Todos os potenciais candidatos e principais adversários foram detidos ou intimidados para fora da corrida presidencial. Esse grupo inclui até figuras militares importantes, como o ex-primeiro-ministro Ahmed Shafiq e o ex-chefe militar Sami Anan”, declarou o diretor da HRW.

Al-Sisi controla o poder no Egito desde 3 de julho de 2013, quando, como chefe das Forças Armadas, depôs, com um golpe de Estado, o governo do islamita Mohamed Morsy, da Irmandade Muçulmana. Morsy havia assumido o cargo no ano anterior, como o primeiro presidente eleito democraticamente no país em 30 anos. Ele substituiu o ditador Hosni Mubarak, que governou o Egito com mão de ferro de 1981 a 2011 e renunciou ante a pressão da onda de manifestações que ficou conhecida como Primavera Árabe — protestos que eclodiram no fim de 2010, impulsionados por dificuldades econômicas e pela falta de democracia em vários países do Oriente Médio e do norte da África.

Manobras 

A primeira eleição de Al-Sisi ocorreu 11 meses após o golpe militar, em 3 de junho de 2014, quando ele tinha acabado de aposentar a farda de marechal. À época, o processo foi boicotado pela maioria da oposição, em protesto contra uma série de irregularidades. Al-Sisi, então, decidiu ampliar o período da votação quando ela estava em andamento, na tentativa de atrair uma significativa participação dos eleitores. Porém, uma abstenção superior a 60% refletiu a opinião popular sobre a legitimidade do pleito. O militar da reserva venceu com 96,91% dos votos, enquanto seu único adversário, o político de esquerda Hamden Sabahi, teve 3%.

Na eleição atual, seguindo a mesma estratégia para alcançar uma participação que dê um certo respaldo ao processo, o primeiro turno de votação terá três dias, enquanto o segundo, se necessário, será realizado em igual período, de 24 a 26 de abril. São esperadas para votar 60 milhões de pessoas, do total de 100 milhões de habitantes do país, o mais populoso do mundo árabe.

Para Ferry de Kerckhove, ex-embaixador do Canadá no Egito e cientista político, a manipulação do processo eleitoral e a repressão contra opositores refletem, além do perfil autoritário de Al-Sisi, a falta de confiança do presidente no próprio desempenho eleitoral. “Ele faz com que o seu antecessor, o ditador Hosni Mubarak, pareça um democrata”, ironizou Kerckhove, em entrevista ao Correio. “É difícil acreditar que ele não tenha tanta confiança em si mesmo a ponto de colocar na prisão alguns de seus ex-colegas fardados. Com Mubarak, o Egito era um Estado policial com certa liberdade, cuja oposição real foi autorizada a participar de eleições a partir de 2005”, comparou.

Por trás dessa suposta falta de confiança pode estar uma condenação generalizada ao declínio da economia e às políticas internas de Al-Sisi, que também levam muitos a defender o boicote à eleição. Sob o comando do ex-marechal, a economia desaba com uma inflação de dois dígitos — 14,4% em fevereiro — e 28% da população abaixo da linha de pobreza. Em novembro de 2016, o país conseguiu a aprovação do Fundo Monetário Internacional (FMI) para um programa de financiamento de US$ 12 bilhões, com duração de três anos, destinados a revitalizar a economia.

Pontos de vista


(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Silêncio estratégico
Por Ferry de Kerckhove, ex-embaixador do Canadá no Egito e cientista político

É lamentável que a maioria dos poderes do mundo pareça ter decidido não enfrentar o presidente Al-Sisi em questões de direitos humanos, porque eles acham que o Egito é o baluarte final contra toda uma região caindo no caos, com um efeito dominó na Arábia Saudita, no Iraque, na Síria e na Líbia, entre outros. Há também a preocupação com a segurança de Israel, sendo o Egito um parceiro fundamental de Israel na luta contra o terrorismo no Sinai. E, finalmente, há a preocupação com o Irã, que poderia se beneficiar de um enfraquecimento do Egito e outros aliados dos Estados Unidos, da Arábia Saudita e do Bahrein. Vivemos em uma época, notadamente na era Donald Trump, em que os direitos humanos e a democracia parecem ter saído da agenda. Al-Sisi sabe bem e duplica isso, desde que funcione. 


(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Direitos aniquilados
Por Kenneth Roth, diretor-executivo da Human Rights Watch (HRW)

Nos últimos anos, o Egito testemunhou a aniquilação dos direitos mais básicos, incluindo os que são necessários para a realização de eleições livres, como de liberdade de reunião, de expressão e de associação. Mais de 20 jornalistas estão na cadeia. Nenhum candidato ou partido pode se mobilizar ou organizar comícios. Milhares de jovens foram presos apenas por se juntar a protestos pacíficos. Ao menos 28 dos principais defensores dos direitos humanos estão proibidos de deixar o país, e 10 deles tiveram ativos congelados. Mesmo aqueles que apenas defendiam o boicote à eleição foram presos. A tortura e o desaparecimento forçado são sistemáticos e generalizados nas mãos das forças do Ministério do Interior. A sociedade civil no 
Egito está à beira da extinção. 


(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Riscos de um outro Egito 
Por Stephen Zunes, cientista político da Universidade de San Francisco

O fato de Al-Sisi não permitir o voto democrático indica uma consciência de que ele poderia perder uma eleição livre e justa. Os egípcios mais jovens são, em média, mais educados, mundanos e laicos e democráticos do que seus pais. Eu não duvido que haverá novos protestos. Chama atenção como os Estados Unidos e outras nações ocidentais têm tolerado, por muito tempo, regimes autocráticos repressivos se forem vistos como apoiadores de seus interesses econômicos e estratégicos. Um Egito mais democrático seria um Egito mais nacionalista, que seria menos subserviente aos objetivos estratégicos americanos e ao capital internacional, mais favorável aos palestinos, mais disposto a desafiar os sauditas e outros vizinhos árabes autocráticos, e mais assertivo dos próprios interesses nacionais.
 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade