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Correio Braziliense

50 anos sem Luther King: igualdade racial segue como utopia

Especialistas admitem que a igualdade racial segue como utopia 50 anos depois do assassinato do ativista Martin Luther King Jr. e veem demandas similares às registradas em 1968. Disparidades na Justiça e na economia afetam os negros


postado em 04/04/2018 06:28 / atualizado em 04/04/2018 07:45

Americanos visitam estátua de Martin Luther King Jr. esculpida na rocha, em Washington, a poucos metros do local do famoso discurso de 1963 (foto: Brendan Smialowski/AFP - 30/3/18)
Americanos visitam estátua de Martin Luther King Jr. esculpida na rocha, em Washington, a poucos metros do local do famoso discurso de 1963 (foto: Brendan Smialowski/AFP - 30/3/18)
Nas escadas do Lincoln Memorial, de frente para o National Mall, em Washington, a inscrição talhada no chão marca o local do famoso discurso de Martin Luther King Jr., em 28 de agosto de 1963. Não muito longe dali, o imenso busto do ativista, esculpido na rocha, tornou-se centro de peregrinação de afro-americanos que ainda aguardam a materialização do sonho do “Dr. King”. Às 18h01 de 4 de abril de 1968, em Memphis (Tennessee), a 1,4 mil quilômetros da capital, uma bala calou uma das principais vozes contra a segregação da população negra nos Estados Unidos. Meio século depois, apesar de o legado do reverendo King seguir intacto, o racismo é ferida aberta na sociedade. Em todos os 50 estados americanos, supremacistas brancos atuam respaldados pela Primeira Emenda — o texto da Constituição que resguarda a liberdade de expressão. 

Professor da Faculdade de Política e Governo da George Mason University, em Arlington (Virgínia), Jeremy Mayer admitiu ao Correio que o racismo se mantém como fato vergonhoso na opinião pública, nas instituições sociopolíticas e nas eleições americanas.“A explicação para o fracasso dos EUA em erradicar o preconceito racial está na relutância dos brancos em desistirem do poder e em abandonarem a discriminação.” De acordo com ele, há duas mentiras envolvendo o debate racial. “Uma é a de que não temos racismo, falácia propalada pelos conservadores. A outra é a de que o racismo continua tão ruim como quando King era vivo. Apesar de isso não ser verdade, o problema está longe de ser resolvido.”

O motel, em Memphis, diante do qual o reverendo foi assassinado(foto: Joe Raedle/Getty Images/AFP)
O motel, em Memphis, diante do qual o reverendo foi assassinado (foto: Joe Raedle/Getty Images/AFP)
Colette Mazzucelli, professora de relações internacionais da New York University, a persistência da violência das armas e do racismo sistêmico nos EUA “deve ser abordada nos termos da interseccionalidade, no âmago dos males da sociedade”. “A discriminação contra os marginalizados (…) deve ser tratada em todos os níveis da sociedade, para honrar o legado de King e nutrir o ativismo cívico do século 21, inclusivo e emancipatório”, disse à reportagem.

Demônios

Além do racismo, muitos dos demônios que atormentaram os EUA em 1968 não foram exorcizados. Se naquele ano os pacifistas vociferavam contra combates no Vietnã, agora o país se vê às voltas com a guerra no Afeganistão. A luta pela emancipação das mulheres foi reeditada, como foco no assédio sexual. Estudantes voltaram a tomar as ruas, dessa vez para exigir o controle de armas. Colette explicou que os protestos se centram em temas que atingiram a maioridade dos movimentos do século 20 — os direitos iguais para as mulheres, as preocupações ambientais (o banimento da energia nuclear) e as marchas pela paz (a oposição ao envolvimento do país na Guerra do Vietnã). “As preocupações da era atual são domésticas por natureza, particularmente as demonstrações contra a violência das armas, que mataram centenas de jovens. Ao contrário dos anos1960, os protestos contam com as mídias sociais para organizar o ativismo a partir das bases”, comentou a especialista.

Por sua vez, David Farber, historiador da University of Kansas, explicou ao Correio que King provocou profundas mudanças na sociedade. “Os protestos silenciosos e as manifestações lideradas pelos afro-americanos forçaram os brancos a reconhecerem o racismo que permeou os EUA. A magnífica oratória de King os desafiou a escolherem entre o racismo e os ideais — igualdade, democracia e tolerância — que eles afirmavam defender.” Em 1965, os EUA aprovaram leis que baniram a discriminação racial nos postos de trabalho e em todos os locais públicos. “Mesmo 50 anos depois, há muito a ser feito”, acrescentou.

Farber admite que a sociedade é menos violenta que meio século atrás. “A violência das armas, as prisões em massa e a má conduta policial continuam a afetar a comunidade afro-americana. Sem a liderança do presidente Donald Trump, que tem agravado os problemas, jovens voltaram às ruas para demandar uma sociedade igualitária.” Segundo ele, nesse sentido, 2018 e 1968 foram bem similares. “King estaria orgulhoso desses jovens que se levantaram pela justiça social.”

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