Publicidade

Correio Braziliense

México: André Manuel López Obrador dá largada na campanha para eleições

Favorito nas pesquisas, na terceira tentativa de conquistar a presidência, o esquerdista se preocupa em tranquilizar eleitores e investidores sobre o futuro


postado em 09/04/2018 06:00

O candidato festejado por correligionários, em um dos primeiros comícios da campanha: revisão de contratos e política econômica moderada(foto: ERIKA MARTINEZ/AFP)
O candidato festejado por correligionários, em um dos primeiros comícios da campanha: revisão de contratos e política econômica moderada (foto: ERIKA MARTINEZ/AFP)

Na terceira campanha presidencial como favorito, o político de esquerda Andrés Manuel López Obrador, 64 anos, adotou um tom mais moderado para conquistar a presidência do México, nas eleições de 1º de julho. O ex-prefeito da Cidade do México, também conhecido como AMLO, tem pedido a eleitores e investidores que confiem em suas propostas e “não tenham medo” de eventuais rupturas políticas e econômicas. Na atual disputa, o candidato da coalizão Juntos Faremos História tem se beneficiado mais dos erros dos adversários que dos próprios acertos, em meio a um cenário de descrédito nos partidos tradicionais e nos governos que não conseguiram solucionar antigas mazelas do país. Estagnação econômica, corrupção, desigualdades sociais e altos índices de criminalidade estão entre os principais temas da campanha.

“Senhores investidores, nossa proposta visa a alcançar uma mudança ordenada e pacífica, para melhorar as condições de vida e de trabalho de nossos cidadãos e tornar possível o renascimento do México”, disse o candidato em um artigo, na semana passada. “Tenham confiança: não somos rebeldes sem causa e temos palavra, sabemos cumprir os nossos compromissos. Não se deixem assustar”, acrescentou.

Obrador lidera as pesquisas de intenção de voto com mais de 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, Ricardo Anaya, da coalizão de centro-esquerda Pelo México à Frente. Em terceiro está José Antonio Meade, ex-ministro das Finanças, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), o mesmo do atual presidente, Enrique Peña Nieto.

Petróleo

O esquerdista chegou a preocupar os mercados com seu programa de governo, que prevê uma revisão dos contratos petroleiros assinados após a abertura econômica do setor energético, em 2014. Outra proposta é a suspensão da construção de um novo aeroporto para a capital federal, projeto que demandará 250 bilhões de pesos (US$ 13,7 bilhões).

Segundo Obrador, os contratos petroleiros e de obras públicas serão revisados “um a um, para evitar casos de corrupção”, conforme os procedimentos legais e “protegendo quem adquiriu títulos”, bem como os trabalhadores cujos fundos de aposentadoria foram investidos em tais títulos.

Ao mesmo tempo, ele insiste que a assinatura do novo Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta) — objeto de negociação entre México, Estados Unidos e Canadá — ocorra após as eleições de 1º de julho, ao passo que autoridades mexicanas pretendem firmar o pacto ainda em abril. Obrador explicou que sua proposta econômica é similar à aplicada no período conhecido como “desenvolvimento estabilizador”, de 1950 a 1970, quando o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu quase 7% ao ano, em média, impulsionado por políticas protecionistas e pela intervenção estatal na economia.

O candidato encabeça uma coalizão que reúne o Partido do Trabalho (PT), o Partido Encontro Social (PES) e a sua própria legenda, o Movimento de Regeneração Nacional (Morena). Uma eventual vitória de Obrador marcaria o fim de uma hegemonia de 36 anos de governos de centro-direita, iniciada em 1982, com a eleição de Miguel de la Madrid, do Partido Revolucionário Institucional (PRI).

Contramão
Segundo o sociólogo mexicano Adrián Acosta Silva, professor e pesquisador da Universidade de Guadalajara, o México segue tradicionalmente na contramão das tendências políticas da América Latina. No momento em que o continente assiste ao avanço de governos de centro-direita, explica Acosta, o país caminha para eleger um político de esquerda. “Somos uma sociedade que parece ir contra as tendências atuais da América Latina”, diz Adrián Acosta ao Correio.

“É necessário lembrar que, dos anos 1960 até os anos 1980, quando a maioria dos países da região vivenciava regimes ditatoriais, que mais tarde se tornariam democráticos, no México fortaleceu-se um regime semidemocrático ou semiautoritário — depende do ponto de vista —, mas não ditatorial ou democrático”, lembra o docente.

Ele também frisa que, no início do século 21, quando o pêndulo político latino-americano se deslocou em direção ao populismo de esquerda, houve no México um processo de democratização marcado pela influência de forças de direita e do ideário neoliberal. “Se essa característica se mantiver, com um eventual triunfo de AMLO, o México será confirmado como um caso de ‘exceção política’ das tendências latino-americanas”, analisa o sociólogo.


Quatro perguntas para ADRIÁN ACOSTA SILVA, 
PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE GUADALAJARA


A delicada relação com os Estados Unidos vai dominar o debate eleitoral?
Para o conjunto político latino-americano e seus vários “universos” nacionais, o fator Trump é a grande novidade da política internacional desde o fim de 2016, mas para o México, em particular, é, ao mesmo tempo, uma novidade e um desconhecido, uma fonte permanente de incerteza e um desafio político. Até o momento, tanto nas pré-campanhas como no início formal do processo, as ações, os enunciados e as ocorrências do “trumpismo” (e o que ele representa como expressão sociopolítica) marcaram a agenda política das relações entre México e Estados Unidos. Na minha opinião, essa questão ocupa e continuará a ocupar um lugar importante nas campanhas presidenciais, dadas as implicações econômicas, políticas e sociais das profundas relações historicamente construídas entre os dois países.

O que explica o favoritismo de López Obrador? 
Existem elementos a considerar na tentativa de compreender o “AMLO fenômeno”: o clima de ceticismo social e político, o deficit de desempenho da democracia mexicana e o perfil e a trajetória do projeto político que ele tem pacientemente construído nos últimos 18 anos. O primeiro desses fatores pode ser caracterizado como um clima político dominado pelo ceticismo e pela desconfiança, vigorosamente alimentados pela corrupção, pela persistência da desigualdade social e pelo desempenho decepcionante da economia. Esse clima também é alimentado pelo descrédito dos partidos tradicionais (PAN, PRI, PRD) e de todo o sistema partidário construído ao longo das últimas duas décadas.

Quais os outros fatores?
Há também a percepção da ineficácia que a alternância política e o retorno do PRI (2012-2018) ao poder irradiavam entre os cidadãos. Esse fator tem a ver com uma espécie de sobrecarga, para a jovem democracia mexicana, de demandas econômicas e reivindicações sociais que não puderam ser abordadas ou conduzidas e resolvidas satisfatoriamente por governos democraticamente eleitos. Em outras palavras, as tensões entre legitimidade política e efetividade institucional retornam ao centro explicativo do mal-estar de muitos setores sociais em relação à capacidade democrática de resolver os problemas de desigualdade, equidade e prosperidade que a sociedade exige.

O candidato Obrador também promete reviver um passado de expressivo crescimento econômico, que se deu entre 1950 e 1970...
Ele é um político profissional, carismático, que, ao longo de três eleições (2006, 2012 e 2018), personaliza um projeto que visa à reconstrução de um passado idealizado e de uma forma nostálgica, mas combinados com uma proposta concebida para um futuro brilhante, habitada por promessas de crescimento econômico, honestidade e prosperidade, o que leva à imagem de um país diferente, onde a corrupção é a causa de todo o mal, e aspira a uma sociedade coesa, harmoniosa e feliz.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade