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Correio Braziliense

Nova "Guerra Fria"? tensão entre Rússia e Estados Unidos aumenta

O confronto entre as duas potências ameaçou o planeta durante cinco décadas. Especialistas não descartam conflito militar depois de resposta a suposto ataque químico na Síria


postado em 22/04/2018 08:00 / atualizado em 21/04/2018 22:03

(foto: Alexey Druzhinin/AFP - 27/3/18)
(foto: Alexey Druzhinin/AFP - 27/3/18)
 
Pela primeira vez desde a dissolução da União Soviética, em 1991, duas potências militares revivem o temor de um conflito nuclear. A hipótese de confronto de proporções inimagináveis ganhou força no último dia 13, depois que os Estados Unidos comandaram uma coalizão, formada por França e Reino Unido, e responderam com uma ofensiva cirúrgica ao suposto ataque químico ocorrido em Douma, na região de Ghouta Oriental, seis dias antes. O contexto político da troca de ameaças ressaltou a nova “Guerra Fria” entre a Casa Branca e o Kremlin — este último, aliado do regime sírio de Bashar Al-Assad. De um lado, Donald Trump, um líder impulsivo e capaz de tuítes nada diplomáticos. Do outro, Vladimir Putin, um presidente calculista e ávido em recuperar o poderio minado pelo colapso da União Soviética. No meio, um conflito civil que deixou mais de meio milhão de mortos.
 
  
 
“Nossa relação com a Rússia é pior agora do que nunca, e isso inclui a Guerra Fria. Não há razão para isto. A Rússia precisa de nós para ajudarmos com a sua economia, algo que seria muito fácil de fazer, e nós precisamos que todas as nações trabalhem juntas”, afirmou Trump, por meio do Twitter, cerca de 48 horas antes dos bombardeios à Síria. O republicano tinha usado o mesmo ambiente para provocar a Rússia, principal inimigo dos EUA entre 1947 e 1991 (leia o Para Saber mais). “A Rússia promete derrubar quaisquer e todos os mísseis disparados na Síria. Esteja pronta, Rússia, pois eles estarão vindo, bons, novos e ‘inteligentes’! Vocês não deveriam ser parceiros de um animal assassino!”, escreveu. Dois dias depois, Trump cumpriu a promessa e Moscou não revidou. O republicano advertiu o Kremlin a não apoiar um “ditador assassino”.

Putin alertou que considerava “essencial evitar qualquer ação irrefletida e perigosa, (…) que teria consequências imprevisíveis”. “O estado atual do mundo nos dá apenas motivos para nos preocuparmos. A situação do mundo está se tornando caótica”, advertiu. Depois dos bombardeios liderados pelos EUA, a Rússia não conseguiu aprovar resolução na ONU condenando a ofensiva militar contra Al-Assad.

A crise envolvendo a participação do Kremlin na guerra civil síria é mais um elemento desestabilizador entre Moscou e o Ocidente (veja arte). Nas últimas duas décadas, intervenções da Otan no Kosovo, a adesão de ex-repúblicas soviéticas à aliança atlântica, a ofensiva russa contra a Geórgia e a anexação da península ucraniana da Crimeia por parte da Rússia evidenciaram o mal-estar de ambos os lados. Moscou teria interferido nas eleições americanas de 2016 e envenenado o ex-espião russo Serguei Skripal, em 4 de março passado, no Reino Unido.

Bipolaridade


Chefe do Programa de Política Doméstica Russa do Carnegie Endowment for International Peace (Moscou), Lilia Shevtsova admitiu ao Correio que a Rússia e os EUA estão em uma etapa de confrontação que lembra a Guerra Fria. “É verdade que, ao menos por enquanto, não existe ameaça de conflito nuclear. A Rússia não tem recursos suficientes para lutar pela bipolaridade”, afirmou. No entanto, a especialista adverte que um fator torna o atual confronto assustador: os antigos tabus e os instrumentos de controle não funcionam. “Ambos os países se engajaram em uma roleta russa. Por quê? A razão está no modo de sobrevivência do Kremlin e na forma com que os EUA projetam a sua dominação”, disse.

Shevtsova crê que nem a Rússia nem os EUA gostariam de se mover para além do recrudescimento de tensões na Síria. “Apenas 19% dos russos pensam que a meta da política externa deveria ser a contenção dos Estados Unidos. O problema é que não estou certa se Putin sabe como descer da árvore.”
 
Ex-embaixador americano no Azerbaijão e na Bósnia e Herzegovina, Richard Kauzlarich classifica a crise entre EUA e Rússia de “ruim” e acusa o líder russo de optar pelo confronto na Ucrânia e na Síria, além de intervir nas eleições de 2016. “As ameaças de Putin de fortalecimento do arsenal nuclear têm preocupado a todos. A última rodada de sanções dos EUA danificou as autoridades próximas ao Kremlin”, afirmou o também professor da Faculdade de Política e Governo da George Mason University, na Virgínia.

Ele explicou que, ao contrário da antiga Guerra Fria, o novo contexto é desprovido de conteúdo ideológico. “Se esta é uma nova Guerra Fria, ela tem muitas das características da Velha Guerra, como a ameaça de uso de aeronaves, o ruído das armas nucleares e a dura retórica. Putin considera o colapso da União Soviética como a maior catástrofe do século 20. Ele tenta reverter as perdas da Rússia e os ganhos do Ocidente”, comentou. Kauzlarich concorda com Shevstova sobre a imprevisibilidade da escalada. “Uma coisa está clara: o risco de conflito, seja ele intencional ou acidental, é alto. Há poucos caminhos abertos para reduzir as tensões.”

Opaq coletou amostras na Síria

Investigadores internacionais entraram, ontem, na cidade síria de Douma e coletaram amostras, duas semanas depois do suposto ataque químico no local — o qual teria deixado pelo menos 40 mortos. 
 
Os inspetores desembarcaram na Síria no último sábado, mas não conseguiram entrar no ex-reduto rebelde. Uma equipe de segurança da ONU chegou a ser alvo de disparos.

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