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Correio Braziliense

Silêncio de Ortega sobre diálogo mergulha Nicarágua no caos

Os protestos contra o governo começaram em 18 de abril contra uma reforma previdenciária


postado em 11/06/2018 19:25

Os protestos contra o governo começaram em 18 de abril contra uma reforma previdenciária(foto: AFP/Oscar Del Pozo)
Os protestos contra o governo começaram em 18 de abril contra uma reforma previdenciária (foto: AFP/Oscar Del Pozo)

 
A violência que atinge a Nicarágua há quase dois meses ganhou força nesta segunda-feira (11/6) na capital, que se viu mergulhada no caos, enquanto o presidente Daniel Ortega guarda silêncio sobre uma proposta dos bispos para retomar o diálogo.

O governo lançou uma ofensiva no domingo, 10/6, que entrou na madrugada desta segunda, para levantar os bloqueios das estradas e houve ataques de civis armados contra policiais de choque.

A capital estava semiparalisada pela falta de transporte e o temor de trabalhadores de ficarem presos no fogo cruzado.

"O objetivo é ter o controle da estrada Pan-americana e deixar de forma indefinida o pessoal do governo para que (os opositores) não voltem a erguer os bloqueios", declarou uma dirigente dos  manifestantes governistas, que não se identificou.

Os ataques a manifestantes entrincheirados em Sébaco, norte de Manágua, deixaram no domingo, 10/6, um morto e danos materais, segundo o Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh) e a polícia.

No sábado, 9/6, os choques deixaram três mortos em Masaya.

Os protestos contra o governo começaram em 18 de abril contra uma reforma previdenciária e se estendeu a outros setores depois da repressão oficial, que deixou 139 mortos e mais de 1.000 feridos, segundo o Cenidh.

Em Las Maderas, a altura do quilômetro 52 da estrada Pan-americana Norte, foi removida uma barricada e a via se encontrava livre, constatou a AFP no local.

"Estamos aterrorizados, depois que removeram o bloqueio saquearam o comércio e até um porco foi roubado. Não sabemos em que momento vão voltar para nos atacar", disse à AFP uma vizinha que pediu para não ser identificada.


Vias bloqueadas

O bloqueio de quase 70% das estradas visa a proteger as cidades de ataques de grupos paramilitares e pressionar o governo para que aceita negociar uma agenda de democratização do país, segundo os dirigentes do movimento opositor.

Ao menos 6 mil veículos de carga de países da América Central que estão em trânsito pela Nicarágua ficaram presos com mercadorias nas estradas do país, o que gera perdas econômicas, segundo dirigentes de transporte da região.

A operação contra os bloqueios começou na madrugada desta segunda-feira, 11/6, em Manágua, onde a população ergueu barricadas para se proteger de paramilitares que se deslocam em caminhonetes atirando contra a população.

Os homens encarregados de acabar com os bloqueios chegam disparando e colocando abaixo as barricadas, o que obriga os habitantes a se proteger em suas casas, segundo vídeos postados em redes sociais e meios de comunicação.

A maioria dos bairros atacados margeia a avenida João Paulo II - que une o norte e o sul da capital -, uma zona conhecida como "pista da resistência" porque foi a primeira a se rebelar contra a ditadura Somoza, explica à AFP a ex-dirigente guerrilheira e dissidente sandinista, Mónica Baltodano.

Em Mulukukú, jurisdição da Região Autônoma do Atlântico Norte (RAAN), o posto policial foi atacado por homens armados e encapuzados, que mataram dois agentes, feriram outros dois e sequestraram um quinto policial. 

Em León, 90 km a noroeste de Manágua, grupos cívicos convocaram uma paralisação de 24 horas contra a repressão do governo.

A American Airlines cancelou seus voos para a Nicarágua programados para segunda e terça-feira devido aos "distúrbios civis".

Linguagem de repressão

O bispo auxiliar de Manágua, Silvio Báez, pediu à população de Manágua que "se resguarde em suas casas e não saia às ruas".

"Está muito perigoso pela presença dos grupos de choque. Não arrisquem a vida inutilmente".

As ações de repressão prosseguem com a mesma intensidade apesar de o encontro, na quinta-feira passada, 7/6, entre a hierarquia católica e Ortega, a quem foi apresentada uma agenda para antecipar as eleições e reformar a Constituição e a Lei Eleitoral. 

O presidente pediu 48 horas para refletir e dar uma resposta, mas até agora não se pronunciou.

"Usar apenas a linguagem da repressão na Nicarágua nos afasta cada vez mais da realidade, agrava a crise política, a dor do povo e destrói o Diálogo Nacional", disse o bispo Báez, segundo suas palavras, no encontro com Ortega na semana passada.

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