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Correio Braziliense

Jornal cobre própria tragédia após ser alvo de ataque a tiros nos EUA

A edição busca homenagear as vítimas, mas garante que "amanhã esta página voltará a cumprir seu firme propósito de oferecer aos nossos leitores opiniões informadas sobre o mundo ao seu redor"


postado em 29/06/2018 13:36

(foto: Mandel Ngan / AFP)
(foto: Mandel Ngan / AFP)
Annapolis, Estados Unidos -
O jornal local, alvo de disparos que deixaram cinco mortos na cidade americana de Annapolis na quinta-feira, conseguiu publicar sua edição desta sexta (29/6), na qual cobriu a própria tragédia, deixando em branco a página editorial, em homenagem às vítimas.

"Não temos palavras", é o breve e único texto que se lê em uma página editorial praticamente em branco no jornal "The Capital", a edição impressa do periódico digital "Capital Gazette".

A edição busca homenagear as vítimas, mas garante que "amanhã esta página voltará a cumprir seu firme propósito de oferecer aos nossos leitores opiniões informadas sobre o mundo ao seu redor, para que possam ser melhores cidadãos".

O responsável pela parte editorial, Gerald Fischman, está entre os mortos.

O titular da primeira página sobre o tiroteio ocorrido na capital do estado de Maryland, Annapolis, cobria os aspectos básicos do fato, sem incluir um único adjetivo.

"Cinco mortos por disparos no The Capital", diz a manchete na capa, sob as fotos dos cinco mortos - quatro jornalistas e um assistente de vendas. Duas pessoas ficaram feridas.

Membros da equipe do jornal que sobreviveram ao tiroteio - executado por um homem que, segundo se descreveu, tinha uma longa batalha contra o jornal - trabalharam fora da sede após o dramático episódio, fosse um estacionamento, ou mesmo a parte de trás de uma picape.

"Não sei mais o que fazer a não ser isso", disse ontem o repórter Chase Cook. "Faremos circular um jornal amanhã", garantiu.

E assim fizeram.

Nesta edição, além da cobertura geral sobre sua própria tragédia, estão os perfis dos cinco mortos, em mais um capítulo da epidemia de violência armada que atravessa os Estados Unidos.

- Ação por difamação -
As autoridades descreveram o suspeito do ataque - que foi detido e está sendo interrogado - como um homem branco armado com um fuzil, ou uma escopeta e que, aparentemente, agiu sozinho.

O atirador, Jarrod Ramos, de 38 anos, processou o jornal há alguns anos por uma matéria que o relacionava a um caso de assédio.

Um artigo publicado no site do Capital Gazette em 22 de setembro de 2015 cita uma decisão favorável ao jornal em uma ação por difamação iniciada em 2011 por Jarrod Ramos, residente em Laurel (Maryland). 

"Foi um ataque direcionado contra o Capital Gazette", confirmou o chefe de polícia do condado de Anne Arundel, Bill Krampf, à imprensa.

No Twitter, o repórter do jornal Phil Davis fez um relato arrepiante de como o "atirador disparou através de uma porta de vidro na redação contra vários funcionários". 

O editor Rob Hiaasen, conhecido por ser o mentor de vários jornalistas, está entre as vítimas, segundo o jornal The Baltimore Sun, proprietário do Capital Gazette.

O ataque reavivou as lembranças de um incidente ocorrido em 2015 em Roanoke, na Virgínia, no qual dois jornalistas foram assassinados durante uma transmissão ao vivo de um canal local de TV.

"Meus pensamentos e orações estão com as vítimas e suas famílias. Obrigado a todos dos Primeiros Socorros, que estão atualmente no local" dos disparos, escreveu o presidente Donald Trump, em mensagem de apoio postada no Twitter.

Vários legisladores protestaram, fazendo apelos pelo fim da violência armada.

Um estudo recente mostrou que os americanos têm 40% das armas disponíveis no mundo, apesar de representarem apenas 4% da população mundial.

Das 857 milhões de armas que os civis possuem, 393 milhões estão nos Estados Unidos - mais do que aquelas nas mãos de todos os cidadãos comuns em outros 25 países somados, de acordo com a Small Arms Survey.

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