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Correio Braziliense

Mais de 89 milhões de eleitores vão às urnas no domingo no México

Campanha é a mais violenta da história recente do país, com 133 políticos mortos


postado em 01/07/2018 07:30

Policiais de Salamanca, no estado de Guanajuato, observam os corpos de cinco colegas assassinados durante ataque armado: violência desenfreada(foto: Gustavo Becerra/AFP)
Policiais de Salamanca, no estado de Guanajuato, observam os corpos de cinco colegas assassinados durante ataque armado: violência desenfreada (foto: Gustavo Becerra/AFP)

Na véspera do confronto com o Brasil pelas oitavas de final da Copa do Mundo, o México terá hoje uma disputa capaz de determinar os rumos de um Estado carcomido pela corrupção e golpeado pela insegurança sem precedentes. Desde setembro, início da campanha, 133 políticos e 50 familiares foram assassinados no país. Na última quarta-feira, o prefeito interino da localidade de Buena Vista Tomatlán, no estado de Michoacán, tornou-se a vítima mais recente. As eleições mais violentas da história mexicana também marcam uma ruptura com séculos de hegemonia dos partidos tradicionais. Andrés Manuel López Obrador, candidato da coalizão de esquerda “Juntos faremos história”, é favorito absoluto nas pesquisas. Promete uma transformação pacífica profunda e escolheu a luta contra a corrupção como mote.

Cerca de 89 milhões de cidadãos estão aptos a eleger o próximo presidente, governadores, prefeitos e congressistas. As sondagens indicam que López Obrador terá ao menos 20 pontos percentuais de vantagem sobre Ricardo Anaya, da coalizão formada pelo Partido de Ação Nacional (PAN, direita), pelo Partido da Revolução Democrática (PRD, centro-esquerda) e pelo Movimento Cidadão. O governista Partido Revolucionário Institucional (PRI), do presidente Enrique Peña Nieto, é representado por José Antonio Meade, que aparece em um distante terceiro lugar.

Para Alejandro Hope, um dos analistas de segurança mais renomados do México, os principais desafios do novo governo serão conter a violência e reiniciar o processo de construção institucional. “São cerca de 2.900 homicídios por mês, o dobro do registrado em 2014. O assassinato, no México, é problema sistêmico e persistente, que tem como motor a impunidade. Quase não se investigam os crimes, e a prioridade deveria ser o fortalecimento da Promotoria de Justiça”, afirma ao Correio. “Um assunto crucial é a reforma policial. O México tem 1.800 corporações policiais e a maioria não funciona.”

Professor do Colegio de la Frontera Norte (em Tijuana) e especialista em narcotráfico no México, Vicente Sánchez Munguia acredita que nunca houve um processo eleitoral com tanta violência contra candidatos e políticos. “Isso ocorre sobretudo em áreas menos urbanas, onde o controle territorial das organizações criminosas se faz presente. Os governos locais têm ficado praticamente nas mãos desses grupos, sem que o Estado tenha mostrado eficácia na proteção da população e dos políticos. Ser candidato de qualquer partido é uma aposta de alto risco.”


Desafio


Caso vença as eleições, López Obrador terá o desafio de reconstruir as instituições de Justiça e de segurança, a fim de levarem adiante um processo de pacificação, controle e eficácia contra o crime. Munguia também considera cruciais acordos políticos para empreender as mudanças exigidas. “Peña Nieto e o governo anterior tiveram grande fracasso na luta contra a violência, não quiseram combater a corrupção e a impunidade. Além disso, as Forças Armadas não têm feito o que deveriam para frear a violência.” Alejandro Hope considera que as eleições de hoje representam o triunfo da esperança sobre o medo. “As emoções predominantes no México são o desencanto, a raiva e a preocupação. Os partidos que governaram o país têm reputação arranhada, e escândalos de corrupção minaram a legitimidade das instituições.”

O mexicano Hector Dominguez-Ruvalcaba, professor da Universidade do Texas (Austin), atribui a violência sem precedentes à proliferação de organizações criminosas depois do enfraquecimento dos cartéis Los Zetas e de Sinaloa. Ele cita também o crescimento das atividades delituosas fora do narcotráfico, como o roubo de combustível e de cargas, e a entrada dessas facções em atividades produtivas, como a mineração e a extração de madeira. “O regime de corrupção do governo de Peña Nieto está diretamente relacionado à impunidade do crime organizado e à fusão de estruturas do governo com a das máfias. O desafio do novo governo é mudar a estratégia.”

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