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Correio Braziliense

Alemanha aguarda veredicto de um dos maiores julgamentos de neonazistas

Os cinco juízes de um tribunal de Munique decidirão se a neonazista Beate Zschäpe, de 43 anos, participou de nove assassinatos xenófobos


postado em 10/07/2018 17:00 / atualizado em 10/07/2018 17:42

(foto: Matthias Schrader/Germany OUT / AFP / POOL)
(foto: Matthias Schrader/Germany OUT / AFP / POOL)

 
Depois de mais de cinco anos de debates, a justiça alemã dará nesta quarta-feira (11/7) seu veredicto em um dos maiores julgamentos de neonazistas desde a Segunda Guerra Mundial, um caso marcado por inúmeros escândalos.

Os cinco juízes de um tribunal de Munique decidirão se a neonazista Beate Zschäpe, de 43 anos, participou de nove assassinatos xenófobos e no de uma policial entre os anos 2000 e 2007. 

A justiça também suspeita que Zschäpe, única sobrevivente de um trio de neonazistas oriundos da ex-RDA comunista, participou em dois atentados contra comunidades estrangeiras e 15 assaltos a bancos, segundo a acusação.  

A promotoria alemã afirma que a acusada forneceu um apoio logístico importante a seus dois colegas, administrou as finanças do trio e encontrou alojamentos durante os muitos anos de sua vida na clandestinidade. Poderia ser condenada à prisão perpétua. 

Outros quatro neonazistas, suspeitos de fornecer uma ajuda logística ao trio chamado "Clandestinidade Nacional-Socialista" (NSU), são réus desde a abertura do julgamento, em 6 de maio de 2013, e poderiam ser condenados a até 12 anos de prisão. 

Zschäpe é a única sobrevivente do grupo que formava com Uwe Mundlos e Uwe Böhnhardt. Em novembro de 2011, a polícia encontrou os dois homens mortos por tiros quando se preparava para prendê-los. 

Os investigadores acreditam que ambos se suicidaram ou que um deles matou o cúmplice antes de tirar a própria vida. 

300.000 páginas

Com 437 dias de audiência, um processo de 300.000 páginas, 15 advogados de defesa, 750 testemunhas, mais de 50 especialistas e cerca de 80 partes civis, este julgamento não tem equivalente desde o da quadrilha Baader-Meinhof há 43 anos. 

Oito das vítimas assassinadas pelo grupúsculo eram em sua maioria turcas ou de origem turca. Havia também uma grega e uma policial. 

Este caso comoveu a Alemanha e pôs em evidência as falhas do serviço de inteligência interior, ao mesmo tempo em que mostrou o perigo subestimado das redes de ultra direita alemãs. 

A atividade do trio foi, além disso, uma dor de cabeça para o governo alemão, já que os supostos assassinos conseguiram agir impunemente durante anos.

A Alemanha pediu perdão à ONU pelos erros cometidos durante a investigação, e a chanceler Angela Merkel expressou a "vergonha" de seu país ante esses crimes. 

Os assassinatos apontaram a donos de pequenos comércios, em sua maioria turcos ou de origem turca, em toda a Alemanha, e seu autor foi apelidado de "assassino dos kebabs". 

Acusadas por erro

As famílias foram acusadas por erro, e os investigadores nunca estudaram seriamente a hipótese de xenofobia. 

Alguns familiares das vítimas contaram ante o tribunal que a polícia suspeitava que os falecidos tinham morrido em ajustes de contas entre narcotraficantes ou em casos de lavagem de dinheiro. 

Foram destruídos documentos importantes antes de que a investigação terminasse. 

Uma comissão de investigação parlamentar estudou as disfunções da polícia e da justiça, e o então presidente da Câmara Baixa falou de um "desastre histórico sem precedentes" e denunciou "o enorme fracasso das autoridades" na investigação que durou mais de uma década. 

"Nenhum dos policiais que declararam como testemunha no julgamento se desculpou" com as famílias das vítimas, se indigna o jornal Berliner Zeitung. 

O julgamento se perdeu em detalhes do procedimento e atrasou pela vontade da principal acusada de demitir seus três advogados, antes de decidir contratar outros dois defensores.

Beate Zschäpe, que permaneceu calada durante grande parte do julgamento, acabou se expressando primeiro através de uma carta lida por seus advogados, e depois diretamente em duas ocasiões, a última delas no fim dos debates, no início de julho. 

"Por favor, não me condene por algo que não quis nem cometi", disse ao presidente do tribunal, Manfred Götzl. 

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