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Correio Braziliense

Masaya sob forte vigilância após tomada de controle pelo governo

O ataque a Masaya foi um desafio aberto à comunidade internacional, que nos últimos dias intensificou os chamados a Ortega para que detenha a violência


postado em 18/07/2018 19:58

(foto: Inti Ocon/AFP)
(foto: Inti Ocon/AFP)

 
Forças leais ao presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, celebraram nesta quarta-feira (18/7) a tomada de controle da cidade rebelde de Masaya, após uma violenta batalha de seis horas no dia anterior, às vésperas do 39º aniversário da Revolução Sandinista, em 19 de julho.

Policiais e paramilitares encapuzados fortemente armados percorriam a cidade em caminhonetes, enquanto outros limpavam as ruas das pedras usadas nas barreiras erguidas pelos manifestantes contra o governo que haviam tomado a cidade.

O tráfego recuperou um pouco de sua normalidade em Masaya, 30 quilômetros a sul de Manágua, enquanto moradores circulavam pelas calçadas e alguns estabelecimentos comerciais voltavam a abrir.

Mais tarde nesta quarta, 18/7, a vice-presidente da Nicarágua, Rosario Murillo, proclamou a "vitória" do governo ao retomar à força o controle de Masaya e derrotar um plano "terrorista e golpista".

"Proclamamos a nossa vitória, o nosso avanço sobre essas forças tenebrosas, diabólicas, que durante três meses atingiram e sequestraram a paz, mas não conseguiram", declarou Murillo em sua alocução diária com a imprensa oficial.

Continuou manifestando que foi derrotado "o plano terrorista e golpista acompanhado de uma infame e falsa campanha midiática que uma minoria cheia de ódio quis impor na Nicarágua".

Contudo, um organismo de direitos humanos denunciou que 200 habitantes fugiram pelas encostas da lagoa de Masaya perseguidos pela polícia por sua participação nos protestos.

"Nesse momento, essas pessoas que se refugiaram nas encostas da lagoa de Masaya estão sendo perseguidas para sua captura pela polícia e paramilitares, que estão usando cães para a sua busca", afirmou o secretário da Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos (ANPDH), Álvaro Leiva.

Masaya foi o último reduto opositor tomado pelas forças do governo, em meio à onda de protestos iniciados em 18 de abril na Nicarágua, nos quais 280 pessoas morreram.

Não ficou claro quantas pessoas morreram na tomada de Masaya. O Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh) documentou dois mortos, enquanto o governo informou de um policial falecido, embora uma moradora tenha dito à AFP que foi "um massacre". Um paramilitar assegurou que não houve vítimas fatais.

"Foi uma batalha de quase seis horas ontem (terça-feira), e a ideia era desalojá-los para que tenham a cidade livre de bloqueios", assinalou à AFP Francisco, paramilitar de 45 anos que participou da violenta operação para recuperar o controle de Masaya.

Francisco assegurou que "a população o recebe bem e nos agradece".

Os paramilitares encapuzados com armas de grosso calibre e camisas azuis celebrar a vitória, ovacionando Ortega.

Livia Castillo, dona de casa de 38 anos, advertiu que "não sabemos (o que vai acontecer), estou muito assustada, nunca havia acontecido isso. Tenho um filho de 16 anos e estou com medo de que o levem. Estamos muito tristes".

"Já ganharam a batalha de nós, mesmo que os jovens digam que não estão derrotados, que vão continuar, mas nós, como mães, nos preocupamos com nossos filhos, porque são muito jovens", disse Castillo.

O último reduto

Outros habitantes de Masaya celebraram a operação que retirou os manifestantes.

"Graças a Deus tudo se recompôs, pois a paz voltou. Essas pessoas ruins que procurem como pagar o dano que fizeram (...) apenas esperamos prosperidade e trabalho, nada mais, e que os turistas voltem, que não tenham medo", disse à AFP Giovania Valitán, de 34 anos.

Nesta quarta-feira, a Organização de Estados Americanos (OEA) aprovou uma resolução que exorta o governo da Nicarágua a fortalecer as instituições democráticas e a apoiar eleições antecipadas com a oposição.

A iniciativa, impulsionada por Estados Unidos e outros sete países, foi aprovada por 21 votos a três, incluindo Nicarágua e Venezuela. Sete nações se abstiveram e três estavam ausentes durante a votação, entre elas a Bolívia.

O ataque a Masaya foi um desafio aberto à comunidade internacional, que nos últimos dias intensificou os chamados a Ortega para que detenha a violência.

Os confrontos de terça-feira, 17/7, estiveram concentrados no bairro indígena Monimbó.

O secretário da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), Paulo Abrão, comentou com a AFP que a situação na Nicarágua continua "alarmante".

"Há uma escalada da violência e uma diversificação das formas de repressão. Agora há sequestros, tomada de terras, invasão de casas de madrugada. A situação da Nicarágua é alarmante e cada dia piora mais", advertiu Abrão.

Horas antes dos ataques a Masaya, o chefe da polícia da cidade, Ramón Avellán, declarou que os policiais "têm o compromisso de limpar os bloqueios de vias em nível nacional custe o que custar".

O secretário da presidência nicaraguense, Paul Oquist, assegurou nesta terça-feira à AFP em Bruxelas que "a tentativa de realizar um golpe de Estado na Nicarágua já está acabado" e advogou pela resolução da crise mediante o diálogo.

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