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Correio Braziliense

China e Rússia apostam em 'guerra de comunicação' para fortalecer Brics

Iniciativas incluem uma versão em português do site de notícias oficial do governo chinês e a implementação da TV Brics, que já funciona em fase de testes


postado em 20/07/2018 07:39 / atualizado em 20/07/2018 10:00

Um dos painéis do 3º Fórum de Mídia dos Brics: narrativas em disputa(foto: Reprodução )
Um dos painéis do 3º Fórum de Mídia dos Brics: narrativas em disputa (foto: Reprodução )

Cidade do Cabo — Chineses e russos estão empenhados em utilizar os meios de comunicação como forma de estreitar os laços entre os países que formam os Brics (acrônimo em inglês para Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Durante o 3º Fórum de Mídia do bloco, realizado na quarta e na quinta-feira (18 e 19/7), na Cidade do Cabo (África do Sul), veículos estatais dos dois países apresentaram iniciativas que buscam favorecer a consolidação da iniciativa.

Com a maior delegação no fórum — realizado uma semana antes da cúpula de chefes de Estado, que ocorre entre 25 e 27 de julho, também na África do Sul —, o governo chinês anunciou que trabalha na implementação da versão em português de seu site de notícias oficial, o china.org.cn.

Segundo Wang Xiaohui, editor do portal, que já conta com versões em francês, alemão, japonês, russo, espanhol, árabe, esperanto e coreano, o objetivo é apresentar aos brasileiros e, consequentemente, aos demais países de língua portuguesa, informações sobre a China a partir de um ponto de vista próprio.

Para o governo do gigante asiático, os veículos de comunicação da Europa e dos Estados Unidos ainda dominam a narrativa sobre a realidade chinesa, fazendo com que os brasileiros tenham uma impressão distorcida do país. "Achamos que o Brasil tem uma visão errada da China. É por isso que vamos criar uma versão em português, para poder falar com o Brasil diretamente, apresentar a verdade, que nem sempre é mostrada pelos veículos ocidentais", afirma Wang.

Ainda de acordo com o editor, o projeto deve levar dois anos para ser implementado e pode incluir a contratação de jornalistas brasileiros, que, a princípio, trabalharão em Pequim. "Se formos bem-sucedidos e crescermos, podemos pensar em manter uma equipe no Brasil", diz.

TV Brics


Com esse movimento, a China segue os passos do governo russo, que também acredita na necessidade de utilizar os meios de comunicação para fazer um contraponto à forma como a Rússia é apresenta pelos jornais e agências de notícias dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. A Rússia já criou a versão em português do site de sua agência de notícias, a Sputnik, cujo slogan deixa clara a ideia de que uma guerra de comunicação ocorre paralelamente às disputas geopolíticas: "Contando o que não é contado".

Diferentes representantes russos no evento também defenderam a tese de que os veículos ocidentais enfatizam apenas os aspectos negativos de seu país, o que dificulta o fortalecimento de iniciativas como os Brics. Agora, o governo do presidente Vladimir Putin investe em uma nova empreitada na área de comunicação: a TV Brics.

Trata-se de um canal de televisão que, além de produzir conteúdo próprio, abrirá espaço para as produções das televisões públicas dos demais países do Brics. Segundo Alexandre Gorelik, vice-diretor da empreitada, a tevê já funciona em fase de testes, com produções disponíveis na internet, e fechou acordos com todos os demais países do bloco, exceto o Brasil.

Por sinal, a ausência no Fórum de veículos públicos e governamentais do Brasil — representado no evento por poucos veículos privados — é um reflexo do afastamento dos Brics realizado pelo governo de Michel Temer. Os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, do PT, investiram muito mais em parcerias com os Brics do que o emedebista, que, apesar disso, confirmou presença na cúpula que começa no próximo dia 25.

Os outro quatro países do bloco, especialmente Rússia e China, acompanham as eleições de 2018 na expectativa de que o próximo governo brasileiro volte a se aproximar dos Brics. Há uma visão de que esse movimento de retorno seja impulsionado também pela política exterior agressiva adotada pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

*O repórter viajou a convite o 3º Fórum de Mídia dos Brics

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